Capítulo 5. Moeda de troca

1191 Palavras
A decisão é tomada em silêncio. Não há despedidas longas, nem explicações elaboradas. Apenas mãos trêmulas dobrando poucas roupas, o som apressado de objetos sendo colocados em um saco de pano, e olhares que evitam se cruzar por tempo demais. É ainda madrugada quando a mãe de Gabriel o acorda. — Vista-se rápido, meu amor — sussurra, tentando sorrir. Gabriel não pergunta para onde vão. Ele já aprendeu que algumas respostas doem mais quando são ditas em voz alta. Obedece, calçando os sapatos com cuidado exagerado, como se o barulho pudesse denunciar algo. O pai carrega o pouco que possuem. Fecha a porta da casa simples pela última vez, passando a mão pela madeira como um gesto de despedida que jamais admitirá. Eles seguem pela estrada lateral de Valerosa, aquela que corta o campo e evita a colina dos Cavalcante. Por alguns minutos, há esperança. O céu começa a clarear, e Gabriel acredita só por um instante que talvez consigam. Ele segura a mão da mãe com força, sentindo o coração bater rápido, mas vivo. Então os cavalos surgem. O som vem antes da visão. Cascos firmes, ritmados, organizados demais para serem coincidência. O pai para de andar no mesmo instante. — Não — murmura. Três homens fecham o caminho à frente. Outros dois surgem atrás. Vestem cores escuras, carregam armas à cintura e trazem nos rostos a expressão de quem não precisa explicar nada. Capangas da família Cavalcante. — Estavam indo cedo demais — diz um deles, descendo do cavalo. — Don Alonso não gosta de surpresas. A mãe de Gabriel puxa o menino para trás, instintivamente. — Por favor — começa o pai. — Nós só precisamos— — Não precisam de nada — interrompe o homem, com desdém. — Precisam voltar. Gabriel sente o corpo enrijecer. O ar parece pesado demais para respirar. Ele reconhece aquele tipo de poder o mesmo que viu nos olhos de Don Alonso. — O acordo foi claro — continua o capanga. — Dívidas não fogem. Pessoas, sim. E isso… — ele faz um gesto amplo com a mão — …não é permitido. O pai dá um passo à frente, protegendo a família com o próprio corpo. — Minha família não tem culpa. O homem sorri. — Ninguém disse que tinha. Um dos capangas segura o braço do pai com força. Outro aponta o caminho de volta com a cabeça. Não há gritos. Não há luta. Apenas a certeza esmagadora de que resistir só pioraria tudo. Gabriel olha ao redor, procurando uma saída que não existe. Ele sente algo se partir dentro de si quando percebe que não importa o quanto corram há forças maiores que decidem quem pode ir e quem deve ficar. Enquanto são escoltados de volta, Gabriel grava cada detalhe: os rostos, os cavalos, o tom de voz. Ele não chora. Não implora. A pedra da sorte ainda está em seu bolso. Mas, naquele momento, ele entende que sorte não é suficiente. Ao longe, a colina dos Cavalcante se impõe no horizonte. E Gabriel, com apenas sete anos, aprende a lição mais c***l de todas: Alguns homens não permitem fugas. E alguns destinos são impostos à força. O pátio da casa dos Cavalcante parece ainda maior quando visto de perto. Gabriel está entre os pais, pequeno demais naquele espaço amplo demais. Os capangas os conduzem até a varanda principal, onde Don Alonso Cavalcante os aguarda, mãos cruzadas atrás do corpo, expressão imóvel. — Fugir — diz ele, sem elevar a voz. — Isso foi uma escolha muito infeliz. O pai de Gabriel se adianta um passo, o rosto marcado pelo cansaço e pelo medo. — Eu imploro, senhor Cavalcante. Faça o que quiser comigo, mas deixe minha família ir. Don Alonso o observa como quem analisa uma peça defeituosa. — Você já fez escolhas demais para alguém que não pode pagar por elas. A mãe de Gabriel aperta o braço do marido. — Nosso filho é só uma criança. — Crianças crescem — responde Alonso, seco. — E dívidas também. Gabriel sente o estômago revirar. Ele encara o homem à sua frente com um silêncio firme, os olhos escuros atentos demais para alguém tão jovem. É então que passos ecoam atrás deles. Leves. Controlados. Precisos. Uma mulher surge à porta. Francesca Cavalcante. Ela não precisa anunciar sua presença. O silêncio muda de forma quando ela chega. Alta, postura impecável, vestido escuro sem adornos desnecessários. O rosto é belo de um jeito rígido, calculado. Os olhos… os olhos não hesitam. Ela observa a cena inteira antes de falar o pai curvado, a mãe tensa, o menino calado. — Que desperdício de tempo — diz, por fim. — Toda essa discussão por algo tão simples. Don Alonso se vira levemente para ela. — Francesca— — Não — interrompe ela, com firmeza. — Você está pensando pequeno. Ela caminha até Gabriel. Ajoelha-se diante dele, ficando exatamente na mesma altura. Analisa-o como quem avalia um instrumento raro. Gabriel sustenta o olhar. Não recua. Isso a agrada. — Ele é forte — comenta. — E atento. Não chora. Não implora. A mãe de Gabriel dá um passo à frente, desesperada. — Não toque no meu filho. Francesca se levanta lentamente. — Dívidas exigem garantias — diz. — E vocês não têm nada… exceto ele. O mundo parece parar. — Não — diz o pai, a voz quebrando. — Isso não. — Isso, sim — responde Francesca, sem emoção. — O menino trabalhará para a família Cavalcante. Aqui. Dentro desta casa. Gabriel sente o sangue gelar. — Como forma de pagamento — continua ela. — Será alimentado, vestido, instruído no que for útil. Em troca, a dívida será considerada… suspensa. — Ele é uma criança! — grita a mãe. Francesca inclina a cabeça, impassível. — Justamente por isso sobreviverá. Ela olha para Don Alonso. — Aos dezoito anos — completa —, ele estará livre. Até lá, pertence à família Cavalcante. Silêncio. Um silêncio pesado, sufocante. Gabriel olha para os pais. Vê o desespero nos olhos da mãe, o desmoronar lento do pai. Ele entende, naquele instante, que eles não têm escolha. Antes que alguém possa impedi-lo, Gabriel dá um passo à frente. — Eu fico — diz, com a voz firme demais para seus sete anos. — Gabriel! — a mãe tenta alcançá-lo. Ele não olha para trás. — Eu fico — repete. — Eles vão ficar bem? Francesca sorri. Um sorriso frio, satisfeito. — Veja só, Alonso — diz ela. — Ele já entende como o mundo funciona. Don Alonso observa o menino por um longo instante. Então assente. — Levem os pais de volta à vila — ordena. — A dívida está… negociada. A mãe de Gabriel tenta correr até ele, mas é contida. O pai grita seu nome uma única vez um som que Gabriel nunca esquecerá. Ele permanece parado. Imóvel. Enquanto seus pais são levados, Gabriel sente algo morrer dentro de si e algo nascer no lugar. Ele não é mais apenas um menino de Valerosa. Ele é uma garantia. Uma moeda. Uma promessa forçada. E Francesca Cavalcante observa tudo com a certeza de quem acabou de moldar um destino.
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