A noite cai pesada sobre a mansão Cavalcante.
Gabriel é levado por corredores longos demais, iluminados por poucas velas, onde seus passos ecoam pequenos e deslocados. Ninguém lhe explica nada. Ninguém lhe pergunta se está com fome. Ele é apenas conduzido, como um objeto que mudou de lugar.
Param diante de um cômodo vazio.
— Aqui — diz uma voz indiferente.
A porta se fecha.
O quarto não é exatamente um quarto. Não há cama. Apenas o chão frio de pedra, uma manta áspera dobrada em um canto e uma pequena janela alta demais para que ele alcance. O ar cheira a limpeza sem afeto.
Gabriel fica parado por alguns segundos, sem saber o que fazer.
Depois, lentamente, senta-se no chão.
As pernas doem. O corpo inteiro parece cansado de um jeito novo, profundo. Ele abraça os joelhos, encostando a testa neles, tentando conter o nó que se forma na garganta.
Ele pensa na mãe.
No pai.
Na casa simples de Valerosa.
Nenhuma lágrima cai.
Chorar parece inútil ali.
Gabriel estende a manta no chão e se deita sobre ela. A pedra da sorte ainda está em seu bolso. Ele a segura com força, como se fosse a última coisa que ainda lhe pertence.
O teto é alto demais. Frio demais.
E, naquela solidão esmagadora, algo se organiza dentro dele não em palavras bonitas, mas em certeza.
Eu não vou ser como eles.
Ele fecha os olhos.
Eu vou ser maior.
Imagina Don Alonso, rígido, intocável. Imagina Francesca, fria como lâmina. Pela primeira vez, não sente apenas medo sente direção.
Um dia eu terei mais do que vocês.
Mais ouro. Mais poder. Mais escolhas.
E então, a promessa mais importante:
E quando esse dia chegar, eu não serei c***l.
Mas vocês vão pagar.
Não com gritos.
Não com violência cega.
Mas com aquilo que mais respeitam: perda.
O corpo pequeno finalmente cede ao cansaço. Gabriel adormece no chão frio da mansão Cavalcante, com o rosto sério, como se já estivesse ensaiando o homem que se tornará.
Naquela primeira noite, sem saber, ele deixa de ser apenas uma criança aprisionada.
Ele se torna alguém que espera.
O amanhecer na mansão Cavalcante não chega devagar.
Ele chega como ordem.
A porta se abre com um rangido seco antes mesmo que o sol toque o céu, e a luz invade o cômodo onde Gabriel dorme no chão. Ele desperta de imediato, o corpo rígido, como se já estivesse treinado para isso.
— Levante.
A voz é de Francesca.
Ela está parada à porta, vestida com perfeição, como se o dia não tivesse poder algum sobre ela. Não há surpresa em seus olhos ao vê-lo no chão. Aquilo já estava previsto.
Gabriel se põe de pé rápido demais, tropeçando por um instante, mas sem reclamar.
— Aqui — diz ela, jogando-lhe um pedaço de pano grosso. — Vista isso.
Não é uma pergunta. Não é um pedido.
Ele obedece.
Francesca caminha pelos corredores sem olhar para trás, certa de que ele a seguirá. E ele segue. Sempre um passo atrás.
— Você trabalha para esta casa agora — começa ela, enquanto descem uma escada estreita. — Isso significa que você escuta, executa e aprende. Não fala a menos que seja perguntado.
Gabriel assente.
— Errar não é permitido — continua. — Esquecer, menos ainda.
Eles param na cozinha.
O cheiro de pão fresco contrasta cruelmente com o estômago vazio de Gabriel. Francesca percebe. Não comenta.
— Comece limpando o chão — ordena, apontando para um balde. — Depois, as louças. Se eu encontrar qualquer coisa fora do lugar, você recomeça.
Gabriel se ajoelha e começa.
A água está fria. As mãos pequenas logo ficam vermelhas. O pano é pesado, e o chão parece nunca terminar. Francesca observa em silêncio, braços cruzados, os olhos atentos a cada movimento errado.
— Não assim — diz, de repente, arrancando o pano das mãos dele. — Você limpa como quem pede desculpas. Faça direito.
Ela o obriga a repetir. Uma vez. Duas. Três.
Quando ele se cansa, ela percebe.
— Cansaço não é desculpa — afirma. — Pessoas pobres se cansam porque são fracas. Você vai aprender a ser útil.
Gabriel abaixa a cabeça, mas não quebra.
Mais tarde, ela o leva ao pátio, ao depósito, às escadas dos fundos. Ensina nomes, regras, horários. Tudo com rigidez. Tudo com grosseria calculada.
— Memorize — diz ela. — Esta casa não tolera erros.
O sol já está alto quando ele recebe a primeira refeição: um pedaço de pão duro e água. Ele come em silêncio, sentado no chão, sob o olhar distante de Francesca.
— Lembre-se — ela diz, antes de se afastar. — Você não está aqui para ser feliz. Está aqui para pagar.
Gabriel segura o pão com força.
Ele aprende rápido naquele dia. Aprende onde pisar, quando falar, quando desaparecer. Aprende a esconder dor, fome, raiva.
E, enquanto trabalha até os braços doerem, ele repete para si mesmo, como um escudo invisível:
Eu vou sobreviver.
E um dia, eu vou embora.
Francesca Cavalcante observa o menino de longe.
E sorri.
Não por bondade
mas porque acredita estar moldando algo que poderá controlar