Quanto mais a observava, mais difícil se tornava desviar o olhar. Queria ir embora, de verdade queria, mas estava preso naquele momento. Seus pés, como ancorados ao chão, recusavam-se a se mover. Por causa daquele beijo?
Anna estava com os fones de ouvido, concentrada no trabalho; movia-se atrás da escrivaninha e até parecia cantarolar. Ele não conseguia tirar os olhos de seus lábios, movendo-se suavemente no ritmo de uma música inaudível. Balançou a cabeça várias vezes; não adiantava, o olhar sempre voltava para ela.
E então sua mente e seu coração acabaram entrando em curto-circuito. Olhou para o convite jogado no lixo, depois para Anna. De repente, tudo voltou: o fracasso, a frustração, a indiferença de Elena quando recebia carinho e o êxtase quando recebia presentes; o rosto ansioso e quase erótico daquela outra, alheia a tudo ao redor, trabalhando, e o som suave com que lhe havia respondido.
Lembrava-se do calor da mão dela em seu pescoço, das pernas de sua última secretária se fechando ao redor de sua cintura; de sua assinatura no cheque vultoso que ela havia levado, do choro amargo de Anna e de seus olhos vidrados. A sequência de imagens, sensações, sons e o rugido de seu monstro estavam prestes a enlouquecê-lo por completo.
Não! Estava prestes a deixar uma para trás e agora a outra reaparecia, despertando tudo o que ele queria esquecer. O que ela tinha? Nada! Era igual a todas as outras. Sua simplicidade e calor não passavam de uma fachada, uma máscara atrás da qual não havia diferença alguma. Como se todas tivessem sido criadas em série.
O estalo fez com que abrisse bem os olhos. Voltou até o cesto e pegou o convite, enfiando-o no bolso. Precisava pôr fim àquela bobagem infantil de ficar debatendo sentimentos; desde quando se colocava de joelhos?
Owen achava que tinha encontrado a solução, uma forma de deixar para trás os fantasmas de Elena. Se convencesse Anna a acompanhá-lo, mataria dois coelhos com uma cajadada só: provaria a Elena que havia seguido em frente e, talvez, tiraria Anna de sua mente de uma vez por todas.
Ficou em silêncio, deixando a ideia se formar lentamente em sua cabeça. “Vá com alguém.” Observou Anna, os olhos percorrendo sua figura. “Ela não é feia”, repetiu para si mesmo, embora algo dentro dele quisesse negar. Era jovem e bonita, o dinheiro era escasso e todas elas, por mais que negassem, respiravam para isso: para gastá-lo.
Queria dar a isso uma intenção: a de um movimento comercial. Analisava as informações, os prós e contras e, se os números fechavam, investia. E o investimento que teria de fazer em Anna não seria grande, mas os ganhos lhe trariam, no fim, a tranquilidade.
Havia semanas que a evitava, enterrando as razões no fundo da mente, até que decidiu abrir a porta. Anna estava de costas, organizando as prateleiras. Owen ficou parado no batente, observando-a em silêncio.
Por isso o susto dela ao vê-lo de repente, fazendo-a dar um pequeno pulo. De novo aqueles olhos cinzentos a observavam como se arrancassem camadas de seu corpo.
—Desculpa, não quis te assustar —disse ele, enquanto ela tirava os fones de ouvido.
—Oi —ele a cumprimentou.
Ela já tinha perdido a esperança de voltar a encontrá-lo ali à noite; a surpresa foi grande e se refletia em seu rosto, sobretudo porque não fazia ideia do que dizer. Estava nervosa.
Owen percebeu: o desconforto dela e, por um instante, o próprio apareceu; mas respirou fundo e voltou a se recompor.
—Você tem um momento? Eu gostaria de falar com você —perguntou, com as mãos nos bolsos. Sua voz soava um pouco fria.
—Claro —ela respondeu, não muito convencida.
—Venha até o meu escritório.
O corpo de Anna ficou um pouco tenso; quando ele a olhava daquele jeito, ela se sentia intimidada, sua presença o fazia parecer mais alto e a expressão em seu rosto podia ser quase inexistente.
Owen foi até a porta e a abriu, convidando-a com um gesto da mão. Acendeu as luzes e a observou por um instante por trás.
—Sente-se, por favor —pediu, indicando uma das poltronas em frente à sua, junto à mesa.
