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1072 Palavras
Dogão voltou pro alto do morro cercado pelos homens. Assim que pisou na laje, Orelha, braço direito dele e responsável pelos vapores, olhou de cima a baixo e caiu na gargalhada. — c*****o, chefe... tu rejuvenesceu uns cinco anos depois que tua musa cortou teu cabelo e fez aquela massagem. Dogão deu uma risada. — Qual foi, p***a? — Tá com outra cara e tu sabe. Saiu de lá até sorrindo. Isso é milagre. Dogão balançou a cabeça. — Aquela mulher tem umas mãos que são fora do normal. Orelha deu uma cotovelada nele. — Ih... aí tem. — Para de viajar, c*****o. — Tô viajando nada. Tu entra lá todo fechadão e sai parecendo que tirou um caminhão das costas. Dogão acendeu um cigarro e deu uma tragada. — Ela sabe exatamente onde tá toda a tensão. Parece que conhece meu corpo melhor que eu. Quando ela começa a trabalhar nos ombros, nas costas... acabou. Relaxo na hora. Orelha riu alto. — Tá apaixonando, chefe? Dogão encarou ele por alguns segundos e depois soltou uma risada. — Tá maluco. Só tô falando que ela manda bem pra c*****o no que faz. — Sei... vou fingir que acredito. Dogão deu um tapa de leve no ombro dele. — Vai cuidar dos vapores, p***a. Tá com tempo sobrando pra ficar me enchendo. Orelha saiu rindo. — Cinco dias, né? Aposto que tu vai contar as horas pra voltar naquele salão. Dogão tentou manter a postura séria, mas acabou deixando escapar um sorriso de canto. — Some daqui, c*****o. Orelha ainda ria enquanto descia a escada da laje. — Vou é mandar reservar teu horário fixo no salão, chefe. Dogão pegou uma garrafa de água e jogou na direção dele. — Vai tomar no teu cu, p***a. Orelha desviou rindo. — Tá vendo? Quando mexe com a loira tu até perde a paciência. Dogão balançou a cabeça. — Perco nada. Só não gosto de n**o falando merda. Nesse momento um dos radinhos chiou. — Chefe, os vapores da Entrada Dois tão pedindo autorização pra trocar a equipe. Dogão mudou completamente a expressão. O sorriso sumiu. — Autoriza. Quero todo mundo atento. Hoje ninguém vacila. — Copiado, chefe. Ele caminhou até a beirada da laje e observou o movimento do morro. Crianças brincavam na viela, moradores voltavam do trabalho, motos subiam e desciam sem parar. Orelha parou ao lado dele. — Tá tudo tranquilo por enquanto. — Tranquilo é bom... mas eu não confio em tranquilidade demais. — Também tô achando estranho. Dogão cruzou os braços. — Redobra a atenção em todas as entradas. Quero rádio ligado o tempo todo. Se aparecer qualquer carro estranho ou algum alemão querendo testar a sorte, eu quero saber antes de todo mundo. — Pode deixar, chefe. Orelha já ia saindo quando voltou a provocar. — Ah... daqui a cinco dias eu nem vou marcar reunião contigo. Dogão arqueou a sobrancelha. — E por quê? — Porque eu já sei onde tu vai tá. Dogão riu, balançando a cabeça. — Tu não presta mesmo, parceiro. — Aprendi com o melhor. Os dois deram risada, mas logo voltaram a ficar sérios quando outro rádio voltou a chiar. No morro, um minuto de descontração era suficiente. Depois disso, só o trabalho e a responsabilidade de manter tudo sob controle. Enquanto isso, o salão da Ula continuava lotado. Secador ligado, máquina de cortar cabelo fazendo barulho, música de fundo e conversa espalhada pelo ambiente. As funcionárias atendiam sem parar, enquanto Ula ia de um cliente para outro, conferindo tudo. Ela era o tipo de mulher que fazia qualquer um pensar duas vezes antes de falar besteira. Tinha só um metro e sessenta de altura, mas a presença dela ocupava qualquer ambiente. O corpo era definido pelos treinos, a cintura chamava atenção de qualquer um no morro. Os cabelos lisos e loiros quase batiam no quadril. Os olhos verdes eram marcantes, e as tatuagens completavam o visual: desenhos pelos braços, uma borboleta delicada no pescoço e outra tatuagem cobrindo parte das costas. Apesar da aparência forte, poucos conheciam a história dela. O pai já tinha sido um empresário respeitado. A família levava uma vida confortável, até ele cair num golpe, perder praticamente tudo e ficar sem ter para onde ir. Quando Ula tinha apenas três anos, os pais chegaram ao morro carregando poucas malas e muita vergonha. Foi ali que encontraram abrigo e recomeçaram do zero. Desde pequena, ela repetia a mesma frase. — Um dia eu vou abrir o maior salão daqui. Todo mundo ria. — Sonha baixo, menina. Mas Ula nunca abaixou a cabeça. Com quinze anos, estudava de manhã e passava o resto do dia trabalhando. Fez de tudo um pouco: ajudou em padaria, lanchonete, mercado. Guardava cada nota que recebia. Enquanto muita gente gastava o salário no fim de semana, ela juntava dinheiro. Demorou, mas conseguiu. Quando finalmente tinha o suficiente para começar, subiu o morro e foi falar com Dogão. Na época, muita gente dizia que ele ia negar. Ela entrou de cabeça erguida. — Quero abrir meu salão. Só preciso da tua autorização. Dogão olhou para aquela garota magrinha, cheia de atitude, e fez uma pergunta. — Vai trabalhar ou vai largar em dois meses? Ela respondeu sem abaixar os olhos. — Vou fazer esse salão virar referência. Ele ficou alguns segundos em silêncio. Depois apenas respondeu: — Então faz. Foi a única autorização que ela precisou. Todos os comerciantes do morro pagavam o arrego para manter o negócio funcionando. Menos Ula. Dogão nunca cobrou um centavo dela. Não era favoritismo. Era respeito. Ele sabia que aquela menina tinha batalhado por cada tijolo daquele salão e queria vencer honestamente. Anos depois, a aposta dele tinha dado certo. O salão da Ula era o único do morro. Dogão nunca autorizou outro. Os meninos faziam degradê, barba, pintura e reflexo com ela. As mulheres saíam de lá com cabelo, unhas, maquiagem e estética em dia. Quem sentava na cadeira dela dificilmente procurava outro lugar depois. Ela era marrenta, respondia na lata quando precisava, mas tratava todo mundo com respeito. Cobrava um preço justo, nunca enganava cliente e fazia questão de entregar um serviço de qualidade. Por isso o salão vivia cheio. Ali dentro não importava se o cliente era morador, trabalhador, vapor ou até o chefe do morro. Todo mundo era atendido do mesmo jeito. E talvez fosse exatamente isso que fazia Ula conquistar o respeito de tanta gente.
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