E claro, Bob também recebeu o convite. Só podia ser uma maldita piada; ele olhava para o papel e se contorcia. Aquela mulher estava completamente fora de si! Mas isso não seria o pior, não, claro que não. O pior era saber que Owen iria. Iria! Não precisava de muito para adivinhar; o querido Walker ainda se debatia entre seu ódio e seus velhos sentimentos.
Por isso, quando entrou no escritório dele, fez isso sem bater; por isso, quando se sentou à sua frente, colocou ambas as mãos sobre a escrivaninha; e por isso o olhou como se Owen tivesse matado alguém.
—Diz que não. —implorou, cravando o olhar nele —Diz que não vai fazer isso.
Owen não respondia, tinha os olhos completamente apagados.
—Oh, pelo amor de Deus e de todos os Santos, Owen! —exclamou irritado, jogando os braços para o alto.
—Não começa, Bob. —sua voz soava cansada.
—Juro que vou quebrar a sua cara se você for, Owen. Você não pode deixar que ela te arraste de novo para o mesmo buraco.
—Eu não posso evitar —murmurou Owen, com os olhos fixos no convite.
—O que você não pode evitar? Você tem noção de que está doente? Pelo amor de Deus!
Bob o conhecia bem. Aquele olhar vazio lhe dizia tudo: Owen estava travando uma batalha interna que não tinha como ganhar.
—Eu sei muito bem o que ela quer conseguir, sei muito bem o que ela pretende —disse Owen, tocando o envelope várias vezes com a ponta do dedo.
—E se você sabe, pra que vai? Pra dar a satisfação a ela?
—Não. Vou para mostrar que ela perdeu tudo. Ela quer me ver chegar e me arrastar. Mas não basta; ela quer que eu faça isso diante de todos. É isso que ela quer.
—E você vai resistir? —perguntou com a certeza absoluta de que não iria, de que ele não resistiria a ela.
—Claro que vou.
“Claro que não vai”, pensou Bob. Mas aquela era uma conversa vazia; não o convenceria, não o faria mudar de ideia. A mulher estava decidida a arruiná-lo e humilhá-lo; Owen podia dizer o que quisesse, mas assim que colocasse os olhos nela de novo, acabaria perdendo.
—Pelo menos eu estarei lá… —Bob estava pensando em voz alta.
Owen continuou perdido em seus pensamentos, e seu amigo podia ver — e até ouvir — como os engrenagens do cérebro dele estavam se movendo. O que podia fazer? Detê-lo? Segurá-lo pelas lapelas do paletó quando caminhasse embasbacado na direção dela outra vez? Quebrar uma garrafa na cabeça dele e apagá-lo?
—Bem, faça o que quiser —acabou dizendo —Mas me faz um favor: vá acompanhado, tá bem?
—Acompanhado?
—Sim! Vá com alguém, nem pense em aparecer sozinho.
Até ele percebeu que o que dizia era uma besteira. Com quem Owen poderia ir? A única “companhia” que ele conhecia era a de suas secretárias, e justamente Greta, agora, não seria nada ideal.
—Posso te apresentar uma amiga —ofereceu Bob.
—Conheço as suas amigas, deixa pra lá —respondeu Owen, saturado.
—Como se as suas fossem melhores.
Owen levantou uma sobrancelha, mas ficou calado. Ele tinha razão.
—Contrate alguém! Sei lá! Só não vá ter a brilhante ideia de aparecer sem ninguém ao seu lado. É isso que ela está esperando: não apenas que você se arraste, mas que todos vejam que você é um miserável solitário porque ela te deixou devastado.
Ele já conseguia visualizar: entrando naquele hotel com o coração nas mãos, entregando-se novamente à voracidade de Elena e caindo em sua magia n***a. Bob balançou a cabeça e também se afundou em seus próprios pensamentos. Não havia muito que pudesse fazer para ajudá-lo; talvez aquela fosse uma prova que Owen precisava enfrentar. Não adiantaria lutar contra a correnteza.
