Regra número 9

2165 Palavras
A semana se passou rapidamente e pude adiantar meu trabalho para que no último dia, antes do fim de semana, eu não ficasse até tarde organizando prateleiras. Na sexta tudo estava mais do que organizado e meu expediente na biblioteca acabou cedo devido à isso. Minha folga estava para começar e eu já me sentia relaxada antes mesmo de ter saído do prédio da universidade. O senhor Herman estava fechando as janelas da biblioteca enquanto eu desligava todo o sistema do computador para podermos ir embora. Meu celular vibrou no bolso do meu short e eu o peguei em mãos desbloqueando a tela para ler o sms que havia acabado de me ser entregue. “Estou te esperando aqui fora. Dylan.” Dei um meio sorriso e enfiei o aparelho de volta no bolso para terminar minha última tarefa. O computador já estava na tela de carregamento dos arquivos do dia, quase desligando e eu comecei a arrumar minhas coisas, colocando-as de volta na minha mochila. Tirei o casaco de frio de dentro da bolsa, mesmo estando tudo trancada e sem ventos dentro do prédio, eu senti um tremor pelo corpo e isso indicava que lá fora estava ventando. Minhas pernas eram o de menos, poderiam aguentar os 10 minutos de caminhada até minha casa. Então eu só precisava deixar meus braços quentes até que corresse para o meu guarda-roupas pegando uma calça. — Pode ir senhorita Chaves, eu termino tudo por aqui. Está ficando muito tarde para uma mocinha andar sozinha por aí. — Disse o homem de polo preta e calças sociais combinando com os sapatos bem engraxados. Sorri para ele, pois o senhor Herman era alguém extremamente gentil e educado. nas primeiras vezes tivemos pequenas brigas quando eu insistia em ficar para ajudá-lo à terminar o trabalho, depois que chegamos em um consenso, nunca mais brigamos. Porém só de relembrar isso, eu achava graça. Peguei minhas coisas me dirigindo a saída enquanto ouvia alguns livros sendo colocados em suas prateleiras. Até quis voltar para ajudá-lo, mas minha vontade de ver Dylan fora ainda maior. Percorri todo o corredor de vidro do terceiro andar até as escadas que levavam ao pátio, sempre andando apressada para não deixar Dylan aguardar demais. A escola já estava fechando e não havia aluno algum em seus domínios além de mim. Alguns pontos do local já se encontravam às escuras e outros apagavam depois de um certo tempo. As luzes das escadas eram acendidas por sensor de movimento e a cada hora que uma lâmpada chamuscava em minha frente outra se apagava nas minhas costas. Finalmente cheguei à porta da entrada que dava ao enorme jardim e ao portão de saída, estava fechado com uma pequena portinhola aberta. O segurança noturno esperava o último funcionário sair para trancá-lo por inteiro. Acenei para o homem que retribuiu o gesto dando-me boa noite em seguida. Vi também a sombra alguns centímetros maior do que eu do lado de fora, sorri abertamente cruzando a porta e o abraçando. — Que gostoso. — Ele disse sorrindo para mim. — Estava com saudades? Afirmei e o vi deixar o sorriso em seu rosto ainda maior. Dylan estava com um cheiro novo, pois o cacau que ele tinha costume de usar não estava saindo do seu corpo. Ele tinha um cheiro mais amadeirado que se misturava com o de cigarros que sempre estava impregnado em suas roupas. — Você está com fome? — perguntou ele e eu assenti. — Que bom, porque vamos jantar fora hoje. Senti minha bochecha esquentar ao pensar que aquele seria nosso primeiro encontro. Senti um arrepio percorrer meu corpo e me amolecer por inteira ao me imaginar jantando com ele. Dylan me carregava pela rua para perto da nossa casa, passamos direto de nossa rua e percorremos mais meio quilômetro até um restaurante chique com portas de madeira branca. Sobre ela o nome "Pedacinho do Céu" escrito em inglês nas cores azul e branco, iluminaram a noite mostrando-me o quão fino era o lugar. — Dylan… — parei no meio da rua fazendo-o olhar para mim com seus olhos verdes duvidosos. — É um restaurante chique. Eu não estou apresentável para isso. — Ora, querida, você está perfeita assim. — Eu quero estar apresentável, vou em casa primeiro. — Tentei me virar para sair