Anna sentou-se naquela noite na cozinha de seu pequeno apartamento, nervosa e com o coração acelerado. Tinha dificuldade em processar a oferta de Owen. Ele estava tão diferente, tão distante, como se aquela última vez nunca tivesse acontecido.
A distância foi, talvez, o que mais lhe doeu nele. E a mesma dúvida continuava rondando sua cabeça: por que ela?
Um homem como ele certamente tinha mulheres ao seu redor mais do que dispostas a acompanhá-lo, mais do que dispostas a aceitar apenas uma noite de gala. E o que era aquilo de “adequá-la”? Era assim que ele estava acostumado a viver? Anna olhou para a xícara que segurava nas mãos e depois para o relógio verde pendurado na parede; seria melhor ir dormir, já estava tarde.
Mas na manhã seguinte aquela sensação estranha não tinha ido embora. Caminhou até a universidade um pouco distraída, absorta em pensamentos. Quando chegou à entrada da biblioteca, viu Lali conversando com alguns colegas. Com certeza ela saberia de onde vinha aquela história de acompanhá-lo a uma festa.
Sentaram-se em um dos bancos, debaixo de uma árvore enorme, e Anna contou em detalhes o que Owen lhe dissera na noite anterior. À medida que mais palavras saíam de sua boca, os olhos de Lali se arregalavam de surpresa.
—Não acredito que ele tenha te proposto algo assim, Anna —quase sussurrou, olhando-a de frente—. Que você o acompanhasse a uma festa. Uma gala em um hotel importante e… te ofereceu dinheiro para isso.
—Dinheiro? —perguntou Lali, incrédula—. Mas, Anna, por que ele faria algo assim? —estava cada vez mais confusa.
Anna deu de ombros; nem ela mesma entendia.
—Não sei. Foi tudo muito estranho. Ele simplesmente apareceu de repente e me fez essa proposta como se fosse um acordo de negócios.
Lali se ajeitou um pouco no banco. Que festa?, pensou.
—Eu não sabia que ele tinha sido convidado para uma gala —murmurou, franzindo a testa enquanto tentava lembrar se alguém tinha comentado algo.
Anna a olhou, suspirou e ficou em silêncio. Ao que parecia, Lali não poderia lhe dar nenhum conselho. Mas, de repente, a amiga ficou rígida, remexeu a bolsa e tirou o celular.
—Ele te disse onde era? Em qual hotel? —perguntou, enquanto procurava algo na tela.
—Não.
Alguns minutos depois, o rosto de Lali ficou vermelho e ela praguejou em voz alta, furiosa.
—O que aconteceu? —Anna a olhou, preocupada.
—Não posso acreditar! Não posso acreditar! —quase gritou Lali, mostrando-lhe o celular por um segundo antes de se levantar — Vou matar esse homem!
—Lali, me diz o que está acontecendo!
Mas as palavras ficaram presas na garganta dela de tanta raiva; chegou a sentir vontade de chorar. Enfiou o celular de volta na bolsa, como se o arremessasse, e se deixou cair ao lado de Anna.
—Você sabe para onde ele te convidou? —perguntou, olhando-a nos olhos, a voz triste — Aquela festa… é a de Elena, da ex-esposa dele.
—O quê?
Lali ficou em silêncio, pensativa; de um lado, tinha aquela vontade louca de correr até a porta dele e bater, e do outro, sabia muito bem que o primo estaria enfrentando um furacão de sentimentos. Ele parecia régio e distante, mas não era.
Se Anna já estava confusa com a situação que Owen lhe havia proposto, agora, com o que a amiga lhe dissera, estava ainda mais.
—Owen está passando por um momento muito difícil, Anna —disse de repente, fazendo uma pausa—. Ele ficou destruído. Elena o traiu, na cara dele, o humilhou. Foi um desastre.
—Você me contou algo disso —lembrou Anna.
Sentiu uma pontada de empatia no peito ao ouvir toda a história, todos os detalhes sórdidos e o processo de isolamento de Owen, e uma tristeza profunda.
—Que triste —murmurou Anna—. Agora entendo aquela mudança brusca.
—Que mudança? —perguntou Lali, curiosa.
Ela não sabia; Anna não tinha contado, e ao que parecia ele também não. Ainda sentia que tinha decepcionado ou traído a confiança da amiga.
—Às vezes ele parece acessível e outras, como ontem à noite, não —tentou se justificar.
—Sim, é difícil para ele… Anna, por favor… te peço como um favor pessoal. Não deixe que ele vá sozinho. Imagino a forma como ele falou com você ontem, mas… ele está ferido, ainda carrega essa dor —suspirou, derrotada—. Se ele vai, é porque ainda não a esqueceu. Pode dar mil desculpas e mentir, mas eu sei que é assim. Ela tinha ficado no passado, estava longe… para quê teve que voltar?
A dor na voz de Lali atingiu Anna em cheio. Não era comum vê-la daquele jeito; Lali sempre fora a forte, a alegre. Mesmo nos momentos difíceis, mantinha a energia elevada. Pelo visto, a dor do primo era profunda demais, a ponto de Lali também senti-la.
Anna soltou o ar pelo nariz.
—Tudo bem, Lali… eu vou —sussurrou Anna, embora algo se contorcesse dentro dela—. Não vou deixá-lo ir sozinho.
Lali sorriu, aliviada. A expressão em seu rosto mudou um pouco.
—Obrigada, Anna! —disse, abraçando-a com força.
Owen é complicado, mas não é uma má pessoa.
—Eu sei, Lali, não se preocupe.
—Anna, você não imagina o quanto eu agradeço —disse Lali, com a voz suave e aliviada—. Sei que é uma situação estranha, mas… isso significa muito para mim. Quero vê-lo bem, nem que seja um pouco. Mas aquela mulher não desiste.
Anna já tinha visto esse lado nele, essa consideração sob a frieza. Agora tudo fazia sentido: a proposta precipitada, a ausência de calor nos olhos cinzentos, a voz vazia que parecia esconder algo mais profundo.
Acabou se decidindo por aquela convergência estranha de pena e ansiedade; pelo olhar baixo da amiga e o lamento em sua voz. Por aquele homem com quem tinha compartilhado um momento que, para ela, fora revelador e, ao mesmo tempo, despertara algo indizível dentro dela.
—Irei com ele, mas farei isso por você —disse Anna, tentando se convencer de que sua decisão não tinha nada a ver com Owen.
Foi assim que outra peça caiu e empurrou a seguinte. A peça de Anna tinha sido movida em direção a algo imprevisível, que poderia terminar de muitas formas. O jogo estava em andamento; cada participante lançava os dados e avançava pelas casas, o acaso ou o destino trabalhando incansavelmente.
Que dois caminhos se cruzem em meio a tantas bifurcações, esquinas, recantos e desvios pode parecer fortuito. O verdadeiro desafio era percorrê-los em meio à confusão e aos sentimentos que começavam a aflorar; as emoções que ela conseguira conter até então, o impulso de compreender Owen, de ajudá-lo e de descobrir se havia algo mais por trás daqueles olhos cinzentos que a fitavam com tanta intensidade.