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1188 Palavras
Ula terminava um degradê impecável em um dos menores do morro. Ela afastou um pouco a cadeira e analisou o corte pelo espelho. — Aí, cria... levanta a cabeça. O garoto levantou. Ela passou a máquina nos últimos detalhes, pegou a navalha para dar acabamento e sorriu. — Agora ficou na régua. O menino abriu um sorrisão. — c*****o, Ula... ficou brabo! Ela deu um tapinha de leve na cabeça dele. — Vai, paga lá na recepção e para de ficar passando a mão no cabelo. Tu vai estragar o penteado antes de chegar em casa. As meninas do salão riram. A recepcionista chamou outra cliente. — Ula, tua agenda de hoje lotou toda. — Amanhã também. — E depois de amanhã só sobrou um horário. Ela pegou o celular, olhou a agenda e respondeu: — Então abre mais meia hora no final do expediente. — Tu não para nunca, né? Ula deu de ombros. — Enquanto eu tiver disposição, eu trabalho. Uma funcionária se aproximou. — Ula, o fornecedor confirmou que entrega as tintas amanhã. — Boa. Confere tudo quando chegar. Se faltar alguma cor, me avisa na hora. — Pode deixar. Nesse momento entrou um senhor já conhecido por todos. — Boa tarde, meninas. — Boa tarde, seu Damião! — responderam quase em coro. Ele sorriu. — Ula, consegue me encaixar hoje? Ela olhou a agenda cheia e depois para ele. — Pro senhor eu sempre dou um jeito. Senta ali que daqui a pouco eu te chamo. Ele agradeceu e foi esperar. Uma das funcionárias riu. — Tu fala que a agenda tá cheia, mas sempre arruma espaço. — Tem cliente que acompanha a gente desde o primeiro dia. Não vou mandar embora. Ela caminhava pelo salão conferindo cada atendimento quando ouviu uma cliente comentar baixinho para outra: — Não é à toa que esse salão vive cheio. A outra concordou. — Aqui ninguém sai insatisfeito. Ula ouviu, mas fingiu que não escutou. Pegou uma vassoura e começou a varrer o próprio espaço. Uma funcionária correu. — Deixa que eu faço isso. Ela sorriu. — Nada disso. Aqui ninguém é melhor que ninguém. Se precisar varrer, eu varro. Se precisar lavar banheiro, eu lavo. O salão é meu, mas o trabalho também é. As meninas trocaram um olhar de admiração. Era exatamente por isso que todas gostavam de trabalhar com ela. Ula cobrava muito da equipe, mas era a primeira a colocar a mão na massa. E dentro daquele salão, o respeito não vinha por medo. Vinha pelo exemplo. Quando o expediente finalmente acabou, Ula fechou as portas do salão, conferiu se estava tudo trancado e caminhou pelas vielas até a casa da mãe. Assim que entrou, já foi chamando. — Mãe... a senhora tá aí? Gracinha apareceu na cozinha com um sorriso fraco. — Oi, minha filha. Tô bem. Ula conhecia aquele sorriso. Sabia que era mentira. Desde que o marido tinha falecido, dois anos antes, Gracinha nunca mais tinha sido a mesma. A antiga dona da pensão mais famosa do morro agora m*l tinha vontade de sair da cama. Nesse momento, Jéssica apareceu na sala. Tinha vinte anos, dois a menos que Ula. — E aí, irmã! As duas se abraçaram. — E aí, pequena. Como tu tá? — Tô bem. Fui muito bem na prova. Ula sorriu, orgulhosa. — Aí sim. Sabia que tu ia mandar bem. Jéssica respirou fundo. — Irmã... eu tava pensando numa parada. — Fala. — Acho que eu não quero fazer advocacia mais, não. Ula arqueou a sobrancelha. — É mesmo? E quer fazer o quê? — Tô pensando em trabalhar com estética... igual tu. Ula deu uma risada. — Ah, então quer abrir um salão pra fazer concorrência comigo? Jéssica empurrou o braço dela. — Para de graça. Pra concorrer contigo a pessoa tem que ser muito braba. Eu tô longe disso. As duas riram. — Jéssica... tu sabe que nem precisa fazer faculdade pra trabalhar comigo, né? — Sei lá... achei que tu fosse exigir isso. Ula balançou a cabeça. — Eu fiz faculdade porque queria aprender tudo. Estética facial, cuidar da pele, procedimentos, essas paradas. Fiz porque era meu sonho. Ela continuou. — Mas tu já sabe escovar cabelo muito melhor que muita profissional por aí. Já sabe cortar cabelo feminino, faz sobrancelha direitinho... eu mesma que te ensinei. Jéssica sorriu. — Tu acha mesmo que eu levo jeito? — Acho não. Tenho certeza. Ela segurou a mão da irmã. — As portas do salão sempre vão tá abertas pra tu. Se quiser começar amanhã, começa amanhã. Agora... se teu sonho mudar, também tá tudo certo. Tu não precisa viver o meu sonho. Tem que viver o teu. Jéssica abraçou a irmã emocionada. — Obrigada. Gracinha observava as duas da cozinha. Os olhos encheram de lágrimas. — Eu adoro essa união de vocês. Ula levantou e foi até a mãe. — Mãe... o pessoal do morro tá sentindo falta da tua comida. Gracinha abaixou a cabeça. — Ai, filha... eu tô sem vontade de nada. Ula segurou as mãos dela. — Eu sei. A voz dela ficou mais baixa. — Eu também sinto uma saudade danada do pai. Jéssica assentiu. — Eu também, mãe. Gracinha limpou uma lágrima. — Parece que perdi uma parte de mim. — Perdeu mesmo. E ninguém tá dizendo que é fácil. Ula apertou a mão da mãe. — Mas a senhora ainda tá aqui. E a gente também. Jéssica completou. — O papai descansou, mãe. Depois de tudo que ele passou... ele descansou. Gracinha respirou fundo. — Eu sei... — Então não se entrega desse jeito, não. Ula sorriu tentando mudar o clima. — Amanhã a senhora vai pro salão. — Que isso, menina... — Vai sim. Jéssica entrou na brincadeira. — Sem discussão. Ula começou a listar. — Vou retocar esse loiro que tá precisando de carinho, fazer um corte lindo, deixar a senhora novinha. Jéssica apontou pra mãe. — A sobrancelha é comigo. — E as meninas fazem tua unha. — Depois ainda ganha uma massagem relaxante. Gracinha começou a rir. — Vocês duas não existem. — Existimos sim. Ula deu um beijo na testa da mãe. — E depois disso a senhora vai pensar com carinho em reabrir a pensão. Gracinha ficou em silêncio. — A senhora sabe que tem cliente perguntando de tu até hoje. Ela sorriu de canto. — O dogão mesmo... toda vez que aparece no salão pergunta quando a tia Gracinha vai voltar a cozinhar. Diz que nunca mais comeu uma comida igual à tua. Gracinha riu, pela primeira vez de verdade. — Aquele ali era bom de garfo. — Era e continua sendo. As três caíram na risada. Ula passou o braço pelos ombros da mãe. — A senhora só tem quarenta e dois anos. Ainda tem muita vida pela frente. A gente vai cuidar da senhora, tá? Vai sair do salão parecendo que voltou pros trinta e cinco. Gracinha balançou a cabeça, divertida. — Tu não desiste mesmo, né? — Nunca. — Nem de mim? Ula beijou a testa dela novamente. — Principalmente da senhora. Nunca vou desistir da senhora.
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