Capítulo 27. Francesca passa dos limites

560 Palavras
O baile segue em seu auge quando Gabriel sente a bandeja esvaziar de vez. Ele se inclina levemente, pede licença aos convidados e se afasta do salão para repor as bebidas. O corredor lateral está mais silencioso, iluminado apenas por algumas tochas. O ar ali é mais frio. Mais real. Ele respira fundo. Por alguns segundos, acredita estar sozinho. Então escuta passos. — Gabriel. A voz de Francesca. Ele se vira devagar. Ela fechou a porta do salão atrás de si. A música fica abafada, distante, como se viesse de outro mundo. — Minha senhora — ele diz, automaticamente, baixando a cabeça. Ela se aproxima rápido demais. Antes que ele possa recuar, Francesca o envolve num abraço. É inesperado. Totalmente. O corpo de Gabriel fica rígido no mesmo instante. Os braços permanecem imóveis ao lado do corpo, sem corresponder, sem empurrar. Apenas… parados. — Eu vi você a noite inteira — ela diz, a voz baixa, trêmula. — Você estava ali… sempre ali..meu menino. Ele engole em seco. — Isso não é apropriado, minha senhora — responde, com esforço, tentando manter a voz firme. Francesca aperta o abraço e cheira o pescoço de Gabriel. Depois afasta o rosto o suficiente para olhar para ele. Os olhos dela estão brilhantes não de alegria, mas de algo mais confuso. Francesca então sobe as mãos com força nas bochechas de Gabriel e beija ele. Gabriel fecha os olhos na hora, ele não acredita no que está acontecendo, ele nem entende. Seu corpo fica rígido. Francesca o aperta mais contra si e quando vê que ele não tem reação para. — Eu só queria… — ela grita — Eu queria que você gostasse de mim. Do jeito que eu gosto de você. O silêncio cai pesado entre eles. Gabriel sente um frio subir pela espinha. Ele dá um passo para trás, rompendo o contato. — Eu sou apenas um criado — diz, com cuidado. — E a senhora é minha senhora. Nada além disso. Francesca parece ferida. Como se tivesse sido rejeitada não por p************s, mas por uma verdade impossível de contornar. — Você me salvou — ela insiste. — Você me vê. Ninguém mais vê. Gabriel levanta os olhos pela primeira vez, sério, cansado, velho demais para alguém tão jovem. — Ver alguém — responde — não dá direito de possuí-lo. As palavras não são agressivas. São simples. Definitivas. Francesa desfere um tapa no rosto de Gabriel com força, seu rosto vira com o impacto. — Eu...um dia você vai gostar de mim como eu gosto de você.— Francesa disse como uma ameaça. Francesca recua um passo, como se só agora percebesse onde estava, o que estava fazendo. O peso da casa, do baile, do marido, da gravidez tudo parece cair sobre ela ao mesmo tempo. — Volte — diz ela, por fim, a voz baixa. — Vai. Gabriel inclina a cabeça em sinal de respeito, pega a bandeja novamente e segue em direção à cozinha, o coração acelerado, mas a mente clara. Quando Francesca retorna ao salão, o sorriso está de volta ao rosto. Perfeito. Treinado. Ninguém percebe o que quase transbordou naquele corredor. Enquanto volta a circular entre os convidados, servindo taças, invisível outra vez, Gabriel toma uma decisão silenciosa: O baile ainda não acabou. Mas para ele, aquela casa acabou de deixar de ser qualquer possibilidade de permanência.
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