Capítulo 12. Livros

808 Palavras
A noite não traz descanso para Gabriel. Deitado no chão frio, com a manta áspera m*l cobrindo o corpo, ele mantém os olhos abertos, fixos na escuridão do teto. Cada estalo da casa o faz prender a respiração. Cada passo distante parece o anúncio de Francesca surgindo à porta. Ela não aparece. Mesmo assim, o medo não vai embora. Gabriel aprende, naquela mesma noite, que dormir é um risco. Então ele espera. Espera o silêncio mudar de qualidade aquele momento em que até a casa parece ter adormecido. Espera os empregados recolherem-se. Espera o último candeeiro se apagar no andar superior. Só então se levanta. Descalço. Cuidadoso. Pequeno demais para o tamanho dos corredores, mas atento a cada sombra. Ele conhece os caminhos externos melhor do que ninguém, mas ali dentro ainda é território proibido. A biblioteca fica no fundo da ala principal. A porta não está trancada. Nunca esteve. Gabriel entra como quem pisa em um templo. O cheiro de papel antigo, couro e madeira encerada o envolve imediatamente. As estantes sobem até o teto, carregadas de livros que ele nunca tocou livros que ninguém jamais pensou em oferecer a ele. Ele passa os dedos pelas lombadas. Não sabe ler tudo. Ainda não. Mas sabe o suficiente para começar. Escolhe um livro ao acaso. Depois outro. Aprende palavras difíceis no escuro, murmurando baixinho para não ser ouvido. Lê sobre comércio, rotas, números, história. Lê sobre homens que conquistaram poder sem nascer com ele e sobre outros que perderam tudo por arrogância. Aos poucos, cria um método. Lê sempre em pé, perto da janela, para não adormecer. Memoriza o lugar exato de cada livro que tira da estante. Nunca deixa marcas. Nunca dobra páginas. Quando o cansaço pesa demais, ele fecha o livro com cuidado, devolve-o ao lugar exato e volta pelo mesmo caminho silencioso. Sempre antes do amanhecer. Sempre antes de Francesca acordar. No quarto, deita-se novamente no chão, o corpo exausto, a mente acesa. O medo ainda existe mas agora divide espaço com algo novo. Controle. As noites se repetem. Dia após dia, trabalho pesado. Noite após noite, leitura roubada. Francesca percebe mudanças, mas não entende. O menino obedece melhor. Erra menos. Observa mais. Fala ainda menos. Os olhos, porém, estão diferentes atentos demais, como se enxergassem além do que é dito. Ela acredita que o medo venceu. Na verdade, Gabriel encontrou um refúgio invisível. Enquanto a mansão dorme, ele cresce. E, sem que ninguém desconfie, o menino que varre estábulos começa a construir algo que nem Don Alonso nem Francesca Cavalcante sabem reconhecer até ser tarde demais: Uma mente livre. Gabriel tem nove anos agora. O tempo passou sobre ele sem cerimônia, como passa sobre tudo que não pode reclamar. O menino pequeno de Valerosa cresceu em estatura e resistência, mas perdeu algo no caminho a espontaneidade. O riso. A urgência de explicar. Ele ainda trabalha para a família Cavalcante. Cuida dos cavalos com mãos firmes e experientes. Os animais o respeitam. No jardim, seus cortes são precisos, econômicos. Nada é feito a mais, nada a menos. Quando algo quebra, ele não pergunta. Observa. Calcula. Conserta. Ele quase não fala. Quando Francesca se dirige a ele, recebe apenas um: — Sim, senhora. Ou, às vezes, apenas um aceno curto de cabeça. Isso agrada. — Finalmente aprendeu — ela comenta certa vez, satisfeita. Gabriel mantém o olhar baixo. Ninguém imagina o que existe por trás daquele silêncio. À noite, quando a casa dorme, ele continua indo à biblioteca. Já não escolhe livros ao acaso. Agora sabe exatamente o que procura. Contabilidade. Rotas comerciais. Leis não escritas do poder. Histórias de famílias que ascenderam… e caíram. Ele lê rápido. Memoriza melhor ainda. Nunca comenta nada. Nunca deixa escapar. Durante o dia, ele finge ser apenas um menino endurecido pelo trabalho. Um corpo útil. Uma presença esquecível. Ele erra de propósito às vezes ,erros pequenos, calculados, suficientes para não parecer excepcional. Ele sabe que inteligência chama atenção. E atenção, ali, é perigosa. Francesca o observa menos agora. Não por bondade, mas por tédio. Gabriel tornou-se previsível aos olhos dela. Um recurso bem treinado. Nada mais. Ela não percebe quando ele aprende a prever seus horários. Quando antecipa suas ordens antes mesmo que sejam dadas. Quando passa a entender o funcionamento da casa melhor do que muitos adultos. Don Alonso m*l nota sua presença. É exatamente como Gabriel quer. Aos nove anos, ele já entendeu algo fundamental: Força chama confronto. Inteligência visível chama controle. Mas o silêncio… o silêncio passa despercebido. E é nele que Gabriel se esconde. Ele não fala mais de sonhos. Não faz promessas em voz alta. O juramento daquela primeira noite permanece intacto, silencioso, vivo. Enquanto todos acreditam ter domado o menino, Gabriel constrói pacientemente o homem que um dia deixará de obedecer. E quando esse dia chegar… ninguém verá de onde veio o golpe.
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