Capítulo 14

1391 Palavras
Tinha chegado o dia: enfrentar Elena. Owen chegou ao escritório acompanhado por Bob e quatro advogados da área jurídica da empresa. Entrou com aquela postura carregada de soberba, como se olhasse o resto do mundo de cima; mas por dentro lutava para manter a calma e não deixar que suas emoções o traíssem. Atrás de alguma daquelas portas, ela estava. Imediatamente os acomodaram numa sala e os cinco advogados da vez anterior se sentaram do outro lado da mesa. Suas ordens eram claras, simples e diretas: incomodá-lo, irritá-lo e tentar um acordo. Mas Elena não estava ali, claro que ela não estaria. Aquilo só tinha sido jogar a isca. — A senhora não vai se apresentar? — perguntou Bob com um toque de desprezo. — Não é necessário — respondeu um deles. — Então o que ela quer? — a voz de Owen deixava claro que ele estava furioso. — A senhora quer ter a possibilidade de visitar sua filha. — Não é filha dela — rebateu Owen com raiva. — Mas a certidão de nascimento... — A certidão de nascimento não significa nada! Ela foi embora faz quatro anos e nunca se preocupou em perguntar pela menina! — cortou-o, elevando a voz. — Calma, Owen — murmurou Bob. Mas Owen estava longe de se acalmar. — O que ela quer de verdade? Dinheiro? Que me diga quanto... — A senhora não precisa do seu dinheiro, só quer reivindicar o direito dela como mãe. Direito como mãe? Um sorriso torto, irônico, se desenhou na boca dele. — Ela não tem direito nenhum; a custódia é minha, e se tentar... se vocês tentarem qualquer coisa, não terei problema algum em ir ao tribunal — ameaçou. Os advogados de Elena sabiam exatamente onde estavam se metendo. Walker era um homem poderoso, conhecido por ser implacável, impossível de deter. — Nós também não temos problema em nos apresentar diante do juiz — respondeu outro, com sarcasmo. —Então não temos mais nada sobre o que falar. Acionem, se tiverem coragem. E não me façam perder mais tempo. Owen se levantou e ouviram-se várias cadeiras arrastando ao mesmo tempo. Saiu como tinha entrado, impondo presença. Furioso e enojado. Embora sua ira se justificasse pelo encontro com aqueles cinco abutres, sentia ainda mais raiva pelo desprezo de Elena ao não se apresentar. No fundo, Owen estava convencido de que ela não iria; seu jogo de fazê-lo se mover, de incomodá-lo, de arrastá-lo até aquele lugar era o verdadeiro motivo da demanda: humilhação. Elena estava ali, sim, mas em uma sala ao lado, escutando. Queria ouvi-lo, não apenas as palavras, mas o tom, a dor que esperava encontrar em sua voz. Esse era seu verdadeiro objetivo: demonstrar-lhe que, mesmo depois de tudo o que tinha feito, ainda podia estender a mão como quem chama um cachorro, e ele apareceria. Isso era tudo o que precisava confirmar: ainda podia brincar com Owen. A ideia a divertia. Sorria, acomodava-se no sofá com satisfação. O que estava fazendo era apenas um aperitivo; ela ia fazê-lo cair de novo. Por quê? Porque sim, porque podia, porque desfrutava. Ele teve a ousadia de expulsá-la como lixo, e isso ela não tinha calculado. Eventualmente iria deixá-lo por Thomas, mas não daquele jeito. Isso estava apenas começando. —É incrível —disse Bob quando já estavam de volta ao escritório— Incrível.—E ela não vai parar, eu sei. Mas está completamente louca se acredita por um instante que vou deixá-la ver Eva!... Ela não vai passar de novo pela indiferença daquela mulher. —Lamento muito que tudo isso esteja acontecendo, Owen. Por dentro, muitas coisas estavam reviradas. O que ele pretendia encontrar ao se apresentar ali? Arrependimento? Um pedido de perdão? Deixou-se cair no sofá, o olhar perdido em um ponto fixo na parede, tentando afastar os lembranças. Não ia admitir, não ia dizer em voz alta, mas apesar de toda a tortura pela qual ela o havia feito passar, algo quente persistia dentro dele. Era a lembrança dos momentos antes da dor, antes da traição. Um eco do que um dia acreditou que era amor, enterrado sob camadas de ressentimento. E Bob o conhecia; conhecia aquele olhar enevoado e translúcido, aquela expressão. Suspirou profundamente e se levantou para sair sem dizer mais nada. Tempos difíceis estavam por vir. —Preciso de uma nova secretária —disse Owen num sussurro antes que seu amigo fechasse a porta. Bob parou com a maçaneta na mão e seus ombros caíram um pouco.