Ula terminava um degradê impecável em um dos menores do morro.
Ela afastou um pouco a cadeira e analisou o corte pelo espelho.
— Aí, cria... levanta a cabeça.
O garoto levantou.
Ela passou a máquina nos últimos detalhes, pegou a navalha para dar acabamento e sorriu.
— Agora ficou na régua.
O menino abriu um sorrisão.
— c*****o, Ula... ficou brabo!
Ela deu um tapinha de leve na cabeça dele.
— Vai, paga lá na recepção e para de ficar passando a mão no cabelo. Tu vai estragar o penteado antes de chegar em casa.
As meninas do salão riram.
A recepcionista chamou outra cliente.
— Ula, tua agenda de hoje lotou toda.
— Amanhã também.
— E depois de amanhã só sobrou um horário.
Ela pegou o celular, olhou a agenda e respondeu:
— Então abre mais meia hora no final do expediente.
— Tu não para nunca, né?
Ula deu de ombros.
— Enquanto eu tiver disposição, eu trabalho.
Uma funcionária se aproximou.
— Ula, o fornecedor confirmou que entrega as tintas amanhã.
— Boa. Confere tudo quando chegar. Se faltar alguma cor, me avisa na hora.
— Pode deixar.
Nesse momento entrou um senhor já conhecido por todos.
— Boa tarde, meninas.
— Boa tarde, seu Damião! — responderam quase em coro.
Ele sorriu.
— Ula, consegue me encaixar hoje?
Ela olhou a agenda cheia e depois para ele.
— Pro senhor eu sempre dou um jeito. Senta ali que daqui a pouco eu te chamo.
Ele agradeceu e foi esperar.
Uma das funcionárias riu.
— Tu fala que a agenda tá cheia, mas sempre arruma espaço.
— Tem cliente que acompanha a gente desde o primeiro dia. Não vou mandar embora.
Ela caminhava pelo salão conferindo cada atendimento quando ouviu uma cliente comentar baixinho para outra:
— Não é à toa que esse salão vive cheio.
A outra concordou.
— Aqui ninguém sai insatisfeito.
Ula ouviu, mas fingiu que não escutou.
Pegou uma vassoura e começou a varrer o próprio espaço.
Uma funcionária correu.
— Deixa que eu faço isso.
Ela sorriu.
— Nada disso. Aqui ninguém é melhor que ninguém. Se precisar varrer, eu varro. Se precisar lavar banheiro, eu lavo. O salão é meu, mas o trabalho também é.
As meninas trocaram um olhar de admiração.
Era exatamente por isso que todas gostavam de trabalhar com ela.
Ula cobrava muito da equipe, mas era a primeira a colocar a mão na massa. E dentro daquele salão, o respeito não vinha por medo.
Vinha pelo exemplo.
Quando o expediente finalmente acabou, Ula fechou as portas do salão, conferiu se estava tudo trancado e caminhou pelas vielas até a casa da mãe.
Assim que entrou, já foi chamando.
— Mãe... a senhora tá aí?
Gracinha apareceu na cozinha com um sorriso fraco.
— Oi, minha filha. Tô bem.
Ula conhecia aquele sorriso.
Sabia que era mentira.
Desde que o marido tinha falecido, dois anos antes, Gracinha nunca mais tinha sido a mesma. A antiga dona da pensão mais famosa do morro agora m*l tinha vontade de sair da cama.
Nesse momento, Jéssica apareceu na sala.
Tinha vinte anos, dois a menos que Ula.
— E aí, irmã!
As duas se abraçaram.
— E aí, pequena. Como tu tá?
— Tô bem. Fui muito bem na prova.
Ula sorriu, orgulhosa.
— Aí sim. Sabia que tu ia mandar bem.
Jéssica respirou fundo.
— Irmã... eu tava pensando numa parada.
— Fala.
— Acho que eu não quero fazer advocacia mais, não.
Ula arqueou a sobrancelha.
— É mesmo? E quer fazer o quê?
