Capítulo 11. Curiosidade

848 Palavras
A madrugada chega sem anúncio. A cozinha já está limpa, seca, perfeita como se nada tivesse acontecido ali. Gabriel termina o último prato, guarda-o no lugar certo, exatamente alinhado. Só então percebe que as mãos estão dormentes de frio. A camisa ainda úmida gruda no corpo, pesada, desconfortável. Ninguém manda que ele troque. Ninguém pergunta. Ele sai em silêncio pelos corredores de serviço, os pés descalços quase não fazem som na pedra. Cada porta fechada é um lembrete de que a casa dorme tranquila. Apenas ele permanece acordado demais. No pátio interno, o ar noturno é frio, mas limpo. Gabriel inspira fundo, como se pudesse lavar por dentro o que não saiu com a água. Ele não vai direto ao chão onde costuma dormir. Muda o caminho. Os estábulos estão escuros, exceto por uma lamparina baixa deixada para os animais. O cheiro conhecido o envolve como um cobertor rude, mas verdadeiro. Os cavalos se mexem ao ouvi-lo, reconhecendo o som leve dos passos. — Shhh… — murmura. Ele se senta no chão, perto da divisória, abraçando os próprios joelhos. O corpo treme agora que não precisa mais se manter firme. Não chora. Ainda não. Apenas respira fundo, várias vezes, até o frio diminuir um pouco. O cavalo mais velho se aproxima devagar. O focinho encosta no ombro molhado. Gabriel não se afasta. — Não foi minha culpa — diz, quase sem voz. O animal sopra o ar quente, lento. Gabriel fecha os olhos. Na mansão, uma porta se abre. Don Alonso Cavalcante atravessa um corredor iluminado apenas por velas. Ele não foi dormir. O silêncio daquela noite também o incomoda. Ao passar por uma janela lateral, vê algo que não deveria: a silhueta pequena nos estábulos. Ele para. Observa por alguns segundos. Não desce. Não chama ninguém. A mão dele aperta o parapeito da janela. Francesca passa pelo corredor logo depois. — Ainda acordado? — pergunta, suave demais. — Estava pensando — responde ele, sem tirar os olhos da escuridão lá fora. — Sobre o quê? Don Alonso hesita. Depois solta o ar devagar. — Sobre limites. Francesca segue o olhar dele por um instante, mas não vê nada além de sombras. — Não se preocupe — diz ela. — Está tudo sob controle. Ele não responde. Nos estábulos, Gabriel apoia a testa na madeira. O calor do animal, o cheiro, o silêncio tudo ali é simples demais para doer. Ele pensa na água fria. No sorriso falso. Na pergunta daquele homem à mesa. E entende algo novo, algo perigoso: Enquanto ninguém olha, tudo é permitido. Gabriel abre os olhos devagar. Ele não é só o lugar onde a raiva cai. Ele é a prova viva de que aquela casa tem algo a esconder. Mais tarde, quando o corpo já não treme tanto e a noite se aprofunda, Gabriel deixa os estábulos. O caminho de volta é silencioso. As luzes da mansão estão quase todas apagadas, restando apenas algumas velas nos corredores principais. A casa dorme ou finge dormir. Ele caminha descalço, atento a cada som. No corredor lateral, antes da escada de serviço, ele passa pela biblioteca. A porta está entreaberta. Sempre está. Aquela sala é diferente de todo o resto da casa. O ar muda ali. Cheira a papel antigo, madeira encerada, poeira boa. As estantes altas desenham sombras longas nas paredes, como colunas de um templo silencioso. Gabriel diminui o passo. Os livros o chamam sem fazer som. Ele não sabe explicar. Não sabe ler bem. Sabe o básico, o suficiente para decifrar ordens simples, listas, nomes. Mesmo assim, algo ali o puxa. Como se aquelas lombadas guardassem coisas que ele ainda não tem palavras para desejar. Ele se aproxima um pouco mais da porta. Vê títulos dourados, letras elegantes, símbolos estranhos. Vê uma mesa grande ao centro, uma cadeira vazia. Imagina, por um segundo rápido demais, como seria sentar ali. Abrir um livro. Não servir. Não limpar. Apenas… ficar. O pensamento é perigoso. O rosto de Francesca surge em sua mente com nitidez assustadora. O olhar que pesa. A frase dita como sentença: Decisões não são suas. Gabriel sente o estômago apertar. Ele dá um passo para trás. O silêncio da biblioteca parece mudar, como se tivesse sido ofendida pela recusa. Ou talvez seja só o medo falando mais alto. Ele fecha a porta com cuidado, sem fazer ruído. Segue pelo corredor estreito até o quarto que não é quarto apenas um espaço delimitado, chão frio, uma manta fina. Ele se deita, virado para a parede, o corpo ainda cansado demais para resistir ao sono. Mas a mente não obedece. Os livros voltam. As lombadas. As letras. O jeito como aquele lugar parecia existir fora das regras da casa. Gabriel fecha os olhos com força. Não hoje, pensa. Ainda não. O sono vem em fragmentos. Entre um despertar e outro, ele se imagina abrindo um livro às escondidas. Não para fugir. Não para sonhar. Mas para entender. E, enquanto a mansão repousa sob seus silêncios bem mantidos, uma certeza se instala, quieta e insistente: Francesca vigia corpos. Não ideias. E os livros… eles esperam
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