Enquanto isso, do outro lado da festa, Ula e Jéssica sentaram em uma mesa mais afastada.
As duas pegaram uma cerveja.
Jéssica olhou para a irmã e percebeu que ela estava diferente.
— Fala.
Ula fingiu que não entendeu.
— Falar o quê?
Jéssica riu.
— Irmã...
— Eu te conheço.
— Tu voltou diferente.
— O que aconteceu naquele caminho até em casa da mamãe?
Ula respirou fundo.
Ficou alguns segundos mexendo na latinha.
Depois resolveu contar.
— Quando a gente deixou a mamãe em casa...
— A gente ficou conversando dentro do carro.
Jéssica apoiou o cotovelo na mesa.
— E aí?
Ula sorriu de canto.
— Ele perguntou se eu tinha percebido que as coisas entre a gente estavam mudando.
Jéssica arregalou os olhos.
— Caralho...
— E tu respondeu o quê?
— Que sim.
— E ele perguntou se eu tava gostando...
— Ou se eu preferia que ele se afastasse.
Jéssica ficou em silêncio.
— Eu falei que não queria que ele se afastasse.
— Mas também contei que eu tenho medo.
— Medo da vida que ele leva.
Ela abaixou a cabeça.
— Eu falei tudo.
— Que tenho medo dos confrontos.
— Das operações.
— De um dia ele sair e não voltar.
Os olhos de Jéssica ficaram marejados.
— Tu falou isso tudo?
Ula assentiu.
— Falei.
— Falei que hoje eu consigo ser a mulher que cuida dele no salão.
— Que corta o cabelo...
— Faz massagem...
— Cuida da pele...
— Mas que ser mulher dele é diferente.
Ela suspirou.
— Porque amar ele significa conviver com o medo.
Jéssica segurou a mão da irmã.
— E ele?
Ula sorriu.
— Não brigou.
— Não ficou chateado.
— Não tentou me convencer.
Ela deu um sorriso ainda maior.
— Só segurou minha mão...
— E falou que entendia.
Jéssica sorriu emocionada.
— Sério?
— Uhum.
— Ele disse que a gente podia continuar exatamente como tá.
— Que não ia me pressionar.
— Que quando eu me sentisse pronta...
— A gente tentava.
— E se demorasse...
— Ele esperava.
Jéssica levou a mão à boca.
— Ai, meu Deus...
Ula riu.
— O quê?
— Irmã...
— Tu tá apaixonada.
Ula abaixou os olhos, sem conseguir esconder o sorriso.
— Acho que tô.
Jéssica apertou a mão dela.
— E ele também.
— Dá pra ver no jeito que ele olha pra você.
Ula ficou alguns segundos em silêncio.
Depois falou baixinho.
— O que mais me encantou hoje...
— Foi que ele respeitou o meu tempo.
— Qualquer outro homem talvez insistisse.
— Ou achasse que eu tava inventando desculpa.
— Ele não.
— Ele simplesmente disse que ia esperar.
Jéssica sorriu.
— Porque ele gosta de você de verdade.
Ula olhou para a festa.
Dogão conversava com Orelha do outro lado.
Ela sorriu sem perceber.
Jéssica acompanhou o olhar da irmã e deu uma risadinha.
— Tá olhando pro chefe de novo.
Ula deu um tapinha no braço dela.
— Para de ser fofoqueira.
— Não tô olhando, não.
Jéssica gargalhou.
— Tá sim.
— E ele também não tira o olho de tu.
As duas começaram a rir, enquanto, sem que percebessem, do outro lado da festa, Dogão também levantava os olhos exatamente na direção de Ula.
No dia seguinte, já no fim da tarde, o salão estava vazio.
As funcionárias tinham ganhado folga depois da correria da festa.
Jéssica também.
Só Ula estava ali.
Organizava alguns produtos nas prateleiras, conferia a agenda da semana e fechava o caixa.
A campainha da porta tocou.
Ela levantou os olhos.
Sorriu na hora.
— Oi.
Dogão entrou tranquilo.
Vestia exatamente a roupa que ela tinha dado de aniversário.
A camisa caía perfeitamente no corpo musculoso.
No pulso, o relógio novo brilhava discretamente.
No pescoço, a corrente de prata completava o visual.
Ele abriu os braços.
— E aí...
— Tô trajado?
Ula levou a mão à boca para esconder o sorriso.
— Gostou mesmo?
Ele deu uma risada.
— Tu ainda pergunta?
Parou na frente dela.
— Porra...
— O morro inteiro tá perguntando onde eu comprei esse relógio.
Ela riu.
— Sério?
— Sério.
— Aí eu falei que tinha sido presente.
Ela cruzou os braços, curiosa.
— E o que disseram?
Dogão caiu na gargalhada.
— Os filhos da p**a falaram...
— "Foi presente da primeira-dama, chefe?"
Ula arregalou os olhos.
Depois começou a rir sem conseguir parar.
— Meu Deus do céu...
— Esse povo não presta.
Dogão ria junto.
— Não presta mesmo.
Depois olhou para o relógio.
Passou a mão na pulseira.
— Mas eu vim aqui por causa disso.
Ela olhou para ele.
— Vim agradecer.
— De verdade.
Ela sorriu.
— Fico feliz que tenha gostado.
Baixou os olhos por um instante.
— Confesso que fiquei insegura.
— Por quê?
Ela apontou para a corrente.
— Porque você quase sempre usa ouro.
— Corrente de prata eu já vi algumas vezes...
— Mas é raro.
Depois apontou para o relógio.
— Quando eu vi esse relógio na vitrine...
— Na hora pensei em você.
Ela sorriu.
— Foi o primeiro presente que eu escolhi.
— Só que achei muito simples.
Dogão fez cara de espanto.
— Simples?
Pegou o pulso mostrando o relógio.
— Ula...
— Esse relógio aqui deve ter custado uma fortuna.
Ela deu de ombros.
— Custou.
— Mas achei pouco.
Ela sorriu.
— Aí encontrei essa camisa.
— Olhei e pensei...
— "É a cara dele."
Dogão olhava para ela sem interromper.
Ela continuou.
— Depois vi essa corrente.
— Achei que combinava com o relógio.
— Então resolvi montar o conjunto.
Ela sorriu tímida.
— Ficou bonito?
Dogão deu um passo para mais perto.
Olhou nos olhos dela.
— Bonito?
Ele balançou a cabeça.
— Tu conseguiu fazer um chefe de morro de trinta e cinco anos ficar igual criança quando ganha presente.
Ela riu.
— Para.
— Tô falando sério.
Ele sorriu.
— Faz muito tempo que ninguém escolhia alguma coisa pensando em mim.
Ela ficou olhando para ele.
Sem dizer nada.
Dogão passou a mão de leve na corrente.
— Cada vez que eu colocar isso aqui...
— Vou lembrar que foi tu quem escolheu.
Ula sentiu o rosto esquentar.
Sorriu sem graça.
— Então valeu a pena.
Ele respondeu baixinho.
— Valeu muito mais do que tu imagina.