Sentia como se seu corpo tivesse se desmanchado em pedaços, e a cada movimento, cada gesto, era como se esses pedaços vacilassem, querendo cair. Às oito em ponto, já estava tirando o lixo dos cestos, e as lágrimas lhe caíam sem controle. Achava que estava sozinha e que podia desabafar toda a dor sem que ninguém a visse. Mas então, de repente, sentiu um movimento atrás de si e, ao virar, ele estava ali parado.
Outra noite de pensamentos pesados para Owen, incapaz de se desprender das sensações amargas. Ela estaria do outro lado, trabalhando, como sempre, mas ele não sairia dessa vez. Então o som de sufoco e desespero o alcançou ali, em sua poltrona, e seu corpo ficou alerta. De novo aquele choro amargo, aberto, cheio de dor. E ele sentiu a necessidade de ver o que estava acontecendo.
Anna o olhava um pouco surpresa, o rosto completamente molhado. Despedaçada.
—O que aconteceu com você? —ele perguntou.
Mas ela não conseguia emitir nenhuma palavra, apenas aqueles sons roucos, suspiros apressados tentando buscar ar, até explodir de um jeito devastador. Seu corpo tremia; tentou cobrir o rosto, mas ele não deixou. Segurou uma de suas mãos.
—Anna, o que foi? Por que está chorando assim?
Ela negou com a cabeça, quis se soltar, mas seu coração estava tão desamparado que deu apenas alguns passos até ele e encostou o rosto em seu peito. Precisava tanto de um pouco de calor. Só um pouco de consolo.
O instinto protetor de Owen despertou e ele a envolveu com os braços. O corpo pequeno dela se convulsionava no ritmo do choro entre suas mãos, e ele apertou o abraço, sem entender por que não queria soltá-la.
Os sorrisos amplos, os olhos brilhantes, o entusiasmo com que ela trabalhava ouvindo música; as bolachas e o café, o modo como suportava a dor física e agora aquela outra dor… Achou que Anna fosse se partir ao meio. Aquele choro descontrolado lhe lembrou um pouco Eva, despertando ternura. Ele podia protegê-la assim, como protegia sua pequena.
O calor do corpo dela contra o seu lhe causava sensações contraditórias. Anna tremia entre seus braços, tão vulnerável. Ele acariciou sua cabeça quase por instinto, tentando consolá-la sem entender o que realmente estava acontecendo.
—Anna, chega de chorar… O que aconteceu? —sussurrou baixo.
Aquela mulher começava a mexer com algo dentro dele, e Owen nem percebia.
—Desculpa —disse ela um pouco depois, quando conseguiu recuperar o controle.
Mas também não se afastou do abraço; era forte, protetor, e fazia tempo que ela não se sentia assim: cuidada. Para Owen, porém, a situação estava começando a ficar desconfortável. Sim, era uma moça frágil, e quando sorria o nariz dela fazia um movimento peculiar…
—Não se preocupe, mas me diga por que está chorando.
Anna levantou um pouco o rosto para olhar para ele; aqueles olhos cinzentos estavam cravados nos dela.
Ela só contava seus problemas para Lali, e nem sempre tudo — muita coisa ela guardava bem no fundo. Mas naquela noite tudo veio à tona. O olhar dele lhe inspirou confiança.
—Tive um problema em casa… um problema que me abalou demais… desculpa.
—Venha, vamos conversar —ele disse, apontando para a própria sala.
Ela o acompanhou, sem querer perder aquela sensação. Sentou-se numa das poltronas, e Owen se acomodou na de frente. Tinha as mãos sobre o colo, bem apertadas, as pernas juntas com força e os ombros caídos.
Ele esperou alguns segundos para que ela falasse. Mas ela não falou.
—Que tipo de problema você tem? —perguntou com voz baixa, fazendo com que ela levantasse um pouco mais a cabeça.
—Eu estive economizando esses meses… não muito, só um pouco… precisava fazer alguns reparos no meu apartamento… —a garganta se fechou um pouco—. Hoje à tarde Alex apareceu com um instrumento novo, ele toca violino. Ele não tem como pagar algo assim…
Meu Deus. Owen fechou os olhos com força, sentindo um peso no peito. Já sabia o que ela iria dizer a seguir.
