Os dias de Gabriel passam a existir do lado de fora da mansão.
Não por escolha. Por decisão de Francesca.
— Trabalho externo — diz ela, certa manhã. — O sol ensina mais rápido do que palavras.
Ele aprende o cheiro dos estábulos antes mesmo de aprender os nomes completos dos empregados. O feno seco arranha a garganta, o esterco gruda nos sapatos, e os cavalos enormes, impacientes parecem saber que ele é pequeno demais para aquela responsabilidade.
Gabriel cuida deles com atenção silenciosa.
Limpa os cascos, escova o pelo, aprende a não se colocar atrás quando estão nervosos. Um erro pode significar um coice e Francesca não permitiria erros.
Ela observa à distância.
Sempre.
Às vezes da varanda. Às vezes da janela superior. Outras, simplesmente parada, imóvel, como uma sombra bem vestida. Gabriel sente o peso daquele olhar mesmo quando não a vê.
No jardim, ele arranca ervas daninhas sob o sol alto, os joelhos afundando na terra quente. Replanta, poda, carrega baldes de água maiores do que deveria. Aprende a reconhecer o momento exato de cortar um galho sem matar a planta.
— Cuidado — diz Francesca, certa vez. — Tudo que você toca pode morrer se for descuidado.
Ele guarda aquilo.
Quando algo quebra uma cadeira, uma cerca, uma roda solta, chamam Gabriel. Não porque confiam nele, mas porque podem culpá-lo se der errado. Ele aprende a improvisar. A consertar com pouco. A observar antes de agir.
O corpo começa a mudar.
Os braços ficam mais fortes. A pele bronzeada pelo sol quente. As mãos, calejadas. O rosto perde a suavidade infantil rápido demais. Mas o olhar permanece atento, sempre calculando.
Francesca não elogia.
Nunca.
— Ainda não está bom — é o máximo que diz.
— Refaça.
— Mais rápido.
— Você está lento hoje.
Às vezes, quando ele pensa que fez tudo certo, ela encontra um detalhe invisível e o obriga a começar de novo. Gabriel aceita. Abaixa a cabeça. Mas não esquece.
À noite, exausto, ele se senta perto dos estábulos por alguns minutos antes de voltar para o chão frio que ainda é seu leito. Observa os cavalos se acalmarem, respirando fundo, e sente uma estranha identificação com eles.
Presos. Úteis. Observados.
Ele guarda tudo.
Cada ordem injusta. Cada olhar de desprezo. Cada dia que passa sem nome, sem escolha, sem infância.
Francesca acredita estar quebrando Gabriel.
Na verdade, ela está ensinando.
E o menino aprende rápido como sobreviver em silêncio…
e como esperar o momento certo de deixar de ser pequeno.
A primeira punição acontece num dia comum demais para ser memorável.
O céu está claro, o vento leve, e Gabriel termina de consertar uma cerca próxima aos jardins laterais. Ele testa a madeira, firme. Está certa. Ele sabe disso.
Mesmo assim, Francesca chama.
— Venha cá.
A voz atravessa o pátio como lâmina. Gabriel se aproxima, limpando as mãos na calça gasta. Ela não olha para ele de imediato. Observa a cerca, passa os dedos pela madeira, examina cada detalhe com atenção exagerada.
— Quem lhe disse para usar esse prego? — pergunta.
Gabriel engole em seco.
— Foi o que encontrei, senhora.
Ela se vira devagar.
— Eu não perguntei o que você encontrou. Perguntei quem autorizou.
Silêncio.
— Ninguém, senhora.
Francesca inclina a cabeça, avaliando-o.
— Então você decidiu sozinho.
— A cerca precisava ser consertada antes do anoitecer — responde ele, baixo. — Para os cavalos.
Ela sorri.
Não é um sorriso de raiva. É pior. É o sorriso de quem encontrou uma oportunidade.
— Decisões não são suas — diz. — Aqui, você executa. Não pensa.
Ela faz um gesto curto com a mão.
Dois empregados se aproximam, tensos. Eles sabem. Todos sabem.
— Tire o casaco dele.
Gabriel não resiste. Fica imóvel enquanto o pano é retirado, expondo os braços ainda finos, marcados de sol e trabalho. O vento toca a pele, frio demais para a estação.
— Você ficará ajoelhado ali — Francesca aponta para o chão de pedra, sob o sol direto. — Até eu mandar levantar.
A mãe dele passa pela mente de Gabriel por um instante. Depois desaparece. Ele se ajoelha.
O chão é duro. A pedra queima.
O tempo passa devagar demais.
O sol sobe. O suor escorre pelos olhos, arde. As pernas começam a tremer. Gabriel ajusta o peso do corpo uma única vez apenas para não cair.
— Não se mexa — Francesca diz, sem levantar a voz.
Ele obedece.
Outros criados passam. Algumas desviam o olhar. Outras fingem não ver. Ninguém diz nada. A mansão continua funcionando enquanto um menino aprende o preço de pensar sozinho.
Quando ele finalmente cai para frente, apoiando as mãos no chão, Francesca se aproxima.
— Levante.
Gabriel tenta. As pernas não respondem de imediato. Ele tenta de novo. Consegue.
— Aprenda isso — diz ela, olhando-o de cima. — Iniciativa é um defeito quando não vem acompanhada de poder.
Ela se afasta, satisfeita.
Gabriel fica ali por mais alguns segundos, respirando com dificuldade. Depois, volta ao trabalho. Mancando. Em silêncio.
Naquela noite, deitado no chão frio, ele não chora.
Ele entende.
Francesca não quer apenas obediência.
Ela quer apagar qualquer traço de vontade própria.
Gabriel fecha os olhos, sentindo o corpo inteiro doer.
Ela não vai conseguir, pensa