Margarida Santiago
A chuva cai lá fora, trovões rasgam o céu e me encolho na cama, tentando de alguma forma dormir ou de alguma forma fazer o medo ir embora, então me lembro do som da sua voz, do seu toque carinho que sempre me acalmava e me fazia dormir, não lembro do seu rosto, as vezes um olhar ou um sorriso surge na minha mente, o seu cabelo n***o longo e cumprido. Faz tantos anos que estou aqui, desde que ela se foi e vovó Marta me trouxe para cá, “é para sua segurança, querida”, me disse uma vez quando pedir para que ela me levasse com ela.
Me levantei cedo como todos os dias, o tempo estava nublado ainda com respingos da tempestade da noite anterior, mas por dentro uma tristeza na alma e um pressentimento que algo está para acontecer, não sei explicar nem prever se algo ou r**m, em uma semana completo 24 anos, por mim já tinha partido, mas vovó Marta me disse que não posso, que a minha vida está atrelada a alguém e sinceramente ainda não sei o que isso significa.
- Margarida, minha filha, quero falar com você. _ diz a madre superiora entrando no meu quarto.
- Estou à disposição Madre, não ficou satisfeita com o meu trabalho com as crianças? _ Perguntei confusa, ela raramente vem falar comigo ou com qualquer interna.
- Não é isso, o seu trabalho com órfãos é primoroso, com certeza o senhor tem se agradado do seu esforço e zelo por aqueles pobres rejeitados. _ diz ela tão formal e rígida como uma estatueta de gelo.
- Fico feliz que está tudo bem, mas o que a traz aqui aos meus aposentos? _ perguntei confusa.
- Você já é uma mulher adulta, capaz de tomar as suas próprias decisões, creio que o tempo que está aqui tenha sido suficiente para decidir o que quer da sua vida, creio que tenha o que necessário para ingressar na nossa ordem, se torna uma noviça e em seguida freira, sua tutora acaba de me ligar para informar que está vindo lhe buscar. _ diz ela num tom austero, mas indicando qual decisão devo tomar.
- Confesso para a senhora que gosto muito desse lugar, afinal cresci entre essas paredes, foram poucas vezes que estive lá fora, mas não tenho vocação para ser freira, sonho em ter uma família. _ digo-lhe uma parte do meu sonho, para não dizer que antes quero curtir um pouco ir às praias, o mundo tem belezas extraordinárias, tanta diversidade e cultura.
- Aqui terá uma família muito maior do que aquela que você formar com algum homem, o senhor será teu esposo e todos esses rejeitados serão seus filhos, terá muitos irmãos e irmãs, como eu, a irmã Maria e as outras, pense melhor, você terá tempo para confirmar as minhas palavras a sua tutora.
- Como já disse Madre, não almejo viver toda minha vida aqui nesse convento ou em nenhum outro e mesmo que quisesse não poderia, quando a minha tutora falou que chegará? Devo arrumar os meus pertences imediatamente ou tenho mais tempo.
- É uma lástima que se recuse o caminho que o senhor escolheu para você, minha filha, as portas desse lugar estarão abertas para você caso caia em si e perceba do erro que está cometendo a se afastar do caminho que tenho certeza é o melhor para você, sua tutora chegará no após o almoço e depois de todos os trâmites você irá com ela. _ diz com um ar de superioridade que me irrita, mas prefiro não responder.
- Obrigada por cuidarem de mim por todos esses anos Madre, sentirei falta de todos aqui, vou estar pronta assim que vovó Marta chegar. _ digo me levando ansiosa, esperando a Madre se retirar, ela me olha com desgosto, mas não estou nem aí, anos vivendo nesse convento, até a minha graduação fiz aqui, esperando o momento que enfim teria liberdade, tenho muita fé e creio que onde estiver o meu Deus me guiará e estará comigo, mas não posso mais ficar aqui.
- Pense bem Margarida, a sua tutora sempre se mostrou sensata e tenho certeza que ela não será contra a sua escolha de permanecer conosco, tome o seu tempo. _ diz insistindo mais uma vez, sem se levantar, então decido concordar por hora.
- Tudo bem, Madre, vou pensar sobre isso, rezar um pouco me fará bem nesse momento. _ digo expectante pela sua saída.
- Faz bem minha querida, estarei com você e juntas creio que encontrará o caminho. _ diz tirando um terço do seu bolso.
- Agradeço a senhora Madre, mas prefiro ficar sozinha e refletir sobre a nossa conversa. _ ela assente contrariada e sai batendo a porta, me deixando confusa do porquê dessa insistência na minha permanência no convento. Decidi deixar para lá e comecei arrumar as minhas malas, a ansiedade aumentando a cada hora.
- Oi! Posso entrar? _ diz Paola colocando só a cabeça ´para dentro do quarto.
- Oi! Claro, você sabe que é sempre bem-vinda. _ respondi alegremente, com certeza depois da irmã Ginevra que vejo como uma mãe para mim, Paola é que mais sentirei falta.
- Soube pela irmã Ginevra que vai embora? Que tola eu sou, você já está a arrumar as malas. _ diz olhando para minha mala aberta em cima da cama, os olhos logo enchendo de lágrimas.
- Nós sabíamos que esse da chegaria, mas achei que você iria primeiro, sentirei tanto a sua falta. _ digo a abraçando, assim como eu ela também chegou aqui ainda criança, mas diferente de mim, nunca veio alguém a visitar, sabemos que tem alguém lá fora que paga todas as contas dela aqui dentro, nunca nada faltou e tudo que foi solicitado pelo convento chegou sem nenhum problema.
- Pelo menos você tem a esperança de uma vida lá fora, fico feliz por você, minha linda Margarida, reze que para que um dia lembrem que eu existo e venham me buscar, aí quem sabe podemos nos encontrar lá fora, minha amiga. _ diz entre o choro.
- Sempre rezo e continuarei a rogar por você, minha querida italianinha, sabe meu número e assim que poder entre em contato comigo, não sei onde estarei, mas vamos nos encontrar, somos irmãs de alma e nada poderá mudar isso, ainda que demore anos, um dia nos encontraremos. _ digo chorando agarrada a ela, por anos fomos eu e ela aqui dentro, uma consolando a outra, brincando e alegrando-se juntas.
- Ah Magah o que será de mim sozinha nesse lugar? Eu te amo tanto minha piccola, nunca vou te esquecer, você rezar para que você seja muito feliz. _ diz alisando o meu rosto.
- Vamos ser muito felizes, minha amiga, já sofremos demais abandonadas nesse lugar, com certeza algo novo melhor nos espera lá fora, tenha paciência e fique longe daquelas malucas. _ digo sorrindo a encorajando. Aqui tem algumas internas que se acham superior a nós porque as suas famílias se fizeram presente, elas nos têm como rejeitadas e órfãs, umas nos chamam "rejeitadas", "pobres" e que nunca vamos vão embora, morrer aqui dentro. A sorte que temos é que elas vão embora, infelizmente antes de irem sempre deixam uma semente do m*l para nos perturbar.
- Agora você está livre delas e eu vou ficar sozinha. _ diz cabisbaixa, me abraçando novamente.
- Sempre juntas, minhas meninas. _ diz irmã Ginevra entrando no meu quarto.
- Irmã Gini, Margarida vai embora. _ diz Paola caindo no choro no colo dela
- Eu sei piccola mia, vim chamá-la... está na hora Margarida, a sua tutora chegou. _ diz ela após consolar Paola, mesmo sendo uma mulher de 21 um anos, ela sempre nos chamou "pequenas".