— Tô pensando em trabalhar com estética... igual tu.
Ula deu uma risada.
— Ah, então quer abrir um salão pra fazer concorrência comigo?
Jéssica empurrou o braço dela.
— Para de graça. Pra concorrer contigo a pessoa tem que ser muito braba. Eu tô longe disso.
As duas riram.
— Jéssica... tu sabe que nem precisa fazer faculdade pra trabalhar comigo, né?
— Sei lá... achei que tu fosse exigir isso.
Ula balançou a cabeça.
— Eu fiz faculdade porque queria aprender tudo. Estética facial, cuidar da pele, procedimentos, essas paradas. Fiz porque era meu sonho.
Ela continuou.
— Mas tu já sabe escovar cabelo muito melhor que muita profissional por aí. Já sabe cortar cabelo feminino, faz sobrancelha direitinho... eu mesma que te ensinei.
Jéssica sorriu.
— Tu acha mesmo que eu levo jeito?
— Acho não. Tenho certeza.
Ela segurou a mão da irmã.
— As portas do salão sempre vão tá abertas pra tu. Se quiser começar amanhã, começa amanhã. Agora... se teu sonho mudar, também tá tudo certo. Tu não precisa viver o meu sonho. Tem que viver o teu.
Jéssica abraçou a irmã emocionada.
— Obrigada.
Gracinha observava as duas da cozinha.
Os olhos encheram de lágrimas.
— Eu adoro essa união de vocês.
Ula levantou e foi até a mãe.
— Mãe... o pessoal do morro tá sentindo falta da tua comida.
Gracinha abaixou a cabeça.
— Ai, filha... eu tô sem vontade de nada.
Ula segurou as mãos dela.
— Eu sei.
A voz dela ficou mais baixa.
— Eu também sinto uma saudade danada do pai.
Jéssica assentiu.
— Eu também, mãe.
Gracinha limpou uma lágrima.
— Parece que perdi uma parte de mim.
— Perdeu mesmo. E ninguém tá dizendo que é fácil.
Ula apertou a mão da mãe.
— Mas a senhora ainda tá aqui. E a gente também.
Jéssica completou.
— O papai descansou, mãe. Depois de tudo que ele passou... ele descansou.
Gracinha respirou fundo.
— Eu sei...
— Então não se entrega desse jeito, não.
Ula sorriu tentando mudar o clima.
— Amanhã a senhora vai pro salão.
— Que isso, menina...
— Vai sim.
Jéssica entrou na brincadeira.
— Sem discussão.
Ula começou a listar.
— Vou retocar esse loiro que tá precisando de carinho, fazer um corte lindo, deixar a senhora novinha.
Jéssica apontou pra mãe.
— A sobrancelha é comigo.
— E as meninas fazem tua unha.
— Depois ainda ganha uma massagem relaxante.
Gracinha começou a rir.
— Vocês duas não existem.
— Existimos sim.
Ula deu um beijo na testa da mãe.
— E depois disso a senhora vai pensar com carinho em reabrir a pensão.
Gracinha ficou em silêncio.
— A senhora sabe que tem cliente perguntando de tu até hoje.
Ela sorriu de canto.
— O dogão mesmo... toda vez que aparece no salão pergunta quando a tia Gracinha vai voltar a cozinhar. Diz que nunca mais comeu uma comida igual à tua.
Gracinha riu, pela primeira vez de verdade.
— Aquele ali era bom de garfo.
— Era e continua sendo.
As três caíram na risada.
Ula passou o braço pelos ombros da mãe.
— A senhora só tem quarenta e dois anos. Ainda tem muita vida pela frente. A gente vai cuidar da senhora, tá? Vai sair do salão parecendo que voltou pros trinta e cinco.
Gracinha balançou a cabeça, divertida.
— Tu não desiste mesmo, né?
— Nunca.
— Nem de mim?
Ula beijou a testa dela novamente.
— Principalmente da senhora. Nunca vou desistir da senhora.