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884 Palavras
A caminhonete parou em frente à casa de dona Gracinha. Dogão desceu primeiro. Ula também. Os vapores permaneceram mais afastados, fazendo a segurança da rua. Dona Gracinha abriu a porta do carro com calma. Ula segurou no braço dela. — Vem, mãe. As duas caminharam até a porta da casa. Ula abriu a porta e olhou para a mãe. — Quer que eu ajude a senhora a tomar banho? Dona Gracinha sorriu. — Não, filha. — Eu tô bem. — Não bebi muito. — Consigo tomar meu banho sozinha e descansar. Ula ainda ficou olhando para ela. — Tem certeza? — Tenho, querida. Ela fez um carinho no rosto da filha. — Agora volta pra festa. — Vai se divertir. — Vocês ainda são jovens. Eu já tô velha. Ula riu na hora. — A senhora tem quarenta e dois anos. — Para com isso. — Não tem nada de velha aí. Dogão também acabou sorrindo. Dona Gracinha deu uma risadinha. — Tá bom... — Então vamos corrigir. — Não tô velha. — Só tô aposentada há muito tempo. Os três riram. Ela continuou. — Faz muito tempo que eu não sei o que é dançar... — O que é beber uma cervejinha... — O que é aproveitar uma festa. — Tô aposentada. Dogão sorriu. — Então eu vou tirar a senhora dessa aposentadoria aos poucos. Ela deu uma gargalhada. — Devagarzinho, hein. — Porque eu já não tenho o pique de vocês. Todos sorriram. Ula abraçou a mãe demoradamente. — Vai descansar. — Qualquer coisa me liga. — Eu desço de novo. — Tá bom? Dona Gracinha beijou a testa da filha. — Pode deixar. Depois olhou para Dogão. — Obrigada por tudo hoje, meu filho. Ele sorriu. — Eu que agradeço pela presença da senhora. Ela acenou. — Boa festa pra vocês. Entrou em casa. Fechou a porta devagar. Os três vapores permaneceram na rua até verem a luz da sala acender. Só então fizeram um sinal para Dogão. — Tudo certo, chefe. Ele assentiu. — Bora. Os dois voltaram para a caminhonete. Ula entrou no banco do passageiro. Dogão ligou o carro. As motos retomaram a escolta. Enquanto subiam novamente o morro, o silêncio durou alguns segundos. Foi Dogão quem o quebrou. — Foi bom ver tua mãe feliz daquele jeito. Ula sorriu olhando pela janela. — Foi. Ela respirou fundo. — Ainda mais depois da morte do meu pai. A voz ficou mais baixa. — Minha mãe sempre foi muito alegre. Sorriu lembrando. — Ela adorava dançar. — Ela e meu pai colocavam música em casa... — Bebiam um vinho... — Dançavam pela sala. Ela riu baixinho. — Pareciam dois adolescentes apaixonados. Dogão escutava em silêncio. — Eles gostavam dessas pequenas coisas. — Acho que lembrava um pouco da vida boa que eles tiveram antes de perder tudo. Ela fez uma pequena pausa. — Quando meu pai morreu... Os olhos ficaram marejados. — Minha mãe se fechou. — Ficou deprimida. — Silenciosa. — Parecia que tinha perdido o brilho. Dogão apertou de leve o volante. Sem interrompê-la. — Mas depois que ela reabriu a pensão... Ula sorriu outra vez. — Parece que alguma coisa despertou nela de novo. — Ela voltou a conversar. — A rir. — Ver o pessoal do morro descendo pra almoçar... — Os moradores... — Os vapores... — Você também. Ela virou o rosto para ele. — Ela gosta muito de você, Dogão. Ele sorriu discretamente. — É? Ula assentiu. — Porque foi a sua família que acolheu a minha quando a gente chegou aqui. — Meus pais vieram sem praticamente nada. — Vocês ajudaram a construir a nossa casinha. — Deram espaço pro meu pai e pra minha mãe começarem a pensão. — Depois deixaram eu abrir o salão. Ela sorriu. — Você nunca cobrou arrego de mim. Dogão deu de ombros. — Porque eu sabia quem vocês eram. Ula continuou. — E quando meu pai morreu... — Você nunca deixou faltar respeito com a gente. — Sempre protegeu minha família. Ela olhou para frente. — Minha mãe nunca esqueceu isso. Dogão ficou alguns segundos em silêncio. Depois respondeu com sinceridade. — Eu só fiz o que era certo. Ula balançou a cabeça. — Não. — Você fez muito mais. Ela sorriu. — E sabe de uma coisa? Ele olhou rapidamente para ela. — O quê? — O fato de você sair lá de cima, deixar um pouco os problemas do morro de lado e descer pra comer na pensão... Ela sorriu emocionada. — Você não faz ideia do quanto isso deixa minha mãe feliz. Dogão também sorriu. — A comida dela merece. Os dois riram. Ula voltou a olhar pela janela. — Hoje eu até me surpreendi. — Eu tinha certeza de que ela só ia te dar os parabéns e iria embora. — Mas quando ela resolveu ficar... — Dançou... — Bebeu uma cervejinha... Ela respirou aliviada. — Meu coração ficou tão feliz. Dogão reduziu a velocidade ao entrar na subida final do morro. Falou com a voz tranquila. — Ela ainda tem muita vida pela frente, Ula. — E, pelo que eu vi hoje... — O sorriso dela tá voltando. Ula olhou para ele. Os olhos brilhavam. Ela sorriu. — Espero que sim. — Porque minha mãe merece voltar a ser feliz.
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