Capítulo 8. Estábulo

1024 Palavras
Na manhã seguinte, Gabriel acorda antes do sino. O corpo protesta inteiro. Os joelhos estão inchados, as mãos tremem quando ele se levanta do chão frio. Cada movimento é um lembrete do dia anterior, mas ele não se permite gemer de dor. Não ali. Não agora. Ele lava o rosto no balde de água gelada, o choque ajudando a manter a mente desperta. Observa o próprio reflexo distorcido na superfície da água: o rosto ainda jovem demais para carregar aquele olhar. Os olhos, porém, já não são de criança. Antes que alguém o chame, ele já está nos estábulos. Os cavalos o recebem com o som conhecido de cascos no chão e respirações pesadas. Gabriel se move devagar, respeitando o próprio limite. Escova, limpa, troca a água. Um dos animais, o mais velho, encosta o focinho em seu ombro dolorido. O peso é firme, quase protetor. — Eu sei — murmura Gabriel, baixo demais para alguém ouvir. — Eu também fico nervoso. É a primeira vez que fala desde a punição. Quando termina, o sol m*l começou a subir. Ele se senta por um instante, encostado na madeira do estábulo, sentindo o calor morno que ainda resta da noite. Fecha os olhos apenas por um segundo. — Descansando? A voz de Francesca corta o ar. Gabriel se levanta imediatamente, o movimento rápido demais para as pernas cansadas. Ele quase perde o equilíbrio, mas se recupera a tempo. — Não, senhora. Ela está a poucos passos, vestida com elegância impecável, como se o sol e o trabalho jamais a tocassem. Os olhos percorrem Gabriel com atenção clínica. Ela repara no jeito rígido como ele se mantém de pé, na forma como evita apoiar o peso total nos joelhos. — Andando com dificuldade — comenta. — Consequência educativa. Ele não responde. Francesca caminha pelo estábulo, passando a mão pelo pescoço de um dos cavalos, sem medo. O animal se mantém calmo. Isso a agrada. — Você dormiu bem? — pergunta, casual. — Sim, senhora. Mentira. Ela sabe. Ele sabe que ela sabe. — Ótimo — responde. — Porque hoje você vai carregar os sacos de ração sozinho. Gabriel ergue os olhos por um instante, rápido demais. Francesca percebe. — Algum problema? — Não, senhora. — Ótimo novamente. Ela se aproxima dele, perto o suficiente para que ele sinta o perfume limpo, deslocado daquele ambiente. — Quero ver se aprendeu — diz, em tom baixo. — Quando algo for pesado demais… o que você faz? Gabriel pensa por um segundo. Um único segundo. — Peço autorização, senhora. O canto da boca dela se ergue levemente. — Muito bem. Francesca se afasta, satisfeita, deixando a ordem no ar como um teste silencioso. Os sacos são grandes demais para ele. O peso curva suas costas, faz os braços arderem. Ele arrasta, ajusta, respira fundo. Em um momento, o saco escorrega e cai no chão, espalhando grãos. Um dos empregados mais velhos se aproxima, instintivamente, para ajudar. Gabriel levanta a mão. — Não. O homem hesita. — Você vai se machucar, garoto. Gabriel recolhe os grãos com cuidado, ignorando a dor nos joelhos. — Não posso — diz, sem levantar a voz. — Não sem permissão. O empregado olha em direção à mansão. Francesca observa da varanda. Ela vê tudo. Vê Gabriel se virar sozinho. Vê o silêncio dele. Vê a escolha consciente de não pedir ajuda, não porque não precise, mas porque entendeu a regra. Ela sorri. Mais tarde, quando o sol já está alto demais e o trabalho finalmente termina, Gabriel lava as mãos no tanque ,externo. A água escorre misturada com poeira e sangue raso das palmas feridas. Ele não sente orgulho. Mas sente algo novo. Controle. Naquela noite, sentado novamente perto dos estábulos, ele observa os cavalos adormecerem. O mais velho respira fundo, tranquilo. Gabriel encosta a testa na madeira. Francesca acha que o está ensinando a não pensar. Mas Gabriel está aprendendo algo diferente. Quando obedecer. Quando calar. E, principalmente… quando esperar. Mais tarde, quando a mansão já se recolhe em seus próprios ruídos talheres, passos controlados, portas fechadas com propósito Gabriel retorna aos estábulos. Não foi mandado. Ninguém sabe. Ninguém pergunta. Ele traz um pedaço de pão duro, já frio, e um resto de queijo embrulhado em pano. Senta-se no chão de terra batida, encostado na divisória de madeira. O cheiro forte não o incomoda. Ali, ao menos, tudo é honesto. Os cavalos mastigam lentamente, o som ritmado preenchendo o silêncio. Gabriel imita o ritmo deles sem perceber. Morde pequeno. Mastiga devagar. Economiza. Como se o tempo ali tivesse outro peso. Um deles se aproxima mais. O mesmo de sempre. O mais velho. O que não se assusta fácil. Gabriel estende a mão com cuidado. O cavalo aceita o toque sem desconfiança, o focinho quente pressionando de leve seus dedos feridos. Não há julgamento ali. Não há expectativa. Apenas presença. — Aqui ninguém manda em mim — murmura, quase sem som. O cavalo sopra o ar pelo nariz, forte, como se respondesse. Gabriel observa os corpos grandes, presos, mas dignos. Trabalham. Obedecem. Carregam peso. E ainda assim… quando a noite chega, descansam. Ninguém os humilha por respirar errado. Ninguém os pune por pensar. Ele mastiga o último pedaço de pão olhando para o chão. Na mansão, ele é erro. Ali, ele é parte do cenário. Um empregado passa do lado de fora do estábulo, passos apressados. Diminui o ritmo ao vê-lo ali, comendo entre os animais. Não diz nada. Não chama ninguém. Apenas segue. Algumas coisas, todos fingem não ver. Gabriel termina a refeição e não se levanta de imediato. Encosta a cabeça na madeira, fecha os olhos. O corpo dói, mas a dor ali é diferente. Não é punição. É consequência. E isso ele aceita. Por alguns minutos ,poucos, roubados ele não é propriedade de Francesca. Não é lição. Não é castigo. É apenas um menino sentado entre cavalos, respirando no mesmo ritmo que eles. Quando o sino distante anuncia o fim do dia, Gabriel se levanta. Limpa as mãos na calça. Dá um último afago no focinho quente. — Boa noite — diz, baixo. Os cavalos permanecem calmos, imóveis, como guardiões silenciosos.
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