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1109 Palavras
No caminho até em casa, Gracinha caminhava devagar, aproveitando a companhia da filha. Depois de alguns minutos em silêncio, ela falou: — Ula... — Oi, mãe. — Posso te perguntar uma coisa? — Claro. Gracinha olhou para a filha de lado. — Tu já reparou no jeito que o Dogão olha pra tu? Ula deu uma risada. — Ih, mãe... começou. — Tô falando sério. — Ele me olha igual olha pra qualquer morador. Gracinha balançou a cabeça. — Não olha, não. Ula sorriu, desacreditada. — Mãe, ele é meu cliente. — Eu sei. — E eu trato ele igual trato qualquer pessoa que entra no meu salão. — Também sei. Gracinha respirou fundo. — Mas hoje, naquele escritório... quando ele olhou pra tu... parecia que queria ter certeza que tava tudo bem contigo. Ula deu de ombros. — Ele perguntou porque achou que tinha acontecido alguma coisa. — Pode ser. Ela sorriu de canto. — Ou pode ser porque ele se preocupa contigo. Ula soltou uma risada. — Mãe, para de criar história. Gracinha resolveu mudar de assunto. — Tá bom... não falo mais. As duas riram. Quando chegaram em casa, Ula abriu a porta. — Pronto. Missão cumprida. Gracinha entrou e se virou para a filha. — Obrigada por hoje. — Não agradece, não. — Agradeço sim. Ela abraçou Ula demoradamente. — Tu e tua irmã salvaram meu dia. Ula fechou os olhos por um instante. — A gente só quer ver a senhora feliz de novo. Gracinha beijou a testa da filha. — E conseguiu. Ula sorriu. — Agora descansa um pouco. Mais tarde eu passo aqui de novo. — Vai trabalhar. — Sempre. Ela saiu da casa e caminhou de volta para o salão. Assim que abriu a porta, ouviu uma cliente elogiando. — A menina que fez minha sobrancelha é excelente. Jéssica, que organizava os materiais, olhou para a irmã com um sorriso ansioso. — E aí? A cliente respondeu antes mesmo de Ula falar. — Tem mão leve. Me explicou tudo e ficou exatamente do jeito que eu queria. Ula abriu um sorriso de orgulho. Olhou para Jéssica e piscou. — Tá vendo? Eu falei que tu dava conta. Jéssica respirou aliviada. — Achei que fosse travar. — Todo mundo trava na primeira vez. Ela abraçou a irmã de lado. — Mas daqui a pouco vão começar a pedir pra serem atendidas por você também. Jéssica sorriu, sentindo que, pela primeira vez, estava realmente encontrando o próprio caminho dentro do salão da irmã. Os dias foram passando. A rotina do salão seguia intensa. Jéssica tinha encontrado seu lugar. Em pouco tempo, conquistou uma clientela fiel. A agenda de sobrancelhas já estava praticamente cheia todos os dias. Ela fazia cada atendimento com calma, explicava o procedimento, ouvia as clientes e entregava um trabalho impecável. Ula observava tudo de longe, orgulhosa. — Tá voando, hein. Jéssica sorriu. — Aprendi com a melhor. Numa tarde movimentada, a porta do salão se abriu. O burburinho diminuiu na mesma hora. Dogão entrou com o jeito firme de sempre. Os vapores que faziam a segurança ficaram do lado de fora, enquanto ele caminhava até a cadeira de Ula. Ela levantou os olhos e sorriu. — Até que enfim apareceu, cliente VIP. Ele deu um meio sorriso. — A semana foi puxada. — Dá pra perceber. Ela colocou a capa nele. — Bora deixar esse cabelo na régua de novo. Dogão apenas assentiu. Ula começou lavando o cabelo dele, massageando o couro cabeludo com movimentos firmes e precisos. — Tá dormindo direito? — Quando dá. — Ou seja... quase nunca. Ele riu. — Quase isso. Ela terminou a lavagem, secou os fios e pegou a máquina. Em poucos minutos, refez o degradê exatamente do jeito que ele gostava. Passou a navalha no acabamento, limpou os últimos fios e afastou a cadeira. — Pronto. Dogão olhou no espelho. — Como sempre... ficou perfeito. Ula sorriu. — Agora vem. Ela caminhou até a sala reservada. Dogão foi atrás. Assim que a porta se fechou, ela pegou a ficha de atendimento e perguntou com naturalidade: — Hoje vai querer fazer depilação também ou só a massagem? Dogão apoiou as mãos na maca e respondeu, tranquilo: — Hoje só a massagem. Tô precisando relaxar um pouco. — Então deita aí. Ela preparou os materiais enquanto ele se acomodava na maca. — Pelo jeito essa semana te castigou. Ele soltou um suspiro. — Pra c*****o. Ula sorriu de canto. — Então deixa comigo. Vamos ver se eu consigo tirar um pouco desse peso das tuas costas hoje. Ula continuou a massagem com a concentração de sempre. As mãos experientes trabalhavam cada músculo das costas largas de Dogão, desfazendo os nós que a rotina pesada do morro deixava pelo corpo. Os ombros estavam completamente travados. — Caralho... — ele resmungou, soltando o ar devagar. — Tava precisando disso. Ela sorriu sem perder o ritmo. — Eu falei. Tu chega aqui carregando o mundo nas costas. Ela desceu para a lombar, trabalhando os pontos de maior tensão, depois passou para as panturrilhas e os pés, alongando a musculatura com movimentos firmes. Dogão fechou os olhos por alguns segundos. — Meu Deus... agora eu entendi por que eu saio daqui parecendo outra pessoa. — Porque tu nunca para pra descansar. Ela terminou aquela etapa da massagem. — Pode virar. Ele virou de barriga para cima, e ela continuou o atendimento de forma profissional, trabalhando os ombros pela parte da frente, os braços, os antebraços e as mãos, desfazendo a rigidez dos músculos. Dogão respirou fundo. — Caralho... Ula deu uma risada baixa. — Tá funcionando, então. — Muito mais do que eu imaginava. Ela sorriu. — Tu tava precisando disso mais do que queria admitir. Ele abriu um sorriso raro. — Tu é minha salvação, Ula. Ela balançou a cabeça, divertida. — Nada disso. Eu só faço meu trabalho. — Faz bem pra c*****o. Ela terminou os últimos movimentos nos braços e fez um alongamento leve. — Pronto. Dogão abriu e fechou as mãos algumas vezes. — Parece que até o peso dos braços foi embora. Ula limpou as mãos na toalha. — Agora a obrigação é tua. — Qual? — Dormir direito pelo menos uma noite e beber bastante água. Se tu sair daqui e voltar a forçar o corpo igual sempre faz, daqui a cinco dias vai chegar todo travado de novo. Ele riu. — Acho que tu já sabe a resposta. — Sei mesmo. Os dois riram, mantendo aquela relação de confiança construída ao longo dos anos, em que ela cuidava do bem-estar dele como cliente e ele respeitava o trabalho dela acima de tudo.
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