Capítulo 20

1041 Palavras
E apesar de saber que era melhor assim, Anna sentia falta da presença silenciosa dele atrás daquela porta. No começo, batia à porta com certa timidez, temendo que ele estivesse lá dentro e sem saber o que lhe diria. Com o passar dos dias, começou a sentir alívio por não vê-lo, mas esse alívio logo deu lugar a uma decepção sutil e persistente. O escritório dele havia se tornado o último trecho de sua rotina. Às vezes, ela se apressava nas demais tarefas para ter alguns minutos extras e observar cada canto onde Owen costumava trabalhar. As capas de revistas com seu rosto, as fotografias de Eva, os livros espalhados pelas estantes. Até mesmo as figuras de cerâmica que decoravam alguns espaços. Em certas ocasiões, escapava-lhe um suspiro triste. Parecia que o esperava; a cada movimento dos elevadores ou quando alguém abria uma porta, ela se enchia de expectativa pensando que poderia ser ele. E quando se dava conta dos pensamentos que lhe cruzavam a mente, se repreendia. Não tinha como saber que, na verdade, Owen estava se escondendo dela. Por que motivo alguém como ele iria querer ver de novo alguém como ela? Não tinha sido mais do que um beijo, e com certeza ele estava acostumado àquilo: a que as mulheres se interessassem por ele. O que Anna poderia ter de especial? Nada; pelo contrário, não poderia ser mais comum. Era só que, às vezes, gostava de imaginar. Quem não gostaria? Aquele beijo tinha sido um pequeno refúgio para Anna, algo mais do que um gesto simples. Cada vez que o recordava, um calor suave, quase proibido, percorria seu peito. Entre as negativas e os reproches por ter cedido aos impulsos, em um lugar escondido do coração ela se alegrava por ter acontecido. Uma pequena felicidade, bem diminuta, de ter se sentido mulher novamente, de ter se sentido desejada, ainda que só um pouco. De ter sentido a mão dele em sua cintura; e o cabelo curto e macio dele roçando seus dedos. Cada instante daquele beijo se repetia em sua mente, mas Anna supunha que Owen já o tinha deixado para trás, como um simples impulso momentâneo. Ele havia despertado nela uma faísca de algo que estivera adormecido em seu interior por muito tempo. E é que, apesar de sua relação com Alex ter se tornado algo “platônico”, Anna sempre manteve sua fidelidade. Deixara passar todos aqueles homens que algum dia se aproximaram dela. Tentaram conhecê-la, convidá-la para um café, conversar. Ela encolhia os ombros, desviava os olhares e seguia adiante, presa à lealdade vazia que tinha por Alex. Durante anos, estivera presa a uma solidão compartilhada, uma relação na qual seu lado mais íntimo, sua essência como mulher, vinha se apagando aos poucos. Alex havia corroído sua confiança com comentários cruéis e longos silêncios, até que Anna já não lembrava o que era sentir-se desejada. Como se estivesse parada sob chuva fria, suportando rajadas de vento gelado e as picadas das gotas finas no rosto; assim tinham sido os últimos anos com Alex. Ela o sustentou quando ele ficou sem nada, quando desistiu de tudo; ela o amava. Mas, como se Anna não fosse mais que um objeto, ele a chutou quando ela estava no pior momento, mostrando seu verdadeiro rosto. Alex, como todo covarde, atirou a pedra e escondeu a mão, deixando-a sozinha com o peso de suas inseguranças. Talvez por isso ela não conseguisse parar de pensar em Owen; ele tinha sido o oposto em apenas algumas horas: direto, presente. Anna passou novamente o pano pela escrivaninha, como se lhe desse uma carícia, apagou as luzes, saiu e fechou a porta. Sua noite tinha terminado. A desvalorização constante e a falta de afeto genuíno tinham desgastado sua autoestima. Agora, cada gesto de gentileza e cada demonstração de interesse de outra pessoa, como os de Owen, parecia um bálsamo para sua alma ferida, lembrando-a do que era sentir-se valorizada e apreciada. Enquanto caminhava até o ponto de ônibus, não conseguia evitar refletir sobre como permitira que Alex a tratasse daquela forma por tanto tempo. Sobre como ela tinha se escondido atrás daquela expressão desamparada e de suas histórias miraculosas para manipulá-la, para desgastar seu espírito e para viver às suas custas. E de repente, um homem quase desconhecido lhe mostrou o que ela havia esquecido: que ainda era uma mulher, que ainda podia sentir, desejar e ser desejada. Anna estava decidida a deixar aquela centelha arder, mesmo que não fosse com Owen. Podia recuperar sua dignidade e sua felicidade agora, podia recomeçar e sentir alívio. A ausência de Owen deixava um vazio amargo, mas também lhe trazia algo mais: clareza. A cada dia que passava, Anna percebia que não era apenas ele que ela sentia falta, mas a sensação de sentir-se viva, valorizada. Owen havia sido o catalisador, mas a mudança estava acontecendo dentro dela. Começava a entender que seu valor não dependia da aprovação ou do amor dos outros, mas de sua própria percepção. Tinha passado tempo demais esperando palavras de carinho ou gestos de apreço; era hora de cicatrizar. Agradeceu a Owen Walker por aquele momento de fraqueza, impulso incontrolável, ou o que quer que tivesse sido; ele havia tocado sua alma. Mas no caminho até sua casa, sua mente lhe trouxe de volta todas aquelas fantasias quase infantis evocadas por um cavaleiro como ele. Sonhar não custa nada. Com sorte, agora que havia se libertado de seu peso, algum dia teria a chance de conhecer alguém como ele: alguém que a fizesse sentir-se segura e protegida, que lhe desse palavras de incentivo e se preocupasse com seu bem-estar. Talvez não tão atraente nem tão elegante, nem tão rico, definitivamente, mas alguém suficientemente valente para não precisar se esconder da vida. Os corações partidos não se contentam com o primeiro que aparece. Aprendem a continuar batendo, mesmo com os pedaços lascados ou perdidos. E Anna tinha decidido que, apesar de tudo, seguiria em frente, mais forte, mais livre. Essa é a magia da vida: levantar-se, sacudir a poeira, olhar para o céu e continuar caminhando. Era isso que Anna fazia e continuaria fazendo; poderia tropeçar mil vezes, mas já não seria tão difícil voltar à luta: sua alma estava mais leve.
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