Capítulo 10. Fim do jantar

649 Palavras
A casa muda quando os convidados partem. As vozes se vão, os risos ensaiados morrem no portão, e a mansão retorna ao seu estado natural: silêncio tenso, cheio de cantos onde a raiva se esconde. Gabriel está na cozinha. Lava a louça com movimentos automáticos, as mãos ardendo na água fria misturada ao sabão barato. Pratos caros, copos delicados, restos de uma noite que não lhe pertenceu. Ele se concentra no som repetitivo da água batendo na cerâmica. É mais fácil do que pensar. Os passos vêm do corredor principal. Don Alonso Cavalcante entra primeiro. O casaco já fora tirado, o rosto sério demais para o horário. Francesca vem logo atrás, impecável como sempre, mas rígida. — Foi desnecessário — diz ele, em voz baixa, controlada. — Colocar o menino ali, à vista de todos. — Ele estava apenas servindo — responde Francesca, calma demais. — Como sempre. — Justamente. — Don Alonso para, encara a esposa. — Pessoas de fora não precisam ver isso. Comentários surgem. Olhares. Não gosto disso. Francesca não responde de imediato. Aperta os lábios. O silêncio dela não é concordância. É contenção. — Não quero questionamentos sobre a minha casa — continua ele. — Nem sobre como educamos quem vive nela. — Claro — diz Francesca, por fim. — Entendo. Está certo, meu marido. A resposta é dócil. Submissa até. Gabriel mantém a cabeça baixa. Ele não deveria ouvir, mas ouve. Não deveria entender, mas entende o suficiente. Don Alonso sai sem dizer mais nada. O silêncio que fica é diferente. Pesado. Afiado. Francesca permanece parada por alguns segundos, respirando fundo. As mãos se fecham lentamente. Ela se vira em direção à cozinha. Gabriel sente antes de ver. Ela entra. O som da água continua. Ele não olha. Sabe que não deve. Francesca observa o menino por um instante longo demais. O jeito concentrado. O cuidado excessivo. A tentativa inútil de ser irrepreensível. Isso a irrita. Ela caminha até o canto onde está o balde usado para limpar o chão. A outra criada, ao perceber, sai rapidamente da cozinha sem dizer uma palavra. Francesca pega o balde. Gabriel percebe o movimento tarde demais. A água fria o atinge de uma vez. O impacto o faz estremecer inteiro. A camisa cola no corpo, o sabão escorre pelo rosto, entra nos olhos. Ele prende o ar por reflexo, engasgando levemente. — Olhe o que você fez — diz Francesca, a voz baixa, dura. — Por sua causa, fui constrangida. Gabriel não se move. A água pinga do cabelo, do queixo, das mangas pesadas. — Acha que não percebi aquele homem olhando para você? — continua. — Questionando. Julgando. Ela joga o balde vazio no chão com força. — Seu lugar não é ser visto. Gabriel abre a boca, mas não fala. Não há resposta certa. — Você me expôs — diz ela. — Fez meu marido me repreender. Tudo porque não sabe desaparecer quando deve. Ele engole em seco. — Eu… só estava servindo, senhora. O erro não é o que ele diz. É o fato de dizer. Francesca se aproxima rapidamente, parando a poucos centímetros dele. — Não se defenda — sussurra. — Você não tem esse direito. Ela o observa de cima, molhado, pequeno, tremendo não apenas de frio. — Lembre-se disso — continua. — Quando alguém me enfrenta… alguém paga. Ela se afasta, recomposta em segundos, como se nada tivesse acontecido. — Termine a louça — diz, já saindo. — E não deixe marcas no chão. Gabriel fica parado por alguns segundos depois que ela se vai. A água continua pingando dele para o piso de pedra. Então, lentamente, ele volta a lavar os pratos. As mãos tremem. Os dentes rangem de frio. Mas o rosto permanece vazio. Ele entende agora com clareza dolorosa: Francesca não pode devolver a raiva a quem a causa. Então ela a entrega a quem não pode recusá-la.
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