7. Vulnerável

1198 Palavras
Olga Quando o Juiz sai do quarto o vazio me engole. É um sentimento que me deixa frágil e vulnerável. Achei que haveria algum alívio em sua ausência, mas agora estou sozinha com meus pensamentos. Sozinha com as memórias da noite passada e sabendo que eu mereço qualquer punição que o Juiz possa distribuir. Ainda não será suficiente. Não consigo comer nem um pedaço do café da manhã que Carmen entregou. Tenho certeza de que isso provavelmente resultará em mais consequências mais tarde, mas agora, não consigo me importar. Ela volta ao meio-dia com o almoço, notando com as sobrancelhas levantadas que eu também não como. Eu tento encontrar maneiras de passar o tempo. Coisas para ocupar minha mente. Tomo banho e escovo meu cabelo e meus dentes, tentando evitar o espelho o máximo possível. Sinto-me nua sem a armadura da minha maquiagem e não gosto disso. Quando me aventuro no meu armário, com certeza, minhas roupas estão lá, como o Juiz afirmou. Ângelo mandou enviá-las sem demora, apagando todas as evidências de mim da mansão. Engulo o caroço doloroso que a realidade me deixa e folheio as araras de vestidos de grife que costumo usar. Mas para quê? Eu não vou a lugar nenhum. Não há pretextos para ter isso aqui. Ele me despiu e me deixou nua em mais de uma maneira. Eu pego um par de calças de ioga, um top de alças e um suéter de casimira, optando pelo conforto acima da moda. Meu quarto é frio o suficiente para que eu possa me consolar com o tecido macio contra a minha pele, pelo menos por enquanto. Entre todos os meus outros pertences, encontro minha bolsa. Eu vasculho, meio esperançosa, mas meu telefone não está lá, tudo o que resta são os itens essenciais que carrego. Um espelho compacto, chiclete, hidratante labial e minha pistola anti alérgica. Oficialmente, não tenho comunicação com o mundo exterior, a menos que de alguma forma consiga um telefone. Mas mesmo que pudesse, não sei que bem faria. Quem ainda memoriza os números de seus contatos? Sol e George com certeza vão explodir meu telefone com mensagens. Eu perdi nosso habitual brunch de domingo com eles ontem e nem tive a chance de enviar uma mensagem de texto ou explicar. Eles sabiam que algo estava errado comigo ultimamente, mas eu não podia dizer a verdade. Eles não vivem no mesmo mundo que eu, não há como eles entenderem a realidade da Corleone. Todas as regras, as expectativas para a minha vida. Veneno e traição são apenas coisas que eles ouvem na TV. Se eles tivessem alguma inclinação de como minha vida realmente era, provavelmente tentariam me levar para uma ilha deserta. Eu sinto falta deles, agora, eu gostaria de poder contar tudo a eles. Gostaria de poder ouvir Sol cantarolando uma musiquinha feliz em seu apartamento aconchegante enquanto ela nos serve mimosas e nos alimenta com doces. George me abraçaria e me diria que tudo ia ficar bem. Ele me perguntaria quem ele precisa matar e depois me diria o quão incrível eu era. Eu não os mereço, sinceramente. Mas eles são uma parte da minha vida fora da Corleone que ninguém conhece. Passo meu tempo livre em aulas de ioga e dança com meus amigos, nesses minutos roubados, sou verdadeiramente livre. Então eu os deixo, vestindo minha armadura e voltando para o meu mundo, passando tempo com meus inimigos aprovados pela Corleone. Nós comemos saladas caras juntos e expurgamos quantias exorbitantes de dinheiro tentando melhorar o guarda-roupa um do outro, tudo isso enquanto fingimos que temos algum amor e respeito real um pelo outro. Duvido muito que Giordana, Dulce e Vivian pensem duas vezes sobre o meu bem-estar quando eu não aparecer para o almoço semanal de caridade de amanhã. Elas vão fofocar e especular maldosamente sobre minha ausência, mas não vão me procurar. Sol e George, por outro lado, não aceitarão de ânimo leve quando eu os ignorar completamente. E se estou sendo honesta, estou preocupada que eles façam um grande negócio sobre isso quando não puderem me encontrar. É algo que a Corleone não gostaria, tenho que agir com cuidado para garantir que eles estejam protegidos, mas ainda não tenho certeza de como vou fazer isso. O que o Juiz vai pensar se olhar para o meu telefone e vir todas as mensagens deles? Especialmente aquelas entre George e eu. Enviamos selfies um ao outro ao longo do dia e elogiamos um ao outro sobre o quão sexy, feroz e incrível o outro parece com mensagens encorajadoras para melhorar no dia. Eu o apelidei de 'namorado' no meu telefone, brincando, pude ver como isso poderia ser m*l interpretado. Especialmente tirado do contexto com as constantes notas de carinho e declarações de amor um pelo outro. Se alguém na Corleone visse essas mensagens, poderia facilmente concluir que estou namorando fora do nosso círculo, pior, que não sou mais pura. Tem o potencial de destruir minha reputação e manchar ainda mais o nome da minha família. Mas como posso explicar minhas amizades com George e Sol de uma forma que qualquer um deles pudesse entender? O alto escalão não procura amigos de fora. Não nos misturamos com o mundo que não segue nossos caminhos. E temo que se o Juiz vir essas mensagens antes que eu possa pegar meu telefone de volta, os resultados possam ser desastrosos. Eu sei que é um esforço infrutífero, mas vou até a porta e verifico se ela está de fato trancada. A varanda também. Estou presa aqui sem ter para onde ir e nada além desses pensamentos terríveis chacoalhando em meu cérebro. Tento fazer um pouco de ioga para relaxar, mas em algum lugar entre a pose de cachorro e criança, outra torrente de emoção me inunda. Eu acabo enrolada no chão, me balançando na tentativa de aliviar a dor no meu peito. Quando fecho os olhos, vejo o rosto daquela mulher novamente. E quando os abro, vejo lembretes em todos os lugares. A lâmpada se estilhaça ao colidir com o crânio dela. O sangue escorrendo pelos meus dedos. Eu não tenho que estar naquela sala para sentir essas coisas. Para ouvi-las. Eles estão em um ciclo de feedback quase constante agora, eu sinto que vou vomitar. Mal consigo chegar ao banheiro antes de vomitar a única coisa que consegui consumir hoje, que foi água. Meu estômago dói, eu vomito novamente, mas nada acontece. Como se vê, você não pode vomitar sua culpa depois de tudo. Estou agarrada ao vaso sanitário, úmida e fraca, quando sinto uma presença atrás de mim. Eu levanto minha cabeça para encontrar Juiz parado ali, preocupação gravada em suas feições. Mas enquanto seus olhos se movem sobre mim, descendo para o meu braço que está segurando meu estômago, vejo a pergunta neles. Ele está preocupado não só que eu possa estar doente, mas tenho certeza de que ele também está especulando sobre o motivo. — Eu... — Minha voz morre quando me levanto, o banheiro começa a girar. — p***a. A maldição abafada do Juiz é a última coisa que ouço antes de cambalear para o lado e começar a desmoronar, direto na força de seus braços.
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