Anna hesitou por um segundo e se sentou. Observou-o contornar a mesa e sentar-se do outro lado, cruzar as pernas e apoiar uma mão sobre a madeira polida. Não fazia ideia do que ele estava prestes a lhe propor. Respirou fundo, e o perfume no ar a envolveu, levando-a de volta àquela noite no carro.
Ela o olhou, à espera.
—Bem —Owen se inclinou para a frente, os olhos fixos nela—. Quero te fazer uma proposta. Um… acordo de negócios.
O rosto de Anna deve ter refletido muita confusão, porque um leve sorriso de canto se formou nos lábios dele.
—Daqui a uma semana tenho uma festa, uma gala em um hotel muito importante da cidade. Hoje recebi o convite e quero que você me acompanhe —disse de uma vez, quase sem respirar.
Ele estava a convidando para um encontro? Para acompanhá-lo?
—Claro, não será de graça. Vou te pagar uma quantia considerável, cinco dígitos. Quando a noite terminar, o dinheiro estará na sua conta —continuou, como se pudesse adivinhar o que ela estava pensando.
O silêncio se instalou entre eles. Anna o observava, perplexa, como se ele estivesse falando em outro idioma. Fazia dias que não o via, sem nenhum sinal de sua presença, e agora ele surgia do nada com uma “proposta de negócios”. Para quê? Por companhia? E o beijo?
—Então? —a falta de reação começava a impacientar Owen.
—Você quer que eu te acompanhe a uma festa? Eu? —Anna respondeu enfim, confusa, muito confusa.
—Sim.
—Não entendo.
—O que é que você não entende? Tenho uma festa, preciso que alguém me acompanhe e quero que seja você —. Por que ela simplesmente não aceitava? — Também vou te dar o dinheiro que precisar para se preparar… à altura.
—À altura de quê?
—Do lugar, da situação; é uma festa elegante, pessoas importantes vão estar lá.
—Ah…
O sussurro suave daquela palavra deixou claro para Owen que sua proposta não tinha sido bem recebida. A confusão de Anna crescia a cada frase. Ela ficou em silêncio, processando o que Owen acabara de lhe propor. Como deveria reagir? Uma parte dela queria fugir, enquanto outra sentia uma atração estranha por ele.
Quando finalmente dimensionou o tipo de “negócio” que ele lhe oferecia, sentiu-se ainda mais desconfortável; será que ele…
—Então você quer que eu te acompanhe como… uma espécie de acompanhante profissional? —perguntou Anna, levantando o olhar — O que exatamente significa “acompanhar”?
Owen não conseguiu evitar franzir levemente a testa.
—Você pode ver dessa forma, se quiser —respondeu, tentando soar neutro—. Mas não é isso que eu preciso de você, não há nada… estranho. É apenas um acordo vantajoso para ambos, tudo o que eu quero é alguém que vá comigo ao evento.
Não era algo que ela tivesse esperado, não vindo dele, não daquela maneira. Owen tinha se mostrado diferente, tinha ouvido, tentado confortá-la, e embora houvesse algo nele que a atraísse, aquela proposta a fazia questionar tudo.
—Não sei se é uma boa ideia —começou a dizer, tentando escolher as palavras com cuidado—. Por que eu?
—Por que não você? —ele respondeu com outra pergunta, os olhos fixos nela, o tom mais insistente—. É uma oferta de trabalho, acho que você tem capacidade para isso; sei que o dinheiro não vai te fazer m*l. Não vejo motivo para hesitar.
Anna baixou o olhar, sentiu um nó na garganta. Era assim que ele a via, afinal? Como uma simples transação? Tudo dentro dela gritava para sair correndo, recusar a proposta, não se envolver. Mas uma parte sua, talvez a mais vulnerável, aquela que ainda guardava o gosto da boca dele, sentiu-se tentada.
—Pense com calma —disse Owen, suavizando o tom ao ver que ela continuava indecisa—. Não estou pedindo uma resposta agora. Só quero que você considere. Pense a respeito.
Se a pressionasse demais, se insistisse; ela diria não. Pelo menos assim, haveria uma margem para que aceitasse.
—Vou pensar —disse ela, levantando-se. Aquela conversa já tinha terminado para Anna.
Owen também se levantou.
—Obrigado.
Anna apenas assentiu e saiu. Não era apenas confuso, era quase uma ofensa. Ao que parecia, aquele beijo não tinha significado nada; ela já temia isso, mas deveria aceitar a proposta? Deveria ignorar o instinto que lhe gritava para correr para longe de um homem tão inacessível?