Bastou dar alguns passos para longe do prédio para encontrar o mesmo carro preto estacionado na esquina.
Owen não conseguiu ficar tranquilo; não podia deixá-la voltar sozinha. Então foi até o estacionamento e esperou dentro do carro até que chegasse a hora de ela terminar o turno.
Quando ela se aproximou o suficiente, ele desceu.
—Vou te levar —disse, direto.
Ela ia recusar, mas ainda sentia ecos daquela segurança grudados nela. Assentiu, e ele abriu a porta.
O que o impulsionava? Preocupação, gentileza? Ele não sabia ao certo, não pensava muito; apenas sentia. E da mesma forma que ela o preocupava, também o deixava inquieto. Seu monstro interior estava adorando aquilo, mas ele não conseguia se concentrar o suficiente para contê-lo.
Anna tinha um nó de nervos no estômago. Por que ele a fazia sentir assim? Ele foi atencioso, se comoveu com sua dor e se ofereceu para ouvi-la. Aqueles olhos cinzentos tinham falado com ela, garantindo que lhe daria alguns momentos de refúgio. Não era só o olhar — eram os braços fortes, o peito quente, o corpo inteiro contra o dela.
Mordeu o lábio inferior; estava pensando daquele jeito porque se sentia vulnerável, porque estava triste e ele tinha sido gentil, porque fazia tempo demais que ninguém a abraçava daquele jeito, que ninguém a tocava ou acariciava daquela forma.
Owen deu a volta no carro e se sentou rapidamente no banco do motorista. Mas não ligou o motor de imediato e, por alguns instantes, ficou em silêncio, segurando o volante com as duas mãos e olhando fixamente para frente. Por dentro, tudo nele se agitava, e a mulher ao seu lado o provocava sem querer.
—Aconteceu alguma coisa? —Anna perguntou, curiosa.
—Não —ele respondeu, finalmente ligando o carro.
Não havia muito o que dizer; nenhum dos dois queria estourar a bolha que tinha se formado ali. Para ela, era reconfortante apenas ouvir o motor e olhar pela janela. E ele temia que, se abrisse a boca, erraria; diria algo inadequado. O monstro já não estava só se divertindo — agora batia em seu peito por dentro, ressoando nas costelas.Mas ele não conseguiu segurá-lo por muito tempo; uma das garras escapou pela garganta, obrigando-o a falar.
—Eu sei que você está passando por um momento difícil —disse, sem desviar os olhos da estrada —Não quero me meter na sua vida. Só quero que saiba que estou aqui para te ouvir, se você precisar.
Owen lançou um olhar rápido para ela; os olhos de Anna se arregalaram um pouco ao notar o tom da voz dele.
—Obrigada… por se preocupar —ela respondeu enfim.
avia uma curvinha na boca dela, quase um sorriso. Aquela boca que parecia macia e… tentadora. No que ele estava pensando? Apertou mais o acelerador. Se não chegasse logo, não conseguiria se controlar e acabaria fazendo besteira. Seu coração batia no mesmo ritmo da velocidade, as mãos suavam; esfregou uma, depois a outra, na calça.
Anna também percebia a tensão que crescia entre eles. Sentia o peito se expandir demais, como quando se inspira fundo demais e prende o ar; e depois se contrair até faltar oxigênio. Meio tonta, meio nervosa; algo que ela não lembrava há quanto tempo estava adormecido.
Lançava-lhe olhares discretos, apreciando o perfil: os fios grisalhos nas têmporas, as linhas nos olhos, o nariz reto e a boca… a boca. Engoliu seco e voltou a olhar pela janela. Estava perdendo a cabeça? Owen só tinha sido gentil, e ela já estava imaginando bobagens. Estava tão sozinha assim? Sim. Muito.
Quando finalmente avistou a rua do seu prédio, o coração dela começou a se acalmar. Ia descer e deixar no carro todas aquelas ideias ridículas. Para Owen, porém, era desesperador percorrer aqueles poucos metros, mas quando Anna descesse, levaria consigo toda aquela confusão.
