Capítulo 13

1445 Palavras
Sentaram-se um de frente para o outro no balcão onde ficava a máquina de café. Em silêncio, cada um com sua xícara. Owen partiu um biscoito entre os dedos e provou apenas um pedaço; não estava com fome, mas também não queria parecer descortês. Anna podia sentir, o dor que emanava dele como um perfume. Era a derrota que o ativava, a frustração, as lembranças. — Você estuda a mesma coisa que a Lali? — perguntou de repente. — Não, estudo licenciatura. — Ah! Quer ensinar. — Sim, eu gostaria… Dela também vinha uma energia estranha, como uma aura de cansaço. Achou aquilo peculiar; a observava e via apenas uma moça que parecia se esforçar demais para viver. “Vai largar a universidade”, foi uma das desculpas que Lali usou para convencê-lo. O quanto ela tinha que batalhar com a vida para estar daquele jeito? Anna podia sentir o peso que Owen carregava, uma espécie de sombra que parecia envolvê-lo e que ela, de alguma forma, conseguia ver refletida em seus olhos cansados. O quanto sua ex-esposa o havia ferido para deixá-lo naquele estado? Ela observou seu bom terno, a gravata impecável; ao que parecia, o dinheiro não evitava as dores do coração. E, ainda assim, ambas as dores, a de Owen e a de Anna, encontraram um pouco de sossego naquele café quase silencioso. E é que Owen, por trás da fúria e da indignação, tinha algo mais pulsando dentro de si: um resto de um amor passado, um retalho de sentimento misturado com angústia. A expulsara naquele dia de sua casa, de sua vida; a declarara morta e, no entanto, às vezes a lembrava como quando a conheceu. Mas se ela achava que usaria Eva como instrumento, estava enganada. Anna terminou seu café e levou a xícara para o outro lado do balcão. — Bem, vou continuar — disse ela. — Sim, obrigado pelos biscoitos. — De nada — respondeu com um sorriso. Sentiu um pouco de satisfação. Tinha sido apenas um gesto, mas era uma demonstração de consideração. E Owen percebeu. Ela continuou mais um pouco seu trabalho e ele finalmente se despediu. Aqueles momentos compartilhados com ela haviam acalmado um pouco seu coração. Anna terminou seu turno e saiu para esperar o ônibus. Esticou-se um pouco e se perguntou se o que Lali dizia sobre Owen, sobre como ele podia ser um homem bom e atencioso quando queria, era verdade. “Pelo menos ele pediu desculpas”, disse a si mesma. Entendia que aquele grito feroz tinha sido apenas um reflexo dos pensamentos dele naquela noite; que não fora intencional, mas sua reserva e aquelas expressões frias fizeram-na duvidar um pouco. Enquanto esperava o ônibus, a realidade a golpeou novamente. As parcelas do empréstimo continuavam ali, pendentes, como uma pedra sobre seus ombros. Olhando pela janela, fazendo contas mentalmente, teve um súbito aperto no peito. Lembrou-se de seu pai, que àquela hora já estaria dormindo, e de toda a ajuda que ele havia enviado quando ela se mudou para a cidade para estudar; que lhe prometera que tudo daria certo e que seria ela quem enviaria dinheiro para eles. Não conseguiu cumprir. Ainda não podia. O que ele diria se a visse assim? “Termine seus estudos, seja a primeira da família a se formar na universidade. Não importa o que aconteça, volte para casa.” O pior do dia não era acordar cedo e assistir às aulas, nem a corrida que fazia a pé para chegar a tempo na cafeteria, nem mesmo aquelas poucas horas de descanso antes de sair novamente para a empresa. Não, o pior era voltar exausta à noite e encontrar uma pessoa que a fazia se sentir mais do que sozinha — e ela não podia dizer com certeza se eram namorados, amigos ou apenas companheiros de apartamento. Para Owen, a dor era uma companheira constante, uma desculpa para não olhar para frente. Para Anna, a dor era uma batalha diária, mas ela ainda se agarrava à esperança de que o esforço valeria a pena. Suas vidas tinham buracos e espaços vazios criados pelas pessoas que mais haviam amado. Owen os preenchia concentrando-se nos negócios, e Anna, tentando seguir em frente. De qualquer forma, ambos lutavam. O combustível que os movia não era o mesmo: para ele era encontrar esquecimento, para Anna era sobreviver. Mas ambos buscavam curar suas feridas. Walker se surpreendia com o entusiasmo dela apesar daquela expressão cansada, com aqueles sorrisos abertos e luminosos, apesar da situação difícil. Ao que tudo indicava, desta vez Lali não havia se enganado com a amiga. As poucas dúvidas que Owen ainda tinha sobre a moça foram dissipadas certa tarde, em uma reunião de família. E, pela primeira vez em muito tempo, sentiu o gosto ácido e acre da repulsa subindo da boca do estômago. — Você tem visto a Anna esses dias? — perguntou Lali, mordendo meio pedaço do bolo que sua mãe havia assado. — Sim, tenho visto. — E… como você a vê? — Como eu a vejo? O que você quer dizer? — Se você a vê bem, triste, sorridente... como? — Não sei… — Que tipo de pergunta é essa? — Anna está trabalhando na empresa? — a mãe de Lali ainda não sabia. — Sim! Meu primo é genial, deu um emprego pra Anna. Só trabalhando na cafeteria não dava pra ela. — Coitadinha! Está sempre lutando — respondeu a mulher com pena. — Sim, mas porque é teimosa. Já não sei como dizer pra ela se livrar daquele sujeito. “O que sujeito?”, perguntou-se Owen, mas permaneceu calado. — Deve sentir pena, Lali… — Claro que sente pena. Mas ele é um inútil, um bom-para-nada; por culpa dele a Anna tem que viver sempre no limite. — Você não pode fazer nada, Lali, além de apoiá-la e ajudar quando puder. Obrigada, Owen, por ter falado por ela — disse sua tia, e ele só assentiu. — Custou para eu convencer ele a dar uma chance pra ela. Você não é tããão mau assim, afinal — acrescentou Lali. — Claro que não sou — respondeu. — De qualquer forma, mãe — continuou indignada — a Anna é bonita, vai bem nos estudos… se não tivesse que carregar aquele parasita, não estaria passando por tudo isso. Não sei de onde tira forças pra continuar. Ele só toca no metrô e acha que vai chegar à Filarmônica de Viena! É um sem-vergonha! Então, além de ser companheiro dela, era um vagabundo. Owen sentiu aquele borbulhar começando nas entranhas. — Achei que, a essa altura, ele já estaria trabalhando de novo — comentou a mãe de Lali, surpresa. — Trabalhando? Ha! Aquele sujeito não sabe o que significa trabalhar… Ah! De verdade, me irrita que ela não se permita ficar bem, conhecer alguém melhor; alguém decente… Ouvir Lali falar daquele homem trouxe à tona as próprias feridas de Owen, as mentiras que acreditou e as promessas que nunca se cumpriram. — Sua amiga é uma tola — disparou Owen sem pensar. Lali o olhou de sobrancelhas franzidas. — Não me entenda m*l, nenhuma mulher deveria passar por algo assim. Isso que você descreve não é um homem, é um parasita — sentenciou. — Bom, Owen, isso é um pouco duro. Talvez ele só esteja buscando uma oportunidade… — interveio sua tia. — Não, mãe! O Owen tem razão. Se ele realmente gostasse dela, não permitiria que ela se sacrificasse só para que ele pudesse “encontrar seu eu místico” ou sei lá que bobagem. Se você me disser que ele está passando por uma fase em que não consegue emprego, eu entenderia. Mas ele nem sequer procura um! — Um parasita — reafirmou Owen. Lali fez um gesto com as mãos apontando para ele, querendo mostrar que se Owen pensava como ela, então ela não estava errada. Era estranho que ele interferisse nesse tipo de conversa; normalmente ouvia calado e não demonstrava interesse. No entanto, homens como o namorado de Anna lhe causavam repulsa, ele também não podia acreditar que existissem tipos assim e muito menos que houvesse mulheres dispostas a suportá-los. Tão diferente não tinha sido sua relação com a ex-esposa; Elena não só o explorava como também o traía. Depois de sua breve intervenção na conversa de Lali com a mãe, ele não disse mais nada. Pensava. Por um momento, lembrou-se das férias para as quais a levou, dos vestidos, das joias; tudo o que ela pedia e ele dava sem hesitar. Não conseguia imaginar a situação inversa. “Será que aquele sujeito também pediria para ela comprar coisas pra ele?”, perguntou-se. Que ridículo.
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