—Ele usou essas economias pra comprar o violino… tudo… Não foi o dinheiro que me incomodou, mas me senti traída, e isso dói —confessou, prestes a chorar de novo.
—Alex é… seu namorado?
—Não sei… não sei o que ele era, mas não é mais. Eu trabalho muito pra seguir em frente, não quero dar pena, é a minha realidade —disse dando de ombros—. É só que às vezes, como hoje, eu não aguento tanto. Lamento muito ter causado uma cena.
—É perfeitamente compreensível, você não precisa pedir desculpas.
—O trabalho não é lugar pra isso —disse envergonhada, olhando para o chão. Mas Owen apenas fez um leve gesto com a mão, como quem diz "não importa".
—E agora, o que vai fazer?
—Seguir. Como sempre —sorriu de leve—. Se eu parar agora, não sei se consigo avançar de novo.
Diante dele estava uma pessoa, uma mulher jovem, que aparentemente conhecia a derrota de perto. Mas ele também reconhecia nela a força e a resiliência que o fracasso ensina; ela tinha caído, mas isso não a impediria de se levantar outra vez. E isso era algo que ele também entendia.
—Posso te ajudar? —perguntou de repente. Claro que podia ajudá-la. Tinha tudo para isso.
Anna negou com a cabeça.
—Eu vou resolver. De qualquer forma, você já me ajudou me ouvindo e me consolando… Pelo visto a Lali não é a única na sua família que se preocupa com os outros… De verdade, obrigada.
Seu sorriso ficou um pouco maior e lá estava, aquele quase imperceptível movimento do nariz. Owen ficou surpreso e, ao mesmo tempo, confuso. A garota, ainda com o rosto molhado de lágrimas e o corpo exausto, conseguia sorrir daquele jeito.
Algo o fez levantar, caminhar até a mesa e pegar a caixa de lenços. Entregou para ela.
Owen não conseguia tirar os olhos de Anna enquanto ela enxugava o rosto. Mas o que ela tinha contado se misturou na mente dele com a conversa que ouvira entre a prima e a tia, e uma onda de repulsa subiu pelo seu estômago. Aquele gosto amargo, ácido.
—Ele é um infeliz —soltou com raiva—. Um homem de verdade jamais faria isso com uma mulher, muito menos com a própria companheira. Imagino que você tenha colocado ele pra fora.
—Sim… —Anna ficou um pouco surpresa com aquelas palavras, tão certeiras quanto duras.
—Que nojo. Um lixo —continuou, incapaz de se conter. Para ele, esse tipo de homem era um insulto para todos os outros.
—Ele nem sempre foi assim… —tentou justificar; talvez a ele, talvez a si mesma.
—Eles são sempre assim. Fazem cara de inocentes, te fazem acreditar que se importam e te usam. Quando se cansam, você vira carne de carniça.
Na verdade, Owen estava falando da própria experiência. Mas percebeu a linguagem que estava usando e sentiu um pouco de vergonha. O silêncio se instalou entre eles.
Anna deixou a caixa sobre a mesa e se levantou. Precisava se recompor.
—Obrigada por tudo. É melhor eu continuar ou vou me atrasar.
—Claro… Não se preocupe, não foi nada.
Ela saiu e retomou suas tarefas, mas ele não iria embora. Ficou enraizado na poltrona, esperando. Esperando o quê? Que ela não chorasse de novo? Por que isso o preocupava?
Anna se concentrou, primeiro para terminar no horário e segundo para que a angústia não voltasse a dominá-la. Mas quando foi limpar o escritório dele, Owen já não estava; tinha saído, e ela nem percebeu o momento.
Enquanto passava um pano nas fotografias sobre a mesa —todas de Eva e dele—, finalmente conseguiu tirar aquela dúvida: ele não era uma má pessoa, apesar do jeito distante. E agradeceu a ele novamente, em silêncio.