O baile segue em seu auge quando Gabriel sente a bandeja esvaziar de vez.
Ele se inclina levemente, pede licença aos convidados e se afasta do salão para repor as bebidas. O corredor lateral está mais silencioso, iluminado apenas por algumas tochas. O ar ali é mais frio. Mais real.
Ele respira fundo.
Por alguns segundos, acredita estar sozinho.
Então escuta passos.
— Gabriel.
A voz de Francesca.
Ele se vira devagar. Ela fechou a porta do salão atrás de si. A música fica abafada, distante, como se viesse de outro mundo.
— Minha senhora — ele diz, automaticamente, baixando a cabeça.
Ela se aproxima rápido demais.
Antes que ele possa recuar, Francesca o envolve num abraço.
É inesperado. Totalmente.
O corpo de Gabriel fica rígido no mesmo instante. Os braços permanecem imóveis ao lado do corpo, sem corresponder, sem empurrar. Apenas… parados.
— Eu vi você a noite inteira — ela diz, a voz baixa, trêmula. — Você estava ali… sempre ali..meu menino.
Ele engole em seco.
— Isso não é apropriado, minha senhora — responde, com esforço, tentando manter a voz firme.
Francesca aperta o abraço e cheira o pescoço de Gabriel. Depois afasta o rosto o suficiente para olhar para ele.
Os olhos dela estão brilhantes não de alegria, mas de algo mais confuso.
Francesca então sobe as mãos com força nas bochechas de Gabriel e beija ele.
Gabriel fecha os olhos na hora, ele não acredita no que está acontecendo, ele nem entende. Seu corpo fica rígido. Francesca o aperta mais contra si e quando vê que ele não tem reação para.
— Eu só queria… — ela grita — Eu queria que você gostasse de mim. Do jeito que eu gosto de você.
O silêncio cai pesado entre eles.
Gabriel sente um frio subir pela espinha.
Ele dá um passo para trás, rompendo o contato.
— Eu sou apenas um criado — diz, com cuidado. — E a senhora é minha senhora. Nada além disso.
Francesca parece ferida. Como se tivesse sido rejeitada não por p************s, mas por uma verdade impossível de contornar.
— Você me salvou — ela insiste. — Você me vê. Ninguém mais vê.
Gabriel levanta os olhos pela primeira vez, sério, cansado, velho demais para alguém tão jovem.
— Ver alguém — responde — não dá direito de possuí-lo.
As palavras não são agressivas. São simples. Definitivas.
Francesa desfere um tapa no rosto de Gabriel com força, seu rosto vira com o impacto.
— Eu...um dia você vai gostar de mim como eu gosto de você.— Francesa disse como uma ameaça.
Francesca recua um passo, como se só agora percebesse onde estava, o que estava fazendo. O peso da casa, do baile, do marido, da gravidez tudo parece cair sobre ela ao mesmo tempo.
— Volte — diz ela, por fim, a voz baixa. — Vai.
Gabriel inclina a cabeça em sinal de respeito, pega a bandeja novamente e segue em direção à cozinha, o coração acelerado, mas a mente clara.
Quando Francesca retorna ao salão, o sorriso está de volta ao rosto. Perfeito. Treinado.
Ninguém percebe o que quase transbordou naquele corredor.
Enquanto volta a circular entre os convidados, servindo taças, invisível outra vez, Gabriel toma uma decisão silenciosa:
O baile ainda não acabou.
Mas para ele, aquela casa
acabou de deixar de ser
qualquer possibilidade de permanência.