Capítulo 15

1339 Palavras
A vida de Anna era complicada, difícil, muitas vezes ela se sentia sozinha e derrotada. Mas buscava dentro de si aquela faísca que a mantinha de pé e a esfregava mentalmente com as mãos, como se fosse uma lâmpada mágica; e, como o gênio das histórias, a faísca inflamava e aparecia para empurrá-la a continuar. Mas naquele dia precisou passar horas esfregando a lâmpada, tinha chegado ao ponto de ruptura. Havia algum tempo juntava um pouco de dinheiro para poder fazer reparos no apartamento. O pinga-pinga constante da torneira da cozinha já lhe perfurava os tímpanos; as paredes precisavam urgentemente que tapassem buracos e nivelassem as superfícies, além de uma boa mão de tinta. Anna, com o envelope vazio na mão, sentou-se numa cadeira e levou a outra à cabeça. Negava e negava, não conseguia acreditar. Alex a observava sem dizer nada, com aquela cara de inocente, querendo inspirar pena. —Como você pôde fazer isso comigo? —perguntou Anna, a voz quebrada, prestes a desabar em choro. Cada palavra custava a sair, como se a garganta se fechasse um pouco mais a cada sílaba—. Como pôde? —Desculpa… —Não… —retrucou ela, com uma amargura que cortava o ar—. Você não está arrependido, você não se importa… Não aguento mais. —Anna, me escuta. Eu sei que parece muito, mas eu posso pagar, ago… —Não! —gritou, e ela não costumava gritar—. Não, Alex, chega! Ele tinha feito aquilo. Usou as economias efêmeras de Anna para substituir o violino velho. Às escondidas, como um ladrão; sabendo de todo o esforço que ela fazia todos os dias para juntar um dinheiro. Com total impunidade e covardia. Era verdade, ele não se importava com nada. A pouca confiança que Anna ainda tinha nele se desfez. Que outra prova precisava? Lali tinha razão. O silêncio que veio depois foi pesado, cheio de dor; porque Anna sentiu aquilo como uma traição. Ela o olhou por um momento e as lágrimas que segurava finalmente romperam. —Eu cuidei de você nos últimos quatro anos —começou—, você não tinha para onde ir… Eu saio todas as manhãs e volto à noite, e você está dormindo. Quantas vezes pedi para você ajudar com as despesas ou com a casa? Quantas, Alex? Você diz que tudo o que me importa é dinheiro, mas é com isso que a gente vive. Como é possível que você não perceba? —Me escuta… —tentou ele. —Não! Não vou te ouvir mais. Sabe o que é isso aqui? —perguntou mostrando o envelope—. Isso é o fim. Isso é o que faltava para eu entender que você não gosta de mim… você nunca gostou. Eu jamais faria algo assim com você! Você não enfrenta nenhuma responsabilidade, espera que os outros resolvam seus problemas… Achei que estivesse passando por alguma fase difícil, que quando melhorasse buscaria emprego de novo, que teríamos uma vida juntos, que cresceríamos… As bochechas ardiam, a cintura doía e o coração também. Exausta e machucada, Anna tinha chegado ao limite. Mas falar com alguém como Alex era o mesmo que falar com uma parede; uma parede oca. —Eu te disse, Anna, eu te disse… Você sabe como eu penso, sabe que não posso trabalhar como você, isso me consome a alma… Preciso de tempo para me encontrar, e trancado num escritório eu não vou conseguir… Será que ele estava mesmo usando aquela bendita desculpa de novo? Ela o observava como se fosse um extraterrestre. Era sério? Estava zombando dela? —Estou cansada do seu misticismo barato! —Você não entende! —Claro que eu não entendo! A gente não vive de ar! Quero que você vá embora… —Duvido muito que você queira jogar todos esses anos juntos no lixo, assim, de qualquer jeito —respondeu Alex com um traço de soberba. —Você está brincando? —disse ela, incrédula—. Você nem me toca! Há quanto tempo não temos i********e? Há quanto tempo você não se preocupa com nada além do seu maldito violino e