Capítulo 26. Baile

978 Palavras
Naquela noite, o jantar é mais longo do que o habitual. Velas demais. Pratos demais. Um esforço quase exagerado de normalidade. Don Alonso está de bom humor um bom humor duro, ostentado, como se quisesse que a casa inteira aprendesse a reconhecê-lo. Ele bebe vinho, fala alto, ocupa o espaço com a certeza de quem acredita ter retomado o controle. Francesca permanece em silêncio, mexendo a comida no prato. Então, no meio da refeição, Don Alonso pousa o copo com um som seco e ergue a voz: — Decidi que faremos um baile. Alguns criados, parados às paredes, se entreolham. — Um baile de comemoração — continua ele. — Pela gravidez de minha esposa. Quero música, convidados, luzes. Quero esta casa cheia. Ele olha para Francesca, esperando algo gratidão, emoção, submissão. Por um instante, ela não reage. Depois… algo diferente acontece. Francesca ergue o rosto devagar. — Um baile? — repete. — Sim — responde Don Alonso. — Que todos saibam. Que todos vejam. Ela fica alguns segundos em silêncio. Os criados prendem a respiração. Então, pela primeira vez em dias, Francesca sorri. Não é um sorriso amplo, nem doce mas é real. Vivo. Os olhos ganham brilho. As costas se endireitam. — Quando? — pergunta ela. Don Alonso franze o cenho, surpreso. — Dentro de duas semanas. — Duas semanas são suficientes — diz Francesca, agora com uma animação que ninguém ali esperava. — Precisaremos limpar o salão grande, mandar vir músicos, flores. Quero o piso encerado, as janelas abertas, tecidos claros. Ela fala com rapidez, como se a ideia tivesse acendido algo adormecido. — Quero convidados de fora — continua. — Gente que não pisa aqui há anos. Os criados trocam olhares, atônitos. Don Alonso observa em silêncio, avaliando. — Vejo que aprovou — diz ele, com um meio sorriso. — Sim — responde Francesca, firme. — A casa precisa de movimento. Ela bebe um gole de água, depois acrescenta, casualmente: — E todos precisarão estar impecáveis. Criados incluídos. O olhar dela percorre a sala e, por um segundo quase invisível, passa por Gabriel, que serve à mesa com os olhos baixos. Mas ele percebe. Don Alonso concorda com a cabeça. — Então que seja grandioso. O jantar segue, mas algo mudou. Nos corredores, depois, os criados cochicham com mais intensidade do que antes. — Ela parecia… feliz. — Pela primeira vez. — Ou aliviada. Gabriel, ao recolher os pratos, entende antes dos outros. Francesca não se animou pela gravidez. Se animou pela possibilidade. Um baile significa portas abertas. Gente estranha à casa. Olhos demais. Ruído demais. E, sobretudo… Distração. Enquanto Don Alonso acredita estar exibindo poder, Francesca começa a mover peças. E Gabriel, silencioso, curvado, carregando bandejas que pesam mais do que parecem, percebe que aquele baile não será uma celebração. O dia do baile chega como uma tempestade bem ensaiada. Desde o amanhecer, a casa pulsa. O chão é encerado até refletir as janelas altas. Arranjos de flores claras ocupam cada canto do salão principal. Velas alinhadas, lustres polidos, tecidos novos cobrindo o que antes era apenas pedra e silêncio. Tudo impecável. Tudo imponente. Tudo exatamente como Don Alonso quer ser visto. Carruagens começam a chegar ainda antes do pôr do sol. Brasões conhecidos descem delas. Cestáro. Carvalho. Fernandes. Castanheira. Marins. Serafim. E outros nomes que pesam tanto quanto ouro. Risos altos, perfumes caros, vestidos que arrastam pelo chão como declarações de poder. Homens de postura rígida e mulheres com olhares treinados para observar e julgar. No meio disso tudo, quase invisível, está Gabriel. Vestem-no com roupas simples, porém limpas. Mandam que lave as mãos, o rosto. Colocam-lhe uma bandeja de prata nas mãos e uma ordem curta: — Bebidas. Só isso. Não fale. Não encare ninguém. Ele assente. A bandeja pesa. Não pelo metal, mas pelo que ela representa: circulação. Gabriel entra no salão junto com os músicos afinando instrumentos. O som de cordas e sopros preenche o ar. A música começa suave, elegante, convidativa. Ele caminha entre os convidados. Observa tudo. As famílias se agrupam conforme o sobrenome. Cestáros falam baixo, mas a imponência ocupando espaço. Carvalhos medem cada palavra. Fernandes riem demais. Castanheiras observam em silêncio calculado. Gabriel oferece taças. — Vinho? — Licor? — Espumante? As vozes passam por ele como se não existisse. Alguns nem o veem. Outros veem demais. — Quem é esse menino? — pergunta uma senhora, franzindo o nariz. — Criado novo — responde alguém, desinteressado. Ele segue. O salão é grande demais para que Don Alonso controle tudo ao mesmo tempo. Ele está no centro, orgulhoso, cumprimentando convidados, apresentando Francesca como a futura mãe do herdeiro. Ela está deslumbrante. Vestido claro, bordado fino, postura impecável. O ventre ainda discreto sob o tecido, mas presente o suficiente para justificar cada olhar. Ela sorri. Conversa. Recebe cumprimentos. Mas seus olhos… Se movem. E em algum momento, cruzam com os de Gabriel. Não é um olhar longo. É um reconhecimento silencioso. “Agora.” Gabriel entende. Ele circula mais devagar. Aprende o ritmo da música. O fluxo das pessoas. Onde os grupos se fecham, onde se dispersam. Onde as conversas ficam altas demais para ouvir passos. Ele passa perto de um grupo dos Castanheira e ouve: — Don Alonso parece… confiante demais. — Quando alguém anuncia tanto uma vitória, costuma estar escondendo algo. Ele oferece bebida a um Carvalho que comenta, distraído: — Francesca mudou. Está diferente. Mais viva. Um Fernandes ri: — Ou mais perigosa. Gabriel guarda tudo. A bandeja vai ficando mais leve, mas o salão mais denso. Luzes, música, risos tudo funciona como Francesca previu: distração perfeita. E enquanto Don Alonso se exibe no centro do salão, acreditando que aquela noite celebra seu domínio, Gabriel percebe algo com clareza quase assustadora: A casa nunca esteve tão vulnerável. E ele, pela primeira vez desde que chegou ali, não está preso a um canto. Está no meio.
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