Ele estacionou e desligou o carro. Para quê? Anna se virou para olhá-lo, outra vez com um sorriso, outra vez com aquele leve franzido no nariz.
—Muito obrigada por tudo… Por me ouvir, por me trazer e por não me mandar embora do trabalho —ela tentou soar informal, queria quebrar a tensão.
Owen tentou retribuir o sorriso, mas só conseguiu contrair a mandíbula. Precisava deixá-la ir, parar de se complicar com aquela mistura de emoções que não conseguia entender. Mas aqueles olhos grandes continuavam olhando para ele.
—Você não precisa me agradecer por nada —disse, com a voz baixa e rouca. Respirou fundo.
Anna sentiu o ar nos pulmões ficar pesado. Sabia que precisava descer, que o melhor era sair, entrar no prédio e deixar tudo para trás. Mas, em vez de abrir a porta, seus dedos ficaram parados sobre a maçaneta. Não queria ir embora.
—De qualquer forma… —tentou dizer.
O carro parecia menor, como se o ar entre os dois se comprimisse enquanto o tempo parava. Owen percebeu a respiração dela ficar mais irregular; a observou um pouco mais e viu os olhos vidrados, a boca querendo se esconder entre os dentes, o peito subindo e descendo acelerado. Anna estava se deixando levar.
Owen foi atingido por um estalo de desejo misturado à consciência de que estava prestes a cruzar uma linha invisível. Seu monstro interior rugiu, usando as duas garras para tentar abrir-lhe o peito, para escapar e seguir aquele impulso. Algo dentro da sua cabeça também gritava, mas a fera vociferava mais alto.
Ele estava dando um passo em direção a um precipício e se inclinou levemente para ela, como quem busca uma resposta—e ela não recuou. Seus lábios encostaram nos dela num toque suave, testando a maciez que ele suspeitava que teria.
Anna fechou os olhos; o coração batia forte, e o calor daqueles lábios fez com que ela prendesse a respiração. Ao mover os seus, foi como acender uma faísca. Tudo dentro dela começava a incendiar, um fogo abrasador desses que consomem de uma vez só. Ela se aproximou mais, e esse movimento deu a Owen coragem para aprofundar o beijo. Meu Deus… o sabor dela! Doce, intenso.
Ele levou a mão até a cintura dela com certo cuidado, e ela fez o mesmo, passando o braço pela nuca dele. O calor começava a tomar conta, derretia-lhes o pensamento; não havia mais nada na cabeça de nenhum dos dois. Tudo se redirecionava ao corpo: às mãos, às bocas, aos tremores leves que Anna sentia nas pernas e às reações abaixo da cintura que Owen não conseguia evitar.
O perfume daquela moça era intoxicante, o cheiro daquele homem maduro era embriagador. Aquele beijo era mais que um beijo; eram duas necessidades se encontrando. A necessidade de Anna de sentir calor e segurança, e a de Owen de voltar a provar a ternura. E estavam ambos se afogando.
Anna deixou escapar um som baixinho, quase nada, mas ele reverberou em Owen, fazendo-o abrir os olhos de repente e perceber o que estava fazendo. Ele se afastou dela imediatamente; bastou um segundo para ver o rosto de Anna todo entregue, lindo, com a boca úmida—e ele quis voltar, mas se conteve com uma força que o destruía por dentro.
O calor entre eles começou a se dissipar, dando lugar a uma culpa que apareceu no olhar de Owen, e Anna sentiu o impacto.
—Me desculpa! —ela se apressou em dizer, puxando a maçaneta, mas a porta não abria.
Ele não sabia o que dizer, as emoções escapavam e ele não conseguia contê-las.
—Deixa eu descer… —pediu ela.
Owen apertou um botão, e ouviu-se o clique das portas liberando o travamento.
—Me desculpa! —ela repetiu e desceu às pressas.
Quase correu até a entrada; desta vez não se virou para acenar para ele. Dentro do carro, um furacão começava a se formar em Owen, pronto para destruir tudo ao seu redor.