dali, mas Dylan me puxou e me beijou calmamente parecendo querer afastar de mim à sensação terrível de estar fora do padrão daquele lugar. — Dylan. — Estará apenas eu e você lá. Esqueça todo o resto, porque eu tenho uma surpresa e quero que seja especial. Então me deixa ser romântico? — Fiquei sem reação com aquilo e apenas assenti enquanto ele me olhou de uma forma especial. Fui vencida pelo cansaço, então fechei o sobretudo para poder disfarçar um pouco a roupa. Chegamos na recepção do restaurante, um lugar pintado de vermelho com cortinas brancas que separava a entrada das mesas. Havia um tapete também vermelho estendido da entrada até se perder no balcão marrom claro onde vimos uma jovem de vestido preto e cabelo afro sorrir abertamente com nossa entrada. — Boa noite! Posso ajudá-los? — Disse ela com a voz doce. — Sim. — Dylan respondeu retirando um pequeno cartão de visitas do bolso direito de sua calça jeans. — Tenho reserva para dois na mesa sete. A jovem tomou o papel em mãos e leu atentamente as informações do cartão. Ela assentiu quando já tinha tudo o que precisava e digitou em seu computador algo até que achasse o que estava procurando, em seguida sorriu abertamente para nós apontando para a porta ao lado com à mão espalmada. — Sim, vocês tem. Venham comigo por favor. Ela disse passando pelas cortinas da porta. Dylan segurou minha mão entrelaçando nossos dedos e caminhou para o local por onde a jovem indicava, puxando-me para acompanhá-los. O ambiente apôs as cortinas era mais vermelho do que o anterior. As cortinas das mesas, os tapetes, os castiçais, a cor do amor preenchia cada canto dali. O odor de perfume J'adore Dior exalava pelo local como se um vidro do perfume estivesse espatifado no chão. Caminhamos até uma mesa redonda do lado da janela grande. As cadeiras acolchoadas tinham flores desenhadas no tecido branco e a madeira tinha formas onduladas dando um ar de antiguidade à decoração. A jovem sorriu outra vez para nós e nos apontou as cadeiras motivando-nos a sentar. Logo fizemos e a jovem nos entregou o livro de duas páginas com o título "Manu" — O que vão pedir? — O que você quer comer? — Perguntou Dylan. eu olhava os preços daquele cardápio indignada e totalmente paralisada com os diversos números em um único prato, senti os dedos dele puxarem minha mão e apertar levemente meus dedos. — Peça o que quiser. — Vou pagar a metade então. — Não. — Dylan fechou a cara e antes que eu o questionasse, falou. — Eu quero fazer algo legal. Então peça o que quiser e me deixe agir como eu quero. A confusão tomou meus pensamentos, pois não entendi o que ele quis dizer com aquelas palavras e o porquê ele parecia tão nervoso. Notei que ele tremia ligeiramente e isso pareceu ainda mais estranho, começando a me deixar inquieta. Depois de alguns segundos escolhemos uma massa francesa cujo nome eu não sabia pronunciar, Dylan pediu um vinho suave com pouco álcool para eu acompanhá-lo e a cada minuto ele se tremia mais. Jantamos devagar falando de coisas aleatórias e rindo de certas partes divertidas. Algumas pessoas nos olhavam com olhares curiosos me deixando totalmente vermelha, mas não quis deixar Dylan perceber então fingi o máximo possível que não estava acontecendo nada ao nosso redor. A massa estava deliciosa. Tinha sido banhada em molho de tomate com folhas verdes que davam um toque adocicado ao prato, mas logo acabou por eu estar morta de fome e por ser pouca. Terminamos o vinho. Não tomei mais que meio copo, pois aquilo descia pela minha garganta causando um gosto estranho que não me agradava, mas parecia agradar Dylan que já havia tomado três taças e ainda assim continuava sóbrio. Se fosse eu já estava dançando em cima da mesa. Era um dos motivos de recusar beber outra vez. Finalmente estávamos satisfeitos e prontos para ir. Isso pareceu tornar Dylan mais tenso que o normal e eu já estava começando a achar que devia chamar a ambulância, ainda que ele afirmasse que não era necessário. No final das contas ele respirou fundo e revirou o bolso da blusa, preocupado com algo, fazendo-me franzir o cenho. Ele mordeu o lábio e fixou seus olhos nos meus como se