Capítulo 25

1094 Palavras
Owen a esperou todas as noites, sem dizer nada. Ficava em seu escritório, aguardando em silêncio. Os dias passavam sem resposta. Quanto ela precisava pensar nisso? Ele começava a se irritar um pouco; ainda assim, mantinha o cumprimento cordial e a voz calma. Anna havia garantido à amiga que aceitaria, mas só de vê-lo já se acovardava. Queria cumprir a palavra e ajudá-lo, mas cada vez que sentia o olhar de Owen sobre ela, sua determinação vacilava. Nem ela mesma entendia por que demorava tanto para lhe dar uma resposta. Talvez apenas esperasse ouvir novamente sua voz quente e compassiva. Finalmente, naquela noite, reuniu toda a coragem. Faltavam apenas dois dias para a festa. Parou diante da porta, respirou fundo, levantou a mão e bateu. —Entre —disse Owen. —Obrigada. Anna se sentou sem convite desta vez. —Então? —perguntou ele, ansioso, com expectativa na voz. —Aceitarei te acompanhar à festa —disse ela, mantendo a calma. —Bem, bem. Satisfeito; foi assim que se sentiu. Estava convencido de que, como todas, o dinheiro acabaria inclinando a balança a seu favor. Já tinha visto isso antes: um sorriso cortês, seguido de um “sim” quando o pagamento aparecia. —Agradeço, Anna. Aqui está um cartão —disse, deslizando-o sobre a mesa—. Escolha apenas algo discreto, nada chamativo —ela apenas assentiu—. A festa é no sábado à noite; passarei para te buscar por volta das 10. Ele lhe dava instruções como se fosse apenas mais uma funcionária; e, na verdade, ela era, mas esperava algo diferente. Sentiu-se um pouco decepcionada com a atitude dele. Entendia que tudo aquilo devia estar sendo difícil de processar e que daquela forma ele se protegia, mas isso não tirou o gosto amargo que lhe ficou na boca. —Na minha casa? —perguntou, insegura—. Não posso sair daqui ou de outro lugar? A pergunta soou para Owen como uma desculpa. —Na sua casa, não? Por quê? —Por causa dos meus vizinhos… não quero virar o assunto do momento —respondeu, baixando o olhar. Na verdade, era uma pequena mentira; os vizinhos estavam envolvidos, sim, mas não por serem fofoqueiros. Tinham lhe avisado que Alex fora visto rondando o prédio, perguntando por ela e parado na esquina, observando. E se justamente naquela noite ele resolvesse aparecer? —Bom… —disse Owen, não muito convencido. Ficou pensando por alguns minutos em como resolver aquilo. Sair da empresa só despertaria olhares curiosos e comentários. Outro lugar? Com a porta aberta, pôde ver a mesa de Greta e se levantou. —Muito bem, vamos sair de outro lugar —disse, caminhando até a porta. Anna o observou abrir uma das gavetas da secretária e remexer algumas coisas. Ele voltou com algo na mão e entregou a ela: um molho de chaves. Isso deixou Anna ainda mais desconcertada. —Tenho um apartamento no centro da cidade. Estas são as chaves; podemos sair de lá —explicou—. Tudo bem para você? —Tudo bem —respondeu ela; embora a voz soasse firme, a cada minuto se enchia mais de dúvidas. Anna guardou as chaves no bolso e esperou que ele continuasse com os “requisitos”. Já sentado novamente na poltrona, Owen prosseguiu: —Vou anotar o endereço. Passo para te buscar lá no sábado. Seja pontual —pediu, voltando a olhá-la com intensidade. Sabia que ela estava em conflito, que hesitava, que podia se arrepender. A moça parecia sobrecarregada, estranha. Mas aquela aura ao redor dela não se dissipava, apesar da frieza com que estavam ajustando os detalhes. Aquilo não combinava com a teoria dele de que o dinheiro comprava tudo. Qualquer outra mulher teria sorrido de imediato diante do cartão, já imaginando como gastá-lo. Mas Anna apenas o olhava, sem emoção. —Mais alguma coisa? —perguntou ela, olhando para o plástico. —Acho que não, mas se surgir algo eu te aviso. Ainda faltam alguns dias para o evento. —Bom… então vou voltar ao trabalho —disse, pegando o cartão e se levantando, pronta para sair. Mas Owen não conseguiu se conter. —Anna, eu realmente agradeço por você ter aceitado. Sei que pode parecer algo estranho e fora de lugar, mas é importante para mim. Ela o olhou por alguns instantes, lembrando de tudo o que Lali lhe contara, e balançou a cabeça em negação. —Não é nada —respondeu, e saiu. Quando fechou a porta atrás de si, enfim seus músculos puderam relaxar. Owen despertava nela sentimentos que ela resistia e não queria reconhecer. Mas o acordo estava fechado, e não havia como voltar atrás. O quão difícil poderia ser acompanhá-lo por uma noite? Por sua vez, Owen se recostou e cruzou as pernas. Acreditava ter a situação sob controle, mas aquela sensação parecida com cócegas que surgia sempre que falava com ela não desaparecia. Isso o irritava. Mas agora que Anna tinha aceitado, era só uma questão de tempo: quando aceitasse o dinheiro por seus “serviços”, desceria ao mesmo nível de Elena. Voltando de ônibus, Anna voltou a duvidar mil vezes do que tinha aceitado. Mas, no fim das contas, fazia aquilo por ele e também por Lali; não conseguiu dizer não. Afinal, a amiga sempre esteve ao seu lado, ouvindo-a e aconselhando-a. Com sorte, tudo correria bem, a noite passaria rápido e ela cumpriria com a palavra. Ao chegar ao apartamento, Anna deixou cair as chaves de Owen sobre a mesa, observando-as por um momento. Com um suspiro pesado, deixou-se cair no sofá, sentindo que o peso da decisão a esmagava. “É só uma noite”, repetia para si mesma, tomada pela ansiedade. Amanhã seria um novo dia e, talvez, depois de tudo, esse capítulo se encerrasse para sempre. Tocou o bolso da calça e sentiu a forma retangular do cartão; tirou-o e o observou com curiosidade. Então percebeu que agora tinha pela frente uma tarefa que, para ela, era igualmente difícil: encontrar a roupa adequada dentro dos requisitos que Owen lhe havia dado. O que deveria comprar? Jogou a cabeça para trás. Em toda a sua vida nunca tinha ido a uma gala, muito menos em um hotel como aquele; sem falar em se relacionar com esse tipo de pessoas. Anna ainda carregava resquícios daquele roedor que corroía sua autoestima, e enfrentar uma situação em que seria julgada por cada detalhe a deixou nervosa. Mas ela, sempre movida por um impulso que surgia de algum lugar desconhecido, estava acostumada a seguir em frente.
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