4

647 Palavras
Capítulo 4 Kamila narrando No caminho para Nápoles, também estou de trem. Meu coração está dividido entre a ansiedade e o nervosismo, pensando incessantemente em meu pai. Nossa relação sempre foi a melhor possível — ele era meu herói. Minha mãe me abandonou quando eu era recém-nascida, e ele me criou sozinho, com todo o amor que podia. Agora, com meu tablet em mãos, reviso as notícias que ele estava investigando. Cada uma delas eu olho com atenção, como se fosse a chave para entender algo maior. Às vezes, sinto que meu pai via além do jornalismo investigativo. Parecia que ele buscava respostas para mistérios que envolviam nosso passado. Coloco meus fones de ouvido e começo a escutar algumas reportagens antigas. Uma delas chama a minha atenção: "Este é o terceiro ataque em escolas de Nápoles nos últimos dois meses. Assim como os anteriores, ninguém ficou ferido." Meus olhos se estreitam. Algo nessa série de ataques parecia uma cortina de fumaça, um disfarce para algo maior acontecendo na cidade. O trem chega à estação de Nápoles, e eu desço, observando a cidade lentamente. Dirijo-me ao hotel, desfazendo minha mala sem pressa. Pego o vestido que usarei à noite e abro minha bolsa. Lá dentro, está a pistola que meu pai me deu. Flashback on — Não entendo por que preciso aprender a atirar — eu disse, encarando meu pai. — Toda mulher precisa saber se defender — ele respondeu com firmeza. — Mas eu tenho você, papai... — Nem sempre estarei aqui — ele falou, sério. — Lembre-se disso. Eu segurei a arma com mais firmeza e apertei o gatilho, acertando o alvo. Flashback off Volto ao presente, terminando de me arrumar. Peguei um táxi até o local do jantar. Eu havia feito toda a pesquisa. Era a inauguração do atelier de Regina Mancuso, esposa de Luigi, herdeiros de uma rede de hotéis. Desci do carro com o convite na mão e um crachá de jornalista de moda, com um nome falso. Me aproximei do segurança, que conferiu meu nome na lista e me deu passagem. Dentro do salão, tentei ser o mais discreta possível. Olhei para os rostos ao redor, alguns conhecidos, outros não. Mulheres trocavam conversas fúteis enquanto homens fumavam charutos e bebiam. As pinturas de Regina Mancuso, expostas nas paredes, eram terríveis, mas como sempre, o dinheiro abria portas para essas excentricidades. Enquanto fingia observar um dos quadros, um homem se aproximou. — Boa noite — disse ele, um loiro bem vestido. — Boa noite — respondi, mantendo a postura. — Não me lembro de ter visto você por aqui antes. Certamente me lembraria de uma mulher tão bonita. — Ellen Soares — menti, estendendo a mão. — Jornalista de moda. Estou escrevendo uma matéria sobre as obras de Regina Mancuso. — Ah, claro — ele disse com um sorriso. — Sou Senor, amigo pessoal da família. — Foi um prazer te conhecer, mas preciso tirar algumas fotos e colher informações para a matéria — falei, buscando uma desculpa para me afastar. — Fique à vontade. Não quero atrapalhar seu trabalho. Agradeci e me afastei, fingindo interesse nos quadros enquanto sentia os olhos dele sobre mim. Depois de uma hora e meia, percebi que aquele jantar era apenas uma formalidade vazia. Não havia nada ali, nenhuma evidência importante. Eu não entendia por que meu pai guardava aquele convite com tanto cuidado. O que ele esperava que eu encontrasse? Saí para a sacada, frustrada, e dei alguns socos na proteção. Olhei para os carros lá embaixo, pensando como tantas dessas pessoas podiam estar envolvidas no que eu procurava. Andei de um lado para o outro, meus pensamentos acelerados, até perceber que estava sendo observada. Parei e vi um homem de terno, mãos nos bolsos, me encarando à distância. Levei um susto. — Desculpe, não queria assustá-la — disse ele, sem tirar os olhos de mim.
Leitura gratuita para novos usuários
Digitalize para baixar o aplicativo
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Escritor
  • chap_listÍndice
  • likeADICIONAR