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1066 Palavras
Enquanto isso, do outro lado da festa, Ula e Jéssica sentaram em uma mesa mais afastada. As duas pegaram uma cerveja. Jéssica olhou para a irmã e percebeu que ela estava diferente. — Fala. Ula fingiu que não entendeu. — Falar o quê? Jéssica riu. — Irmã... — Eu te conheço. — Tu voltou diferente. — O que aconteceu naquele caminho até em casa da mamãe? Ula respirou fundo. Ficou alguns segundos mexendo na latinha. Depois resolveu contar. — Quando a gente deixou a mamãe em casa... — A gente ficou conversando dentro do carro. Jéssica apoiou o cotovelo na mesa. — E aí? Ula sorriu de canto. — Ele perguntou se eu tinha percebido que as coisas entre a gente estavam mudando. Jéssica arregalou os olhos. — Caralho... — E tu respondeu o quê? — Que sim. — E ele perguntou se eu tava gostando... — Ou se eu preferia que ele se afastasse. Jéssica ficou em silêncio. — Eu falei que não queria que ele se afastasse. — Mas também contei que eu tenho medo. — Medo da vida que ele leva. Ela abaixou a cabeça. — Eu falei tudo. — Que tenho medo dos confrontos. — Das operações. — De um dia ele sair e não voltar. Os olhos de Jéssica ficaram marejados. — Tu falou isso tudo? Ula assentiu. — Falei. — Falei que hoje eu consigo ser a mulher que cuida dele no salão. — Que corta o cabelo... — Faz massagem... — Cuida da pele... — Mas que ser mulher dele é diferente. Ela suspirou. — Porque amar ele significa conviver com o medo. Jéssica segurou a mão da irmã. — E ele? Ula sorriu. — Não brigou. — Não ficou chateado. — Não tentou me convencer. Ela deu um sorriso ainda maior. — Só segurou minha mão... — E falou que entendia. Jéssica sorriu emocionada. — Sério? — Uhum. — Ele disse que a gente podia continuar exatamente como tá. — Que não ia me pressionar. — Que quando eu me sentisse pronta... — A gente tentava. — E se demorasse... — Ele esperava. Jéssica levou a mão à boca. — Ai, meu Deus... Ula riu. — O quê? — Irmã... — Tu tá apaixonada. Ula abaixou os olhos, sem conseguir esconder o sorriso. — Acho que tô. Jéssica apertou a mão dela. — E ele também. — Dá pra ver no jeito que ele olha pra você. Ula ficou alguns segundos em silêncio. Depois falou baixinho. — O que mais me encantou hoje... — Foi que ele respeitou o meu tempo. — Qualquer outro homem talvez insistisse. — Ou achasse que eu tava inventando desculpa. — Ele não. — Ele simplesmente disse que ia esperar. Jéssica sorriu. — Porque ele gosta de você de verdade. Ula olhou para a festa. Dogão conversava com Orelha do outro lado. Ela sorriu sem perceber. Jéssica acompanhou o olhar da irmã e deu uma risadinha. — Tá olhando pro chefe de novo. Ula deu um tapinha no braço dela. — Para de ser fofoqueira. — Não tô olhando, não. Jéssica gargalhou. — Tá sim. — E ele também não tira o olho de tu. As duas começaram a rir, enquanto, sem que percebessem, do outro lado da festa, Dogão também levantava os olhos exatamente na direção de Ula. No dia seguinte, já no fim da tarde, o salão estava vazio. As funcionárias tinham ganhado folga depois da correria da festa. Jéssica também. Só Ula estava ali. Organizava alguns produtos nas prateleiras, conferia a agenda da semana e fechava o caixa. A campainha da porta tocou. Ela levantou os olhos. Sorriu na hora. — Oi. Dogão entrou tranquilo. Vestia exatamente a roupa que ela tinha dado de aniversário. A camisa caía perfeitamente no corpo musculoso. No pulso, o relógio novo brilhava discretamente. No pescoço, a corrente de prata completava o visual. Ele abriu os braços. — E aí... — Tô trajado? Ula levou a mão à boca para esconder o sorriso. — Gostou mesmo? Ele deu uma risada. — Tu ainda pergunta? Parou na frente dela. — Porra... — O morro inteiro tá perguntando onde eu comprei esse relógio. Ela riu. — Sério? — Sério. — Aí eu falei que tinha sido presente. Ela cruzou os braços, curiosa. — E o que disseram? Dogão caiu na gargalhada. — Os filhos da p**a falaram... — "Foi presente da primeira-dama, chefe?" Ula arregalou os olhos. Depois começou a rir sem conseguir parar. — Meu Deus do céu... — Esse povo não presta. Dogão ria junto. — Não presta mesmo. Depois olhou para o relógio. Passou a mão na pulseira. — Mas eu vim aqui por causa disso. Ela olhou para ele. — Vim agradecer. — De verdade. Ela sorriu. — Fico feliz que tenha gostado. Baixou os olhos por um instante. — Confesso que fiquei insegura. — Por quê? Ela apontou para a corrente. — Porque você quase sempre usa ouro. — Corrente de prata eu já vi algumas vezes... — Mas é raro. Depois apontou para o relógio. — Quando eu vi esse relógio na vitrine... — Na hora pensei em você. Ela sorriu. — Foi o primeiro presente que eu escolhi. — Só que achei muito simples. Dogão fez cara de espanto. — Simples? Pegou o pulso mostrando o relógio. — Ula... — Esse relógio aqui deve ter custado uma fortuna. Ela deu de ombros. — Custou. — Mas achei pouco. Ela sorriu. — Aí encontrei essa camisa. — Olhei e pensei... — "É a cara dele." Dogão olhava para ela sem interromper. Ela continuou. — Depois vi essa corrente. — Achei que combinava com o relógio. — Então resolvi montar o conjunto. Ela sorriu tímida. — Ficou bonito? Dogão deu um passo para mais perto. Olhou nos olhos dela. — Bonito? Ele balançou a cabeça. — Tu conseguiu fazer um chefe de morro de trinta e cinco anos ficar igual criança quando ganha presente. Ela riu. — Para. — Tô falando sério. Ele sorriu. — Faz muito tempo que ninguém escolhia alguma coisa pensando em mim. Ela ficou olhando para ele. Sem dizer nada. Dogão passou a mão de leve na corrente. — Cada vez que eu colocar isso aqui... — Vou lembrar que foi tu quem escolheu. Ula sentiu o rosto esquentar. Sorriu sem graça. — Então valeu a pena. Ele respondeu baixinho. — Valeu muito mais do que tu imagina.
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