Linha cruzada

608 Palavras
O caminho até o hotel foi silencioso. Pesado. Eu senti. Eles já sabiam. De alguma forma… Eles sempre sabiam. Assim que entramos na suíte, eu não disse nada. Fui direto pro quarto. Peguei uma camisola. Entrei no banho. A água quente caiu sobre meu corpo… Tentando levar embora o peso do dia. Mas não levou. Porque eu sabia… Aquilo ainda não tinha acabado. --- Saí do banheiro. Cabelo úmido. Corpo leve. Mas o clima… Não. Eles estavam lá. Os três. Em pé. Me esperando. Em silêncio. Cruzei os braços de leve. — O que foi? Olhei um por um. — Por que vocês estão com essa cara? Silêncio. Caio foi o primeiro. — Porque você tem duas coisas pra contar. Meu coração bateu mais forte. Noah continuou: — Primeiro… — O que aquele i****a falou quando chegou perto de você. Hugo completou: — E segundo… — O que o David disse pra te fazer rir daquele jeito. Eu soltei um riso baixo. Sem humor. — Vocês não me deixam nada passar, né? — Não — Caio respondeu. Direto. Respirei fundo. Dei alguns passos pelo quarto. Pensando. — Antes de eu falar… Parei. Olhei pra eles. — Vocês me prometem uma coisa? Silêncio. Errado. Eles não gostaram disso. — Depende — Noah disse. — Vocês não vão fazer nada dentro do ateliê. Firme. — Se quiserem resolver… resolvam fora. — Longe do meu trabalho. — Sem escândalo lá dentro. O silêncio ficou ainda mais pesado. Hugo inclinou levemente a cabeça. — Fala logo, Fernanda. Fechei os olhos por um segundo. Respirei fundo. E então falei. — Ele chegou perto de mim… Pausa. — E disse que eu devia ser incrível na cama. O ar mudou. Na mesma hora. — E que já tinha três homens com cara de sargento comigo. Silêncio. Mas não era silêncio calmo. Era o tipo de silêncio… Que antecede algo r**m. Muito r**m. Caio passou a mão pelo rosto devagar. Noah riu baixo. Sem humor nenhum. Hugo apenas ficou imóvel. E isso… Era o mais perigoso. — Ele falou isso… — Caio murmurou. A voz baixa. Controlada. Demais. — Olhando pra você? Assenti. — No meu ouvido. Noah descruzou os braços. — Ele encostou? — Não. — Porque eu não deixei. Silêncio. Mais pesado. Mais denso. E então… — Ele já morreu — Hugo disse. Simples. Frio. Meu coração acelerou. — Ei. Dei um passo à frente. — Vocês prometeram— — A gente não prometeu nada — Noah cortou. — Eu pedi! — E a gente ouviu — Caio disse. Se aproximando. — Mas não significa que a gente vai aceitar isso. O ar ficou difícil de respirar. — Eu resolvi — falei firme. — Ele não chegou mais perto. Hugo riu baixo. — Ele não vai chegar perto nunca mais. Aquilo… Não era uma ameaça vazia. Eu senti. — E o David? — Noah perguntou. Tenso. Olhei pra eles. — Ele só pediu pra eu desfilar. Silêncio. — E você? — Eu disse que ia pensar. Os três se entreolharam. E dessa vez… Foi diferente. Menos raiva. Mais análise. — Você quer? — Caio perguntou. A pergunta veio direta. Olhei pra ele. — Talvez… — Pode ser bom pra minha carreira. Silêncio. Mas agora… Outro tipo. — Então você vai desfilar — Noah disse. Franzi a testa. — Vocês deixariam? Hugo se aproximou. Parando bem perto. — A gente não “deixa”. A voz baixa. — A gente garante. Caio completou: — E se alguém— Noah finalizou: — Olhar errado pra você… O silêncio voltou. Mas dessa vez… Era promessa. Perigo. Controle. Respirei fundo. E soube. Paris… Ia pegar fogo.
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