Capítulo 9. Jantar

1118 Palavras
O dia seguinte não começa com o sino. Começa com o som seco de passos decididos demais para aquela hora. Gabriel desperta antes mesmo de abrir os olhos. O corpo reconhece o perigo antes da mente. Ele se ergue do chão num reflexo aprendido, ainda meio tonto, quando a sombra cai sobre ele. — Levante-se. A voz de Francesca não está fria. Está tensa. Isso é pior. Gabriel fica de pé rápido demais, o joelho reclama, mas ele engole qualquer reação. Mantém os braços ao lado do corpo, o olhar baixo, esperando a ordem seguinte. Francesca está ali, sozinha. O cabelo preso com mais força que o habitual, o vestido impecável, mas o maxilar rígido denuncia algo fora do controle. Os olhos percorrem Gabriel como se ele fosse um objeto m*l colocado num quarto organizado demais. — Você demorou ontem à noite — diz. Não é pergunta. — Sim, senhora. — Onde estava? Ele hesita apenas o suficiente para ser notado. — Nos estábulos. O silêncio se estende. Francesca não reage de imediato. Caminha ao redor dele lentamente, como se estivesse pensando em outra coisa. Gabriel sente o ar mudar, pesado. — Gosta de lá — comenta, por fim.— É… tranquilo, senhora. Ela para atrás dele. — Tranquilidade não é algo que se escolhe aqui. Gabriel fecha as mãos, discretamente. Ele não entende o motivo do nervosismo dela. Não houve erro. Nenhuma ordem desobedecida. Nenhum objeto quebrado. Ainda assim, Francesca parece procurar algo e quando não encontra, cria. — Acha que pode escolher onde estar? — pergunta, agora à frente dele. — Onde comer? Onde descansar? — Não, senhora. Ela o encara por alguns segundos longos demais. Os olhos dela não estão nele de verdade. Estão em algum outro lugar. Alguma outra pessoa. Alguma conversa que ele não ouviu. Alguma perda de controle que não é culpa dele. E ainda assim… — Sempre que me aborreço — diz ela, em tom baixo, quase confessional — percebo que você está por perto. Gabriel não responde. Aprende rápido quando o silêncio é mais seguro que qualquer palavra. Francesca respira fundo, como quem tenta se conter. — Hoje você não vai aos jardins — decide. — Nem aos estábulos. O peito dele aperta antes que consiga impedir. — Vai ficar dentro da casa. Isso nunca é bom. — Há visitas chegando — continua. — E eu não quero… erros à vista. Ela se inclina levemente, obrigando-o a erguer o olhar. — Você vai servir. Em silêncio. Vai limpar o que mandarem limpar. Vai desaparecer quando não for necessário. Gabriel assente. Mas algo dentro dele se desloca. Ela se endireita, recomposta outra vez, como se a tensão tivesse sido descarregada. — Ah — acrescenta, já se afastando. — E fique longe dos estábulos hoje. Não é uma ordem prática. É pessoal. Gabriel observa Francesca se afastar pelo corredor, o som dos passos firmes voltando ao ritmo normal. Ele permanece parado por alguns segundos, sentindo o peso familiar da injustiça. Ele não entende o que fez. Mas entende o padrão. Sempre que Francesca perde o controle de algo maior… ela procura algo menor para esmagar. E, naquela casa, esse algo é ele. Gabriel respira fundo, ajeita a postura e começa o dia. Por fora, obediente. Por dentro, atento. Porque se Francesca está nervosa, algo está errado. E aprender a reconhecer isso pode, um dia, salvar sua vida. O jantar acontece na ala principal da mansão, onde tudo brilha demais e cheira a nada. Gabriel sabe o caminho sem precisar pensar. Os passos são silenciosos, a postura correta, o olhar sempre baixo. Ele serve como lhe ensinaram: entra pela direita, sai pela esquerda, nunca interrompe uma fala, nunca ocupa espaço além do necessário. Um copo reposto antes de esvaziar. Um prato retirado no instante exato em que o talher descansa. Perfeito. Invisível. A família convidada ocupa a mesa com vozes medidas e roupas caras. O patriarca, Don George, tem barba bem aparada e olhos atentos demais para alguém que apenas janta. A esposa fala pouco. Os filhos observam tudo com curiosidade m*l disfarçada. Gabriel sente o olhar do homem nele desde a primeira vez que se aproxima. Quando serve o vinho, as mãos não tremem. Quando se afasta, o som da cadeira de Don George arrasta levemente. — Um momento — diz ele, educado. Gabriel congela por meio segundo, depois retorna, cabeça baixa. — Sim, senhor. Don George não olha para Francesca de imediato. Observa Gabriel com atenção desconfortável. — Quantos anos você tem, rapaz? O silêncio cai sobre a mesa como um pano pesado. Francesca reage antes que Gabriel possa abrir a boca. — Ele não fala durante o serviço — diz, sorrindo. — É parte da disciplina. Don George ergue uma sobrancelha, mas mantém o tom calmo. — Ainda assim… é muito jovem para esse tipo de trabalho, não acha? Don Alonso Cavalcante limpa a boca com o guardanapo, tranquilo demais. — O garoto é afilhado distante da família — diz. — Estamos lhe oferecendo estrutura, aprendizado. Uma oportunidade que muitos não teriam. Francesca inclina a cabeça em concordância. — Ele tem vocação para servir — acrescenta. — E é tratado com todo o cuidado necessário. Gabriel permanece imóvel, os olhos fixos no chão. Ele sabe que qualquer reação um músculo tenso, uma respiração errada pode ser lida como desmentido. Don George convidado observa novamente o menino. Há algo no silêncio dele que incomoda. — Vocação não deveria vir antes da infância — responde, ainda educado, mas firme. Francesca sorri mais largo. — Infância é um luxo — diz. — Alguns aprendem cedo a ser úteis. Ele é grato. Ela olha para Gabriel. — Não é? Gabriel sente o peso da pergunta como uma mão em sua nuca. — Sim, senhora — responde, sem erguer a cabeça. A resposta é perfeita. É isso que a salva. O patriarca convidado não insiste. Apenas assente, mas o desconforto permanece em seu rosto. O jantar continua, as conversas retornam a negócios, terras, alianças. Gabriel segue servindo. Quando a sobremesa é anunciada, ele já não está ali. Sai no momento exato, como se tivesse desaparecido no ar. Nos corredores laterais, longe dos olhares, ele respira fundo pela primeira vez naquela noite. Não entende por que alguém se incomodou. Não entende por que Francesca precisou sorrir daquele jeito. Mas entende uma coisa com clareza silenciosa: Lá fora, aquilo teria sido uma pergunta. Ali dentro, foi um aviso. E Francesca não gosta de avisos. Gabriel segue pelo corredor estreito em direção às áreas de serviço, sentindo a mansão respirar atrás dele, cheia de vozes falsas e benevolência ensaiada. Ele foi perfeito. E, ainda assim, foi visto. O que, naquela casa, pode ser mais perigoso do que errar
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