Quando a notícia da ação judicial se espalhou pela família de Owen, a primeira a explodir foi Lali.
Ela a detestava, a odiava com todo o coração; por culpa dela, seu primo havia sofrido tanto, por culpa dela ele tinha ficado sozinho com Eva. Estava lívida, furiosa, com o rosto vermelho e os olhos cheios de lágrimas. Doía-lhe profundamente ver a expressão distante e sofrida de Owen.
— Diz onde ela está, que eu vou ensinar boas maneiras! Cobra! — cuspiu com veneno na voz.
— Não se preocupe, Lali. Eu vou resolver, nada vai acontecer. Ela não poderá ver Eva — tentou acalmá-la Owen.
— Não é por isso! Claro que ela não vai ver a Eva! Eu quebro a cara dela antes!
— Lali, se acalme! — reclamou sua mãe.
Lali era uma jovenzinha alegre, sorridente, simpática e muito doce; mas quando o temperamento Walker emergia nela, a raiva tomava conta.
— Mas mãe, aquela mulher não tem vergonha, nem dignidade, nem coração, não tem nada!
— Isso nós já sabemos, filha, mas quebrar a cara dela não vai resolver nada.
— É exatamente o que ela quer, foi para isso que voltou… — disse Owen, um pouco distante.
Lali o observou e viu novamente aquela sombra cinzenta cair sobre seu primo. Seu semblante sombrio e a voz apagada fizeram com que ela diminuísse o tom.
— Desculpa, Owen — respondeu, um pouco envergonhada pelo seu acesso de fúria.
Mas ele apenas lhe deu um pequeno sorriso, como quem diz que entendia.
A conversa terminou quando Eva entrou na casa vinda do jardim, de mãos dadas com a avó. Tinham ido levar presentes para Lali pelo seu aniversário, mas nada seguraria a menina.
Owen a havia levado de manhã para escolher ela mesma o que queria dar para Lali. E Eva escolheu uma bolsa rosa, uma tiara da mesma cor e um lenço florido — também rosa.
A queridinha dos Walker entrou carregando as sacolas, radiante, e correu para entregar tudo de uma vez à prima. Cada presente aberto era uma festa de risos e entusiasmo para a pequena, como se fossem para ela. Lali experimentou tudo: a bolsa, a tiara e o lenço.
Mas, no meio de toda a algazarra, ela notou. Notou aquelas expressões que Owen fazia enquanto lembrava. Sentiu tanta pena dele. Ela o amava muito, até nos momentos em que o mau humor o dominava. Um pouco da tristeza que ele irradiava a envolveu.
Quando Owen e Eva foram embora, ela subiu para o quarto para guardar os presentes e ficou com o lenço na mão. Teve um acesso de raiva por Elena e precisava desabafar, então ligou para Anna.
— Isso é terrível, Lali! —o que a amiga lhe contava partiu um pouco o coração de Anna. — Sim, e tenho certeza de que agora ele vai passar o tempo todo trancado naquele escritório… Aquela bruxa maldita! Você não imagina o quanto eu a odeio, voltar assim e exigir ver a Eva quando nunca se importou! — gritava, carregada de desprezo.
— É por isso que ele parece sempre zangado? Por tudo que aquela mulher fez com ele. Coitado… deve ser horrível ter que enfrentar todas essas emoções de novo.— Sim, meu primo não era assim; ele mudou muito depois de tudo isso.
Anna também conhecia a decepção amorosa; talvez não como Owen, não naquela magnitude, mas ela também sentia o vazio todos os dias. Sabia o que era indiferença, sabia o que era falta de amor e frieza. O que a amiga lhe contara a tocou profundamente; parecia que Lali estava descrevendo o que ela mesma vivia: dor, abandono, desculpas vazias, interesses egoístas.
A solidão acompanhada — porque ela também vivia assim: com alguém do lado, mas sozinha. Essa é a pior solidão.
Sentiu uma compaixão profunda por Owen; apesar do tempo, ainda doía. Talvez por isso, naquela tarde, ao sair para trabalhar, ela parou diante de uma barraca de doces. Pensou que, se ela chegava às 20h e ele já estava lá — como dizia Lali — e não saía antes da meia-noite, provavelmente ficava trancado no escuro sem comer nada.
Escolheu com cuidado; doces sempre adoçam um pouco a alma. Sentiu vontade de fazer algo por ele, embora não soubesse bem por quê, mas queria fazer. Acabou escolhendo cookies com gotas de chocolate.
Chegou ao prédio e a primeira coisa que fez foi olhar para o escritório da Direção Geral.
As luzes estavam apagadas — talvez ele não estivesse ali. Por um lado, era bom, certo? Significava que estava em casa, com a filha. Anna tocou as galletas no bolso e começou suas tarefas.
Mas enquanto tirava alguns papéis de uma mesa, ouviu um barulho vindo de dentro, como se algo tivesse caído no chão.
Então ele estava lá.
Criou coragem, foi até a cafeteria, ligou a máquina e esperou a xícara encher.Café e cookies àquela hora da noite sempre eram uma boa ideia.
Depois, foi bater na porta.
— O QUÊ?! — ele gritou lá de dentro.
— Desculpa…
Ela abriu a porta e viu que ele estava sentado, de costas, com a cabeça jogada para trás, olhando para o teto.
— Owen, eu… — começou ela. Então ele se virou.
— Para você sou o senhor Walker! — rugiu, a voz ecoando pelo silêncio do escritório.
Anna o encarou diretamente, sem se mover, e algo na calma dela o desmontou. Ele fechou os punhos com força, consciente de que havia ultrapassado um limite. Os olhos dele brilhavam — não de lágrimas, mas de pura fúria… e arrependimento.
Então reparou na xícara em uma mão e nos cookies na outra, e toda a tensão o abandonou. O olhar da moça não mostrava medo, mas sim uma pontinha de tristeza. Ele baixou a cabeça e se desculpou.
— Me desculpe, Anna… — sua voz falhou um pouco — Desculpa, eu não devia ter gritado com você.
As palavras saíram com dificuldade.
Anna balançou a cabeça de leve, minimizando a situação.
— Senhor Walker, eu queria…
— Não, não me chame assim. Me desculpe, eu não quis gritar com você. Por favor, apenas me chame de Owen.
Anna suspirou e, para seus pulmões, passou todo aquele ar viciado de solidão e angústia que havia naquele escritório.
— Pensei que talvez você fosse gostar de um café, Owen… Já está um pouco tarde… Também tenho biscoitos — disse, mostrando o pacote.
— Obrigado… — murmurou, como se a palavra lhe custasse.
Anna se aproximou de sua mesa, apenas deixaria a xícara e o pacote e sairia.
— Não, aqui não. Tome um café comigo também… Vamos lá fora.
Nem ele entendia o que estava fazendo, m*l a conhecia. Talvez não quisesse ficar sozinho com seus demônios. Ela também não podia saber ao certo o que a havia levado a preparar um café e comprar biscoitos para ele. Talvez sentisse pena, tanto dele como de si mesma.
Dois corações machucados poderiam se compreender melhor e, quem sabe, afastar um pouco o fantasma da solidão e da tristeza. Duas pessoas guerreiras, cada uma à sua maneira, podiam entender melhor de luta e perseverança; de sonhos quebrados e de esperanças fugitivas.
Assim como o destino marca, toma e tira; também pode dar e oferecer, basta observar e permitir-se sentir.