A noite cai devagar, trazendo consigo um céu pesado. O primeiro trovão soa distante. Depois, a chuva começa tímida no início, logo ganhando força, batendo no telhado, nas janelas, no chão de pedra do pátio. Henrique está no quarto, sentado na cama, um livro aberto sobre o colo. As palavras já não fazem sentido. O som da chuva cresce, insistente, e algo dentro dele se fecha. A memória vem sem pedir licença. A noite fria. A roupa encharcada. A voz de Francesca mandando que ele ficasse ali, imóvel, como castigo. O corpo tremendo. O medo. O silêncio que doía mais que a chuva. Henrique fecha o livro com cuidado, como se não quisesse fazer barulho nem dentro da própria cabeça. Ele respira fundo. Eu não sou mais aquele menino. Levanta-se devagar. Vai até a janela. A água escorre pelo v