Bob recostou-se na cadeira, frustrado com a inevitabilidade de tudo. Era evidente que Owen estava prestes a cometer um suicídio emocional, mas, no fim das contas, cada homem tinha que enfrentar seus próprios demônios.
Finalmente, olhou para ele com o rosto sério.
—Escuta, Owen —disse, e seu amigo virou-se para encará-lo—. Sei que você precisa fazer isso, está louco, mas tem que fazer; só me promete uma coisa.
—O quê?
—Promete que não vai deixar que ela te faça esquecer o quanto você chegou longe, tudo o que conquistou. Não deixe que te arraste de volta para um lugar do qual você já saiu.
Owen sustentou o olhar de Bob por um momento antes de assentir lentamente.
—E, pelo amor de Deus, arrume alguém para ir com você!
A ideia de ir acompanhado nem tinha passado pela cabeça dele. Mas talvez Bob tivesse razão. Não se tratava apenas de Elena; pelo menos nas aparências, precisava fingir que tudo estava em ordem, mesmo sabendo que nada estava.
Embora sua mente calculasse, pensasse e raciocinasse, o coração de Owen não entendia nada disso; apenas sentia e batia com força. Se fugisse, seria pior: acrescentaria mais uma ferida às que sua ex-esposa já lhe tinha deixado.
Amaldiçoou o dia em que a conheceu, o dia em que permitiu que sua cegueira o arrastasse para aquele desastre. Mas mais do que a Elena, amaldiçoou a si mesmo por não ter visto o que agora era tão óbvio. Por não ter protegido Eva de uma mãe ausente; nem mesmo por ela Elena sentira algo, mesmo tendo carregado a criança por todos aqueles meses no ventre. Em algum momento da vida, quando sua filha lhe perguntasse pela ausência dessa figura materna, ele teria que se desculpar e implorar perdão por não ter enxergado claramente a pessoa que tinha diante de si.
Quando o sol começou a se pôr, Owen ainda estava na mesma posição, perdido em seus pensamentos. Nem sequer percebeu a passagem do tempo. Ninguém insistiu para que voltasse para casa; ele apenas ligou para a mãe e pediu que fosse buscar Eva, que mais tarde ele passaria para pegá-la.
Essa era a “magia n***a” de Elena: mergulhá-lo na tristeza. Havia tanto tempo que não a sentia que, ao voltar a respirar aquele cheiro de umidade densa, seus pulmões se fecharam. Sentiu-se um i****a, esfregou o rosto e se levantou.
Tinha se deixado prender de novo; num impulso, e como se as nuvens se abrissem diante dele, descartou o convite. Estava mesmo considerando a ideia de ir? Riu um pouco de si mesmo; quase se deixara levar pelas intenções dela. Que lhe importava o que ela pensava ou o que os outros pensavam! Passara todos aqueles anos alheio ao que diziam, por que iria se importar agora?
Só precisava se concentrar em Eva e em seu trabalho, como vinha fazendo há anos. Pegou o envelope e o jogou no cesto de lixo. Que fosse para o inferno!, pensou. Ele tinha tudo nas mãos para ir contra ela se se atrevesse outra vez a tentar usar sua filha como uma peça de xadrez.
Era isso que faria: nada. Estava colocando o paletó quando as luzes do escritório ao lado se acenderam. Olhou para o relógio no pulso: 20h13. Instintivamente, aproximou-se do vidro; escondido na escuridão, e a viu.
Anna estava se abaixando para esvaziar a lixeira, e alguns cachos escaparam do coque, caindo sobre o rosto; ela soprou para afastá-los da visão. O jeito como fez a boca ao soltar o ar, vê-la tão simples e sem pretensões, trouxe a Owen Walker um arrepio no estômago, um eco de algo que ele não podia ignorar, por mais que quisesse.