Pressionou o acelerador e saiu disparado pela porta daquele prédio. Suava pelo corpo, a cabeça estava prestes a explodir, e sua boca ainda guardava o sabor da dela. O que ele tinha feito? Praguejou em voz alta várias vezes, até chegar ao cruzamento com a avenida. Estava furioso consigo mesmo, com aquela b***a incontrolável que o dominava e o levava a cometer estupidezes.
Só por lhe dar um pouco de consolo ao vê-la tão infeliz, chorando e angustiada, ele tinha deixado cair suas defesas. Será que realmente se sentia atraído por aquela moça? Ridículo! Como poderia sentir algo desse tipo por uma jovem? Estava ficando louco? Tudo era culpa de Elena, de seu retorno. Ela o deixava tão alterado, o mortificava e lhe lembrava de sua própria fraqueza. Por isso fez o que fez, por isso a beijou.
Ele não queria reconhecer o que realmente o puxava na direção de Anna.
Chegou em casa totalmente descontrolado. Tirou o paletó e o jogou sobre qualquer cadeira, caminhou em círculos pelo quarto antes de desabar na cama, levando as mãos à cabeça. Soltou outra praga, desta vez ainda mais furioso.
Alguma vez pensou que ela talvez tivesse perfil para ocupar um cargo como o de assistente, mas aquilo tinha sido apenas uma ideia passageira, um comentário mental ao acaso. Qualquer pessoa que aliviasse seu peso por algumas horas servia para a função, era o que ele acreditava. Owen estava um desastre. Era a primeira mulher que ele beijava? Claro que não! Já tinha visto aquelas expressões de antecipação em muitos rostos: olhos aturdidos e desejosos, bocas entreabertas e úmidas. O que havia de diferente? Nada.
Assim que fechou a porta de seu apartamento, Anna se deixou cair no chão, ao lado da planta. Passou as mãos pelo rosto várias vezes, esfregando-o com força, como se pudesse tirar de si o gosto do beijo e o perfume dele. Tonta! Tinha se deixado levar pela própria fragilidade, pela necessidade de sentir calor. Como iria enfrentá-lo depois do que tinha acontecido? A simples ideia de vê-lo novamente a aterrorizava.
Ela se deixou arrastar por um momento de crise emocional e pela presença imponente de Owen. Por aqueles olhos cinzentos e o porte sério, atraída pela força do abraço, pelas palavras gentis. “Como você pode ser tão iludida, Anna?”, perguntou a si mesma. O vazio que sentia era tão grande que qualquer demonstração de carinho ou interesse a atraía como mel para uma mosca. Os anos de solidão e desilusões a tinham deixado faminta por afeto.
Era culpa de Alex e de sua traição; ele a arrastou para um turbilhão de emoções, levou-a ao limite e ela desabou diante de Owen. Era nisso que queria acreditar. Uma moça como ela não podia se permitir admitir o que realmente acontecia dentro de si, nunca faria isso. E menos ainda quando se tratava de um homem como ele; um homem importante, um homem fora de seu alcance.
As dificuldades diárias, anos de desculpas e justificativas impossíveis, e o desejo morto tinham levado Anna a acreditar que aquele era o único tipo de amor que merecia: um amor medíocre. A possibilidade de algo mais com alguém como Owen Walker estava a quilômetros de distância de sua realidade. A baixa autoestima pode ser resultado de investir tempo e carinho em alguém que não valoriza, não aprecia e não se importa.
Quando finalmente conseguiu se acalmar, Owen se aproximou do pequeno bar e serviu uma dose. Sua mente estava um pouco mais clara, mas o corpo ainda carregava sensações. Fechou os olhos com o copo na mão e se permitiu um momento de indulgência: a imagem do rosto dela ansioso, seus sorrisos enormes, o otimismo com que realizava suas tarefas na empresa, suas palavras afogadas em choro. Apertou o cristal com força.
Se admitisse o que estava sentindo, acabaria enlouquecendo. Não teve outra opção senão ativar seus mecanismos de defesa e trazer, dos recantos mais escuros e retorcidos do coração, as lembranças do passado. As de Elena. Precisava reabrir as feridas para que a dor substituísse aquilo que Anna despertava nele.
Ele não criava laços afetivos, se distanciava, se convencia de que, se voltasse a se deixar prender, todo aquele processo se repetiria. Toda aquela dor voltaria a atormentá-lo. Não era apenas falta de confiança, ele colocava todas no mesmo nível, rebaixando-as a uma cópia vulgar de sua ex-esposa. Não por ira nem ressentimento; por medo.
O Diretor-Geral, de aparência régia e soberba, era um homem inseguro, tanto que nem sequer confiava na própria imagem refletida no espelho.
Anna se levantou depois que seu coração desacelerou. Estava com a pele arrepiada dos pés à cabeça e aquela sensação persistente de tontura que não passava. Já estava feito e não havia volta, só lhe restava esperar e confiar que Owen processasse aquilo da melhor maneira possível; não queria perder aquele emprego.
Decidiu não contar nada a Lali, sua amiga tinha falado por ela, tinha pedido ao primo por ela; Anna sentia que a havia decepcionado. Não tinha sido mais que um beijo, mas ressoava com força na alma da moça. Nunca havia sentido tanta potência emanando de uma boca como sentiu da dele; firme e exigente, poderosa. Ele lhe mostrou, naquele beijo, que era um homem completo, inteiro e bem definido.
Por um momento, enquanto seguia para o quarto, ousou imaginar como seria estar com alguém assim. Com alguém que se sentia e se mostrava daquele jeito. Com braços fortes que a segurassem, com ombros largos nos quais se apoiar, com um semblante que transbordava segurança. E sim, ela o comparava com a “tentativa” de homem com quem convivera tantos anos, não conseguia evitar. O olhar cinzento dele, quase de aço, a desnudou por dentro e por fora, fazendo-a sentir-se exposta e viva ao mesmo tempo.
Ainda vestida, deixou-se cair na cama. Olhando para o teto e respirando profundamente, a vergonha de seus pensamentos a obrigou a se cobrir até a cabeça com a manta, como se pudesse se esconder deles.
Para Owen, a reação foi outra; não conseguiu tirar o calor de Anna de cima de si a noite inteira e teve que lutar com a b***a até adormecer.
Ambos estavam imersos em uma espiral de emoções, buscando em suas mentes os argumentos mais convincentes para se afastarem do que seus corações queriam expressar livremente. Nenhum dos dois se aventuraria além das próprias barreiras.
Essas barreiras construídas de medos e dúvidas começavam a se rasgar; o fogo estava se alimentando lentamente, e nem as dúvidas nem os medos podiam apagar o que estava despertando aos poucos em seus corações.