desse conto de fadas kármico? Há quanto tempo você não se preocupa com alguém além de você mesmo? Ela amassou o envelope e o jogou contra o peito dele. Indignada, furiosa, magoada; tudo era pouco para descrever. A traição, a desconfiança, o respeito pisoteado. Que tola. Que tola você é, Anna. Seu sentimento de culpa a fez carregar tudo: a casa, a universidade, Alex. Nunca duvidou do que estava fazendo, achando que era o certo. E era assim que ele retribuía. Ela soltou o ar e o olhou nos olhos. —Quero que você vá embora —repetiu. A firmeza daquelas palavras encurralou o violinista. Ele começou a se desesperar. —Anna, Anna, me escuta… —Não, não vou te ouvir mais. Nada do que você diga tem algum significado pra mim. Vai embora. —Não, Anna, por favor… Ele tentou tocá-la, mas ela se afastou. Seus olhos estavam arregalados, a expressão tomada pelo desespero, mas de que servia? A única preocupação dele naquele momento não era tê-la machucado, traído sua confiança ou roubado seu dinheiro; era não acabar na rua. —Não vou carregar você comigo nunca mais. —Não faz isso comigo… —Vou trabalhar. Não quero te ver quando eu voltar —disse, levantando-se e enxugando o rosto com o dorso da mão—. Leva todas as suas coisas, leva o que quiser, mas some… Não posso mais viver assim. Anna pegou sua bolsa e saiu. Ainda era cedo, mas precisava se afastar dele e da sensação de derrota. Caminhava devagar, como se arrastasse os pés. Pensava em tudo: o sorriso dele quando se conheceram, as longas conversas, as risadas. Tudo tinha sido falso, apenas uma estratégia para convencê-la, para viver às custas dela. Ela não sabia se devia se sentir triste ou uma completa i****a. Todos aqueles anos vivendo com a água no pescoço, sem conseguir dar um passo adiante porque carregava aquele peso nas costas. Pelo mesmo motivo que fazia tudo: por carinho. Por empatia, por cuidado, por não saber dizer não. Por acreditar que o ajudava até que ele encontrasse de novo seu lugar no mundo. Mas ele não queria encontrar nada; só queria o fácil, o simples, o que o livrasse das obrigações. Ela tinha suportado muito, demais. Pelo menos teve coragem de se livrar daquele peso morto; só precisou enxergar com clareza, distinguir quem era realmente aquele “homem” que tocava violino no metrô, que não procurava emprego por causa de uma teoria ridícula de almas antigas e vidas passadas, que nem sequer a esperava à noite ou a ajudava em casa. Era exatamente o que todos lhe diziam e ela não quis ouvir: um parasita. A realidade a atingia com força: tinha sido manipulada, usada, e isso doía mais que qualquer outra coisa. Sentiu-se pequena, vulnerável e, acima de tudo, tola por não ter percebido antes. Sentou-se para esperar o ônibus e deixou três passarem antes de embarcar. O corpo pesava como se tivesse engolido pedras. Naquele momento, ela não percebia, mas tinha agido com coragem; nunca é fácil se desprender de um narcisista e manipulador. Eles costumam virar o jogo e fazer com que o outro carregue a culpa pelos pecados deles. Mas perdem todo o poder quando quem eles tentam manipular finalmente enxerga a verdade; perdem tudo e mostram suas cores reais: não são nada sem alguém em quem descarregar seus fracassos emocionais; ficam sem nada e se reduzem a pouco mais que um pedaço de excremento na rua. Alex confiou que suas mentiras e palavras convincentes seriam suficientes para continuar vivendo às custas de Anna. Para ele, ela não era mais que uma ingênua boa demais. Esticou tanto a corda, certo de que era mais esperto que ela, até que a arrebentou. E agora, sem nada além do violino e algumas roupas, acabaria na rua. Coragem custa, dói, mas Anna não estava perdendo nada; ao contrário, estava ganhando sua liberdade.
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