Regra número 17

1312 Palavras
A casa dos meus pais estava diferente do que eu me lembrava, mesmo que minha mudança tenha sido recente, parecia que eu tinha ido anos antes e voltava finalmente para uma visita. Eles pintaram todo o ambiente de creme por dentro, isso não me fez esquecer daquelas paredes azuladas marcadas com à tinta de caneta que Sofia pegava da bolsa do meu pai para fazer desenhos sem sentido de bonecos magrelos com cabeças gigantes como o Pairolito de Apenas um Show, por exemplo. Eu me lembrava de rir e de dizer que aqueles eram nossa família em desenho. Claro que fazia e continuava fazendo desenhos ainda mais estranhos do que os dela por não saber desenhar direito, mas na universidade de artes só os fazia quando estava sem inspiração para fazer alguma música. Já que até os professores entenderam o quão r**m eu era naquilo. No centro da sala estava o grande lustre de prata que se parecia muito com o antigo que tínhamos antes, ele existia ali a onze anos e acabou se quebrando por uma brincadeira infantil. Me lembro que sua existência havia acabado no dia que resolvemos nos aventurar. Eu e Sofia subíamos na mesa de centro esticando nossos bracinhos minúsculos até conseguir nos balançar. Fizemos como nós desenhos animados que assistimos, o problema era que os lustres reais não tinham nada de igual aos dos desenhos, pois na vida real eles se soltam do fio que os prende e levam o peso todo para chão. Aprendemos isso da pior forma quando eu abri uma cratera na testa e Sofia quebrou o braço. Ouvimos nosso pai gritar feito louco a cada gota de sangue e choro que esvaia de nós. Os sofás agora eram vermelho escuro, quase vinho. Eu nunca havia aprontado nos antigos azuis com flores amarelas, mas já coloquei fogo no carpete preto que teve que ser restaurado. Penso agora que eu não era uma criança muito boa. Eu e Dylan estávamos sentados no sofá de três lugares, ficava de frente para outro com dois lugares onde meu pai se encontrava com minha irmã no colo. Eu havia apertado ela tão forte quando à encontrei na porta que eu quase a sufoquei de tanta saudade. As escadas que levavam aos quartos também estavam em nossa frente, atrás do sofá e apenas alguns centímetros de distância de nós. Me recordou das escorregadas com colchão que eu e minha amiga dávamos sempre nos machucando e rindo no final de tudo. Dessa vez eu não estava rindo, estava nervosa com o corpo trêmulo e as mãos se esfregando uma na outra com tanta força que se fosse possível eu mesma arrancaria minha pele. Meus pais sorriam como duas crianças enquanto conversavam com Dylan sobre os dias que ele me ensinava e cuidava da minha situação também. Tive que ouvi diversas vezes sobre o quanto eu era teimosa e que brigava com todos por algo bobo. Aquilo me fez sorrir, pois em partes era verdade. Minha mãe se levantou para caminhar em direção ao corredor que levava a cozinha, o mesmo corredor onde eu brincava de deslizar após prender sacolas de plástico aos pés quando pequena. Um dos meus primeiros machucados foi feito ali, quando eu errei a manobra e fui de encontro ao grande quadro dos meus avós ao lado direito. O vidro acertou minha cabeça tão forte naquele dia que eu só acordei na manhã seguinte na cama do hospital. Francamente eu suspeitava que a causadora de meu acidente no campus não havia sido ninguém mais do que eu mesma, afinal me machucava mais do que tudo. Porém Olga tinha tantas provas que eu pude ver claramente a mão me empurrando e o vulto correndo em seguida. Mesmo eu não querendo mais que houvesse investigações, ainda assim queria saber quem foi tão c***l a ponto de algo tão r**m. — Camila? — Olhei para o meu pai, que analisava calmamente minhas mãos coladas uma na outra. — Tem algo que queira nos contar? Era incrível a forma como meu pai me conhecia perfeitamente, era ainda mais incrível que ele lesse um gesto meu e tentasse decifrá-lo com o olhar. — Não pai, ainda… — O “ainda” só foi ouvido por mim mesma. Minhas veias ardiam a cada segundo que o jantar se aproximava, meu estômago se embrulhou mais e me fazia querer vomitar. Foi então que me xinguei por ter tido aquela ideia de ir até São Paulo contar sobre meu relacionamento — O jantar está servido! — Cantarolou minha mãe da sala de jantar que ficava ao lado da cozinha. Todos se dirigiram para o encontro dela, deixei meu professor seguir em minha frente para eu poder andar e respirar e pelos olhares que ele me lançava, eu pude saber o quanto ele queria me abraçar e me acalmar ou pelo menos segurar minha mãos carinhosamente para me deixar em paz. Respirei fundo e finalmente virei para a porta no fim do correr de frente para a cozinha. Todos já estavam sentados em seus lugares como era quando eu era menor. Meu pai e minha mãe nas pontas da mesa, um de frente para o outro. Lembro-me de correr para o colo de um dos dois sempre que iriamos comer juntos, eu não poderia mais fazer isso e logo tudo iria mudar no humor dos dois. Sofi sentou-se de costas para a porta, na frente do professor Dylan que me observava com um meio sorriso. Dei a volta na mesa indo sentar-me ao lado dele, senti sua mão reconfortante apertar meu joelho por baixo da mesa enquanto meus pais falavam sem parar. — Camila, minha filha. Sabe aquela seu antigo namorado, como era o nome dele mesmo? — Meu pai começou fazendo todos olharem para ele, principalmente Dylan. Dei de ombros e ele estreitou os olhos. — Bom, não importa o nome dele, eu soube que ele vai se casar. Eu me pergunto quando você irá tomar essa mesma atitude também. Precisa namorar, sabia? Engasguei o pedaço de frango assado que mastigava sentindo a carne se prender em minha garganta com aquelas palavras. Meus olhos se arregalaram enquanto os pigarros e tosses me dominavam. Dylan bateu algumas vezes levemente em minhas costas tentando me livrar daquilo e depois de alguns bons minutos de luta a carne desceu. — Nossa filha que horror, eu estava brincando. — Sabe, senhor Chaves… — Dylan começou, mas meu pai o interrompeu. — Me chame de Roberto, meu caro. — Senhor Roberto. — Ele disse calmamente como se estivesse com medo. — Camila anda meio tensa por conta do nosso recital que está se aproximando. Meu pai deu um meio sorriso como se entendesse e eu resolvi conter o medo ao perceber que meu namorado estava tentando me tirar daquela situação sozinho e eu não poderia deixá-lo assim. Era hora de encarar meus demônios. — Na verdade… Na verdade não é esse o motivo. — Todos se calaram voltando-se para mim com seus cenhos franzidos. Sofi achava tudo divertido e mostrava isso sorrindo a cada garfada que dava. Beberiquei um pouco de refrigerante de limão e engoli em seco mesmo com a garganta molhada. — Eu estou namorando, pai. Soltei rápido como se estivesse tirando um curativo de ferida. — E porque não trouxe o felizardo para nos conhecer? — Interveio minha mãe fazendo meu coração descer pelo meu organismo e bater em meu estômago. Soltei um longo suspiro deixando os minutos rolarem e então tomei coragem. — Eu… Trou… xe. — O sim saiu inaudível, mas o bater dos garfos na mesa me disseram que todos ouviram muito bem. Ergui levemente a cabeça para ver o ambiente e todos os olhares não eram mais meus, a atenção estava voltada para Dylan que me olhava sem graça e surpresa. — Que? — Meus pais gritaram em coro se erguendo da mesa.
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