As noites que se seguiram àquele beijo passaram sem que ele voltasse a ficar até tarde. Não queria vê-la de novo, não sabia como reagiria nem o que diria a ela. Pedir desculpas? Ficar irritado? Por quê? Se ele apenas havia se inclinado sobre ela, desejoso daquela boca. Sim, a atitude de Anna lhe indicara que ela também esperava algo; mas isso não justificava nada. Owen era um homem maduro, experiente, e Anna m*l era uma moça.
E ele não conseguia tirá-la da cabeça! A imagem de Anna o atormentava mais do que o processo de Elena. Os advogados falavam, mas suas palavras se perdiam num eco distante. Owen olhava a papelada à sua frente, mas só via a imagem de Anna, seu sorriso, o calor da pele dela. O conflito legal com Elena empalidecia diante do caos que Anna provocara em sua mente.
O escritório de Elena não poupava recursos para pressioná-lo, tentando espremer cada brecha legal, mas ele confiava que seus próprios advogados conseguiriam lidar com a situação. Afinal, Owen Walker era um homem influente, todos lhe deviam algum favor.
Bastou ouvir que o processo seria adiado para que sua mente escapasse novamente para a jovem. Mas a voz de Bob o trouxe de volta à realidade.
—Então, meu estimado amigo… o que os rapazes vão fazer? —perguntou.
—Quem? —respondeu Owen, ainda um pouco distraído.
—Os advogados, Owen!
—Frear tudo. Eu os coloquei em contato com o procurador-geral; Petersson pode ter muita influência, mas o sujeito me deve favores.
Bob o olhou com curiosidade, surpreso com a resposta; não era típico de Owen usar suas conexões dessa maneira, mas se fosse por Eva ele lutaria com tudo, até com o que havia de mais sujo.
—Bom, ainda bem. Espero que aquela bruxa exploda de raiva.
Antes que Owen pudesse responder, a nova secretária entrou silenciosamente e deixou alguns envelopes sobre sua mesa. Bob sorriu, satisfeito com a escolha do departamento de Recursos Humanos, que tinha seguido suas instruções ao pé da letra.
—Obrigada, Greta —disse Bob, lançando um olhar rápido para Owen, que não desviava os olhos da mesa. Quando a mulher saiu, sorriu com malícia—. Nada m*l, hein?
—Deixa eu adivinhar, foi ideia sua —comentou Owen, arqueando uma sobrancelha.
—Claro que não! Pedi o de sempre —mentiu Bob, dando de ombros.
A nova secretária de Owen era uma mulher mais velha, quase da idade de sua mãe, com um olhar severo e um rosto apagado.
—Duas semanas… em duas semanas você a demite —disse Owen, sem se preocupar em esconder a irritação.
—Por que você não age como um homem normal por uma vez e vem comigo ao clube? Talvez conheça alguém que não seja uma secretária.
Owen apenas o olhou e voltou aos próprios pensamentos. De repente, pediu aquilo. Nem pensou, simplesmente saiu de sua boca. —Preciso descobrir sobre ela…
—Hein? Sobre a Greta?
—Não! Me mande alguém de Dados.
Bob não entendia. De “Dados”? Aquela parte da empresa reunia informações… sobre quem ele queria saber?
—Para quê?
—Apenas faça.
—Tá bom, já que pediu por favor, eu faço. O que você quer saber?
—Nada muito importante… tenho algumas dúvidas —mentiu.
—Sobre quem ou o quê? —tentava arrancar mais informação, mas Owen o encarou com irritação.
—Tá, tá… já vou —disse Bob, levantando-se, intrigado.
Em uma empresa de serviços digitais e tecnológicos, a informação é como o sangue em um sistema circulatório. Basta extrair um pouco e, com alguma análise, os resultados aparecem em questão de horas. E foi exatamente isso que fez o funcionário que Owen havia pedido para ver; anotou o que o Diretor queria e, algumas horas depois, o computador de Owen alertava sobre um e-mail novo na caixa de entrada.
Assunto: Informações sobre Anna Garden.
Corpo da mensagem:
Anna Garden, vinte e seis anos. Seus pais têm um pequeno cultivo de hortaliças nos arredores da cidade, perto da zona rural. Infância e adolescência normais. Vários trabalhos desde os 18 anos: no campo da família, em uma loja de cosméticos, em outra de móveis, como garçonete, entre outros, até chegar a uma cafeteria e, atualmente, à empresa. Estuda licenciatura em ciências sociais na universidade. Detalhe relevante: está em falência.
O que mais chamou a atenção de Owen foi o histórico de crédito dela. Tinha dívidas por todos os lados. Anexadas ao e-mail, havia várias fotos de Anna com o “namorado”, um sujeito comum, com aparência de hippie. “O aproveitador”, pensou Owen, sentindo um profundo nojo. Que tipo de homem se aproveita de uma mulher como Anna? E novamente, por que ele tinha que se preocupar com isso?
Sua mente era um turbilhão de pensamentos e emoções contraditórias. Ele havia tentado convencer a si mesmo de que todas as mulheres eram iguais, interessadas apenas em dinheiro, como tinha sido Elena. Mas Anna desafiava essa visão com cada gesto, cada atitude. Não se curvava, não pedia ajuda. Seguia em frente apesar das dívidas, das dificuldades. Aquela mulher o intrigava.
O relatório era detalhado: datas, dados, as escolas que ela frequentara, os nomes e o endereço dos pais. Pelo visto, não tinha irmãos; informava o dia exato em que começara a morar naquele apartamento e até quanto pagava de aluguel. Não era preciso ser um gênio das finanças — embora ele fosse — para perceber que, nem com os dois empregos que tinha, conseguia cobrir todas aquelas despesas.
Foi só isso que ele fez naquele dia: ler aquele relatório repetidas vezes. Mas quando deu cinco da tarde, saiu disparado, fugindo; não podia enfrentá-la e escapava dali como se estivesse assustado. Cada vez que pensava no beijo, sentia uma fisgada de medo. Seus próprios sentimentos o traíam, enrijecendo seus músculos, roubando-lhe o controle.
Abandonou o prédio e sentiu o calor persistente do sol sobre o asfalto. O ar era denso e seco, e o murmúrio distante do tráfego m*l chegava aos seus ouvidos. Seu carro o esperava na entrada, mas por um segundo Owen ficou parado, hesitando.
Ele entrou e disse a si mesmo que precisava pôr fim àquela curiosidade, àquele interesse pela moça da limpeza. Seu cinismo o fez rir um pouco ao pensar no que havia pedido ao funcionário: investigar e vasculhar a vida dela. Estava ficando louco.
Tentou convencer-se de que era algo passageiro, algo infantil e imaturo. Continuava culpando Elena por seu desequilíbrio e afrouxou um pouco o aperto no volante; ao menos isso estava bem encaminhado. Seus “conhecidos” parariam o caso, o descartariam e o fariam desaparecer. E se ela voltasse com outra jogada daquele tipo, ele só precisaria levantar o telefone e cobrar velhas dívidas.
Por um instante, Walker quis acreditar que tinha tudo sob controle. A distância de Anna apagaria o desejo, o caos que ela havia provocado nele. Mais uma vez, ele prevaleceria sobre qualquer coisa que tentasse tirá-lo do eixo. Era isso que ele acreditava.