Lorenzo Ferri
Ela saiu do mesmo jeito que entrou.
Parece que a incógnita nela começa a desaparecer lentamente.
Sua saída deixou o senhor Jean, claramente preocupado.
Ele se senta atordoado, e eu o observo, apreciando o seu whiskey.
— Como notou? — finalmente pergunta.
— Eu estou aqui por que consigo notar mais que isso — o respondo e ele suspira fundo, enquanto eu limito em observá-lo.
— O que será que aconteceu? — questiona. — Ela consegue ser desajeitada as vezes, mas não ao ponto de ter caído ao ponto de ralar os dois pulsos daquele jeito — devaneia.
— Pode sempre a perguntar amanhã, ela veio por que queria falar sobre isso — respondo e ele assente suspirando fundo.
Ele está preocupado.
— Não tinha noção do seu apreço pela filha do seu inimigo — comento, buscando entender e ele sorri.
— Não deve parecer, mas ela é uma moça sensível — diz, e abana a cabeça. — Deve parecer loucura, mas ela me lembra bastante a minha... falecida filha — fala e eu o observo minuciosamente.
— Sinto pela sua perda — falo, e ele assente.
— Ela tinha quase a mesma idade que a Zahara, e também cursou direito. Elas ficaram próximas quando a Zahara foi estagiar na minha empresa. Embora diferentes, elas eram tão similares, que acabei vendo ela como uma segunda filha — entendido.
— Ela é uma boa menina, ela só é filha da pessoa errada — fala, frustrado.
— Devia tê-la visto advogar... — acho que ele está desabafando.
Eu não estou acostumado com isso, mas acho que ele precisa e eu não estou me importando agora.
— Ela é ótima e claramente apaixonada por advocacia — filha de político criminoso, uma ironia. — Mas parou de exercer por que a minha firma é a competidora directa da forma que defende o Gilbert e a Bianchi Corporation — conta.
— Ela ainda vem trabalhar com você, mas duvido que você precise — menciono, e ele leva o copo para a boca.
— Eu estou velho e quebrei a minha própria reforma para acabar com a falcatrua que anda acontecendo... Ela não é a minha filha, mas tenho o mesmo carinho por ela e eu a ensino o que sei.
— Ela vem por que se interessa, e sabendo do potencial dela, eu permitirei que faça isso e ensinarei, para que esse talento seja explorado, se no futuro ela quiser voltar a atuar.
Para um advogado do seu calibre elogiar a caçula do Bianchi dessa maneira, é por que ela deve ser boa.
Interessante.
— Enfim, me desculpe... — diz, sorrindo.
— Está tudo bem — falo.
— Deixe-me mostrar os processos agora em andamento contra a Bianchi — diz e eu volto a observar o seu painel de investigação.
— O Luca? — pergunta.
— Eu o deixei no aeroporto antes de cá vir — respondo.
— Ele foi rápido. E como foi o seu dia? — questiona.
— Eu estive nas minas, tinha alguma burocracia por cuidar — respondo.
— As minas... — comenta, regressando a mesa.
Mettiamoci al lavoro.
Algumas horas se passaram analisando esses processos e o concedendo mais informações para anexar.
— Não quer se juntar a nós? — pergunta rindo e eu sorrio.
— Estou falando sério — diz.
— Infelizmente, eu não posso advogar cá — respondo.
— Seja o meu... como dizem: consiglieri — diz, e eu sorrio.
— Pensarei na sua proposta, após me apresentar o melhor restaurante dessa região — falo, levantando-me.
— Não precisa falar duas vezes! — finalmente saímos para jantar.
Conhecê-lo está sendo melhor do que o esperado.
Ele age e fala como o meu pai, talvez tenha sido por isso que estranhamente me alinho com ele, tirando o facto de que ambos possuímos os mesmos objetivos.
Eu o conheci antes, por que ele e o meu pai tinham algum tipo de relação e era boa, mas o conhecia superficialmente, excluindo o que investiguei sobre ele.
Um homem verdadeiramente interessante de se conviver, enquanto eu estiver aqui e não souber os bons lugares daqui, não me importo de ir para a Bonheur.
Preciso de uma boa ocupação, até a ação — que eu só estou aguardando por ele — iniciar.