A caminhonete parou em frente à casa de dona Gracinha.
Dogão desceu primeiro.
Ula também.
Os vapores permaneceram mais afastados, fazendo a segurança da rua.
Dona Gracinha abriu a porta do carro com calma.
Ula segurou no braço dela.
— Vem, mãe.
As duas caminharam até a porta da casa.
Ula abriu a porta e olhou para a mãe.
— Quer que eu ajude a senhora a tomar banho?
Dona Gracinha sorriu.
— Não, filha.
— Eu tô bem.
— Não bebi muito.
— Consigo tomar meu banho sozinha e descansar.
Ula ainda ficou olhando para ela.
— Tem certeza?
— Tenho, querida.
Ela fez um carinho no rosto da filha.
— Agora volta pra festa.
— Vai se divertir.
— Vocês ainda são jovens.
Eu já tô velha.
Ula riu na hora.
— A senhora tem quarenta e dois anos.
— Para com isso.
— Não tem nada de velha aí.
Dogão também acabou sorrindo.
Dona Gracinha deu uma risadinha.
— Tá bom...
— Então vamos corrigir.
— Não tô velha.
— Só tô aposentada há muito tempo.
Os três riram.
Ela continuou.
— Faz muito tempo que eu não sei o que é dançar...
— O que é beber uma cervejinha...
— O que é aproveitar uma festa.
— Tô aposentada.
Dogão sorriu.
— Então eu vou tirar a senhora dessa aposentadoria aos poucos.
Ela deu uma gargalhada.
— Devagarzinho, hein.
— Porque eu já não tenho o pique de vocês.
Todos sorriram.
Ula abraçou a mãe demoradamente.
— Vai descansar.
— Qualquer coisa me liga.
— Eu desço de novo.
— Tá bom?
Dona Gracinha beijou a testa da filha.
— Pode deixar.
Depois olhou para Dogão.
— Obrigada por tudo hoje, meu filho.
Ele sorriu.
— Eu que agradeço pela presença da senhora.
Ela acenou.
— Boa festa pra vocês.
Entrou em casa.
Fechou a porta devagar.
Os três vapores permaneceram na rua até verem a luz da sala acender.
Só então fizeram um sinal para Dogão.
— Tudo certo, chefe.
Ele assentiu.
— Bora.
Os dois voltaram para a caminhonete.
Ula entrou no banco do passageiro.
Dogão ligou o carro.
As motos retomaram a escolta.
Enquanto subiam novamente o morro, o silêncio durou alguns segundos.
Foi Dogão quem o quebrou.
— Foi bom ver tua mãe feliz daquele jeito.
Ula sorriu olhando pela janela.
— Foi.
Ela respirou fundo.
— Ainda mais depois da morte do meu pai.
A voz ficou mais baixa.
— Minha mãe sempre foi muito alegre.
Sorriu lembrando.
— Ela adorava dançar.
— Ela e meu pai colocavam música em casa...
— Bebiam um vinho...
— Dançavam pela sala.
Ela riu baixinho.
— Pareciam dois adolescentes apaixonados.
Dogão escutava em silêncio.
— Eles gostavam dessas pequenas coisas.
— Acho que lembrava um pouco da vida boa que eles tiveram antes de perder tudo.
Ela fez uma pequena pausa.
— Quando meu pai morreu...
Os olhos ficaram marejados.
— Minha mãe se fechou.
— Ficou deprimida.
— Silenciosa.
— Parecia que tinha perdido o brilho.
Dogão apertou de leve o volante.
Sem interrompê-la.
— Mas depois que ela reabriu a pensão...
Ula sorriu outra vez.
— Parece que alguma coisa despertou nela de novo.
— Ela voltou a conversar.
— A rir.
— Ver o pessoal do morro descendo pra almoçar...
— Os moradores...
— Os vapores...
— Você também.
Ela virou o rosto para ele.
— Ela gosta muito de você, Dogão.
Ele sorriu discretamente.
— É?
Ula assentiu.
— Porque foi a sua família que acolheu a minha quando a gente chegou aqui.
— Meus pais vieram sem praticamente nada.
— Vocês ajudaram a construir a nossa casinha.
— Deram espaço pro meu pai e pra minha mãe começarem a pensão.
— Depois deixaram eu abrir o salão.
Ela sorriu.
— Você nunca cobrou arrego de mim.
Dogão deu de ombros.
— Porque eu sabia quem vocês eram.
Ula continuou.
— E quando meu pai morreu...
— Você nunca deixou faltar respeito com a gente.
— Sempre protegeu minha família.
Ela olhou para frente.
— Minha mãe nunca esqueceu isso.
Dogão ficou alguns segundos em silêncio.
Depois respondeu com sinceridade.
— Eu só fiz o que era certo.
Ula balançou a cabeça.
— Não.
— Você fez muito mais.
Ela sorriu.
— E sabe de uma coisa?
Ele olhou rapidamente para ela.
— O quê?
— O fato de você sair lá de cima, deixar um pouco os problemas do morro de lado e descer pra comer na pensão...
Ela sorriu emocionada.
— Você não faz ideia do quanto isso deixa minha mãe feliz.
Dogão também sorriu.
— A comida dela merece.
Os dois riram.
Ula voltou a olhar pela janela.
— Hoje eu até me surpreendi.
— Eu tinha certeza de que ela só ia te dar os parabéns e iria embora.
— Mas quando ela resolveu ficar...
— Dançou...
— Bebeu uma cervejinha...
Ela respirou aliviada.
— Meu coração ficou tão feliz.
Dogão reduziu a velocidade ao entrar na subida final do morro.
Falou com a voz tranquila.
— Ela ainda tem muita vida pela frente, Ula.
— E, pelo que eu vi hoje...
— O sorriso dela tá voltando.
Ula olhou para ele.
Os olhos brilhavam.
Ela sorriu.
— Espero que sim.
— Porque minha mãe merece voltar a ser feliz.