Henrique tenta voltar ao papel que vestiu ao chegar. Aceita cumprimentos. Responde perguntas sobre as terras. Sorri na medida exata. Mas não consegue permanecer inteiro ali. A cada vez que um criado atravessa o salão, seu olhar procura automaticamente cabelos curtos e olhos cor de mel. Ele a vê passando perto das escadas. Depois próxima à mesa central. Sempre rápida. Sempre silenciosa. Sempre sob o campo de visão de alguém. E então as lembranças começam. Não suaves. Não distantes. Vivas. O corredor lateral daquela mesma mansão, anos atrás. As risadas abafadas atrás de portas fechadas. A sensação de ser tolerado, nunca respeitado. As ordens disfarçadas. Os castigos. O orgulho engolido seco. Henrique fecha a mão ao redor da taça com força demais. O cristal quase estala.