—O que houve com a que você tem? Owen não respondeu. —Certo, vou falar com Recursos Humanos —disse diante do silêncio e foi embora. De novo a mesma coisa. A mãe de Owen soube dos detalhes daquela reunião e sentiu desespero; conhecia o filho, tinha certeza de que ele estaria passando por um momento de angústia, então levou até ele aquilo que Owen mais precisava para lembrar por que devia resistir a Elena: Eva. Apareceu no escritório com a menina pouco antes das sete; não permitiria que ele passasse outra noite se torturando. E enquanto conversavam, em código, para que Eva não entendesse muito, a pequena explorava o escritório grande do pai. Às vezes ficava olhando as capas das revistas, porque em todas aparecia seu papai. Naquela mesma noite, Anna chegou para trabalhar como sempre e viu que ele ainda estava ali, e com companhia, então apenas começou suas tarefas. Tinha falado com Lali mais cedo na universidade e, no intervalo, ela lhe contou sobre o primo e aquele rosto triste. A conversa entre Owen e sua mãe se prolongou e Eva começou a se entediar, então escapou daquele lugar para explorar um pouco mais. Anna se sentou um instante para descansar; sua cintura doía um pouco e, de repente, ouviu um ruído atrás dela e, ao se virar, encontrou uma menininha que a observava com olhos enormes. No começo se assustou —e quem não se assustaria?— mas logo depois escutou a voz de uma mulher e a de Owen. —Eva, onde você se meteu? —chamava a avó. —Deve ter se escondido debaixo de alguma mesa… Boneca, saia daí, vamos para casa —respondeu Owen. Mas a menina apenas sorriu, daquele jeito travesso dos pequenos, e se encolheu atrás da cadeira de Anna. A mulher, já de certa idade, cabelos brancos e muita elegância, surgiu pelo canto. —Oh! Boa noite —cumprimentou Anna. —Boa noite. —Por acaso você não viu uma pequena arteira por aqui? Anna fez um sinal em silêncio, apontando discretamente que ela estava atrás de si. —Não, sinto muito, não vi ninguém —respondeu com um sorriso. —Que estranho… Será que Eva escapou? —disse num tom brincalhão. —Encontrou? —perguntou Owen, aproximando-se por trás da mãe. Anna repetiu o gesto. —Não, filho… Acho que Eva fugiu —fingiu preocupação. Nesse instante, a pequena saiu de trás da cadeira soltando gargalhadas e correu direto para as pernas do pai. Anna ficou surpresa; o rosto de Owen era outro. Ele sorria! E havia tanta doçura naquela expressão. Ele a tomou nos braços e Eva envolveu seu pescoço, ainda rindo sem parar. —Hora de ir para casa, filha, já está tarde para você. Filha? Então aquela era a menina de quem Lali tanto falava. —Obrigada —disse a mulher. Anna apenas assentiu e sorriu de volta. Mas, quando estavam prestes a sair, a menina insistiu para descer dos braços do pai. Assim que seus pés tocaram o chão, voltou correndo até Anna e tentou escalar suas pernas até a saia; ela a ajudou. A pequena lhe deu um abraço fortíssimo, daqueles que as crianças usam quando querem mostrar tudo o que sentem, e o coração de Anna derreteu. —Obrigada —disse Anna — Que abraço mais lindo. Deu-lhe um beijo na bochecha, ao que Eva respondeu com mais risadinhas antes de voltar para pegar a mão de Owen. Quanta ternura. Era disso que Lali falava sobre seu primo; ao que parecia, ele realmente era um pai amoroso. Aquilo aqueceu um pouco o coração de Anna. Estavam esperando o elevador quando Owen a viu parar e levar a mão à cintura, num gesto evidente de dor, mas ela voltou ao trabalho sem dizer nada. E, por algum motivo, ele não gostou de vê-la assim.
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