Mas Elena estava entediada; os tempos judiciais eram longos e lentos demais para ela. Petersson lhe informou sobre a jogada de Owen com o procurador-geral e garantiu que isso não seria um grande inconveniente. Tudo seguiria adiante; ele queria evitar que a Sra. Olivier se arrependesse, embora o caminho à frente estivesse cheio de obstáculos.
Ela já havia antecipado algo dessa natureza; o que descobriu sobre o ex-marido a deixou surpresa. Não apenas havia assumido a Direção da Plaza&Milne, como durante sua ascensão ao topo tinha “colecionado” uma lista impressionante de pessoas ainda mais impressionantes. O querido Owen já não era mais aquele homem simples com dinheiro que a olhava como se fosse a coisa mais linda do mundo; agora ele tinha poder.
Tudo o que ele representava agora era exatamente o que Elena precisava para alimentar seu ego: um homem poderoso rendido aos seus pés. Se o processo o havia atraído tão facilmente, deveria haver algo mais que ela pudesse fazer para colocá-lo de joelhos. Jogar pouco a pouco não era seu estilo.
No entanto, algo na recente transformação de Owen despertava fascinação nela. A segurança com que movia suas peças, a rede de influências que tinha construído ao seu redor, tudo indicava que ele não se dobraria tão facilmente quanto ela imaginara. Elena nunca recuava diante de um desafio. Cada vez que o jogo se tornava mais perigoso, mais sentia que tinha o controle, que era ela quem escrevia as regras. E desta vez, não seria diferente.
Teria que atacar nos pontos precisos se quisesse alcançar seu objetivo. Cada passo precisava ser calculado com exatidão. Eva havia sido apenas o começo. Ir diretamente ao que Owen mais valorizava revelou-lhe algo mais profundo: a extensão do poder dele. Se o procurador-geral lhe devia favores, quem não devia?
Elena já tinha dado o primeiro passo, e a partir de agora, cada movimento precisava ser tão preciso quanto um bisturi. Ela tinha lançado a isca, e Owen a havia mordido. Era hora de jogar mais alto.
Por que não dar uma festa? Claro! Uma festa de boas-vindas para a viúva que retornava com os milhões do falecido marido; uma recepção para a Sra. Olivier planejada por um de seus amigos, reunir todos no mesmo lugar e fazer com que ele aparecesse para transformar aquilo no espetáculo principal. Ele iria, ela tinha certeza; não resistiria. Elena o conhecia bem demais. Sabia que, apesar de tê-la expulsado de sua vida, Owen ainda guardava algo por ela. Nenhum homem como ele poderia enterrar tudo o que tinham compartilhado.
Os Calgari ficaram mais do que encantados com a ideia de emprestar seu hotel para tão distinta dama; uma velha amiga que havia investido no negócio alguns anos antes; uma antiga amante de um dos irmãos e dona de um império no mercado de ações. Em poucos dias, teriam tudo preparado para ela.
Por trás deles, ela se escondeu para que enviassem os convites. Convites para os amigos que um dia tiveram em comum com Owen, para muitos de seus colegas, para membros respeitados da sociedade que haviam se sentado à mesa com eles em tantas jantares e, é claro, para Owen. Ela o atrairia de volta para suas mãos e, diante de todos, o exporia em público.
Dias depois, o convite chegou ao seu escritório. Greta bateu à porta com suavidade, pediu desculpas e lhe entregou um envelope elegante. As letras douradas com filigranas, onde se lia: “Hotel Calgari”, lhe deram a dica de que se tratava de uma gala, uma festa ou algum evento social; provavelmente para “arrecadar fundos” para alguma causa. Por um instante, ele pensou em descartá-lo. Não costumava ir a esse tipo de evento, normalmente mandava Bob em seu lugar.
Mas ao abri-lo, soube imediatamente que o jogo havia começado. O processo tinha sido apenas uma desculpa; ali, em sua mão, estava a verdadeira jogada:
Hotel Calgari
Convite Especial
O Hotel Calgari tem a honra de convidá-lo para uma recepção exclusiva em homenagem ao retorno da distinta Sra. Elena Olivier à nossa cidade.
Será uma noite repleta de elegância e distinção, onde teremos o prazer de reunir amigos e colegas em uma ocasião inesquecível para celebrar a volta de uma mulher excepcional, cuja presença sempre foi sinônimo de graça e sofisticação.
Ficaríamos muito honrados com sua presença nesta ocasião tão especial.
Atenciosamente,
Hotel Calgari.
E, zombando dele, o cartão principal estava endereçado ao: Sr. Owen Walker & Companhia. Parecia que, apesar da distância e dos anos, ela ainda conseguia adivinhar sua solidão. Ela já tinha previsto isso — que faria mais do que simplesmente apresentar um processo para marcar presença; que faria mais do que mover fios nas sombras. E lá estava, sobre sua escrivaninha, a prova.
Ele não era t**o; os anos trabalhando para subir ao topo lhe haviam ensinado algumas coisas interessantes: como as pessoas realmente se moviam, como decifrar palavras não ditas nas entrelinhas, como ler gestos e atitudes. Já não existia mais o homem confiante e apaixonado de antes. E ele conhecia de antemão as intenções implícitas naquela gala de boas-vindas.
Ela estava decidida a mostrar ao mundo que poderia reduzi-lo a nada se assim desejasse. Mas o mais sensato seria ignorá-la, exatamente como ela fizera com ele na reunião com os advogados; seus convidados esperariam vê-lo chegar correndo atrás de suas pernas e acabariam decepcionados. Porque iriam para ver isso, e não para cumprimentá-la.
Mas Owen não conseguia ser sensato quando se tratava de Elena. Cada vez que ouvia seu nome, algo dentro dele se revirava. A razão pode se nublar quando colide com os sentimentos; em sua cabeça, era melhor comparecer, agir com indiferença, reduzi-la da mesma forma que ela tentava reduzi-lo e ir embora. Mostrar frieza; assegurar-lhe que não passava de um fantasma e que ele não tinha medo dela. No entanto, apesar de tudo, o nome “Elena” continuava ressoando em sua mente com uma força que ele odiava admitir.
Duas forças opostas se preparavam para colidir. Ela, decidida a transformá-lo em um fantoche de seus caprichos, e Owen, agarrado ao próprio orgulho, com as cicatrizes do passado ainda abertas. A primeira queria saciar a necessidade de consumir-lhe a alma, e ele queria vê-la novamente por trás de uma fachada de indiferença e frieza.
No meio disso, sem suspeitar, sem saber e sem procurar; uma moça simples, muito empática e trabalhadora, que lutava todos os dias contra a hostilidade da vida e começava a enxergar um pouco de luz em seu caminho, apesar das dificuldades e asperezas.
É curiosa essa travessura do destino: empurra com um dedo uma peça e ela cai empurrando outra, que por sua vez empurra outra, sucessivamente. Parecido com as ondas que uma pedra produz num lago ao ser arremessada à distância. E a estranheza está no fato de que essas peças ou essas ondas podem tocar a vida de outras pessoas totalmente alheias… ou talvez nem tanto.