me pedisse algo com os olhos. Esperei, até que de repente sua mão saiu do bolso trazendo uma caixinha vermelha de veludo que ele colocou na mesa e deslizou até tocar em meus dedos. Senti o calor percorrer meu corpo e parar em minhas bochechas, com toda certeza eu estava vermelha. Tentei respirar sem sucesso, pois já estava entendendo o que acontecia. — Dylan… — Tentei dizer algo, mas ele levantou sua mão para me pedir que não falasse. — Quero fazer isso da forma certa, mas você não precisa aceitar se não quiser. No entanto, não quero que sejamos dois peguetes apenas. Quero oficializar o que temos. — Ele abriu o objeto e um anel prata surgiu com detalhes curvos. O objeto estava repousado em uma almofada branca assim como o forro do interior da caixa. Tinha também uma pedra branca sendo segurada pelo ferro do anel, que cintilava com qualquer contato de luz. — Li que no Brasil o casal de namorados tem costume de usar um símbolo do seu relacionamento e eu fiquei horas para achar um tão bonito quanto você. Finalmente encontrei este, tão delicado quanto o que sinto. — Meu Deus. — Falei gaguejando. Dylan deu um meio sorriso e pegou minha mão esquerda, perguntando com os olhos se poderia seguir. Eu apenas assentiu e o vi deslizar o objeto pelo meu dedo enquanto eu tremia como se estivesse morrendo de frio. — Gostou? — Assenti outra vez, pois não sabia o que dizer. Estava catatônica enquanto ele ainda sorria. — Você quer isso? — Sim. — Finalmente as palavras saíram. Pedimos a conta que não demorou à chegar. Quando passamos pela recepcionista, ela tinha um sorriso enorme em seus olhos, me dizendo sem palavras que sabia o que tinha acontecido. Voltamos a passos lentos para casa comigo sempre observando o semblante do meu professor e namorado. Eu não conseguia entender o que acontecia em meu peito, pois ele parecia feliz demais com à noite, pois batia freneticamente de uma forma deliciosa. Me deixava emocionada por tudo o que Dylan fez naquele dia e fazia desde o início. Senti os dedos quentes dele envolvendo os meus e puxarem meu corpo para envolver seu braço pelo meu pescoço. Era uma sensação maravilhosa como se algo crescesse dentro de mim. Eu começava a sentir algo a mais como se meu professor estivesse conseguindo me conquistar aos poucos com aquele jeitinho de ser que só ele tinha. — Tenho outra surpresa. — Ele sussurrou ao pé dos meus ouvidos. Chegamos em nossa rua, mas ele me encaminhou para a casa dele e acreditei que a outra surpresa estava por lá. Ao entrarmos pude notar que as casas daquela rua tinham sido feitas do mesmo modo, pois eu vi à dele e comparei com à minha como se ela tivesse se movido até aquele lado. Os móveis do professor eram da cor marrom e quase tudo era, até mesmo o sofá feito de madeira, tinham assentos e encostos que afofavam o móvel e com certeza estavam colados a madeira. As cortinas creme davam um lado fofo aquele lugar, mas só as cortinas faziam isso. Deu para notar que Dylan tinha uma organização peculiar e adorava à cor marrom. A casa deveria estar arrumada por causa da diarista que via entrar duas vezes por semana, ainda sim algumas coisas não estavam em seu devido lugar. — Ta uma bagunça, eu sei. — abracei-o envolventemente dando-lhe um beijo suave. — Não está uma bagunça e se estivesse, quem ligaria para isso? Tenho uma visão muito melhor aqui. — Apontei para o homem que me deu um sorriso envergonhado, fazendo-me sentir aquela sensação gostosa novamente. — Estou apaixonado por você, Camila. Ele me pegou nos braços levando-me para o corredor na direção do seu quarto. Um grande arrepio percorreu o meu corpo durante o trajeto e acho que estava começando a ficar nervosa. Acredito que Dylan percebeu isso, pois me acariciou tentando me manter calma, mesmo assim eu sentia meu peito voltar a palpitar frenéticamente. Eu poderia dissolver nos braços dele. Chegamos ao fim do corredor, na porta branca que logo foi aberta revelando-me seu interior com cheiro de algodão doce e chiclete. Olhei admirada a surpresa que ele havia mencionado, sentindo meus olhos encherem de lágrimas. Estava perfeito.
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