Entre o trabalho e a universidade, Anna m*l tinha tempo para respirar, muito menos para ir às compras. Aproveitou um pequeno intervalo entre o turno na cafeteria e o noturno na empresa para percorrer a zona comercial. Fazia tanto tempo que não passava por ali que quase tinha esquecido o burburinho da cidade. Costumava comprar roupas baratas em outra região, mas desta vez era diferente.
Caminhava com o cartão que Owen lhe tinha dado no bolso. Cada vez que parava diante de uma vitrine, sua respiração ficava mais pesada, enquanto o nó no estômago se apertava um pouco mais. O que estava fazendo? Deveria ter pedido a Lali que a acompanhasse; sentia-se completamente perdida sobre que tipo de vestido escolher.
Mais uma vez se perguntou por que sempre se metia nesse tipo de situação, incapaz de dizer não. E então sua mente voltou para Owen. A situação com ele era tão estranha, tão surreal, que às vezes ela parava na calçada, perguntando-se como um homem como ele não tinha mais ninguém a quem recorrer, uma mulher que o acompanhasse. Será que não conhecia ninguém?
“Algo discreto”, ele tinha dito. O que isso significava para Owen? Balançou a cabeça, tentando se livrar dos pensamentos que a sufocavam. Deveria ligar para Lali? Por fim, cansada de andar em círculos sem sentido, entrou em uma loja decidida a levar o primeiro vestido que encontrasse; se continuasse hesitando, acabaria saindo de mãos vazias.
Explicou à vendedora o que procurava e, por sorte, a moça se mostrou simpática e paciente. Trouxe vários vestidos, mas todos ficavam grandes.
—Você não é esse tamanho, usa um menor —disse a vendedora, erguendo uma sobrancelha.
—Sempre usei o mesmo.
—Você deve ter emagrecido. Vou buscar um do tamanho certo.
Era verdade. Sem perceber, Anna tinha perdido cinco quilos. Estivera tão absorta na rotina, usando roupas largas e cintos para segurar os jeans gastos, que não notara a mudança. A vendedora voltou com um vestido que, segundo ela, era perfeito: simples, longo, ajustado nos lugares certos e de um tom claro que beirava o etéreo. As mangas, leves e curtas, deixavam os braços à mostra, e o decote era discreto o suficiente para não chamar atenção demais.
—Está bem, vou levar este então.
—Ficou como uma luva, realça suas curvas. Boa escolha.
Ao pagar, a vendedora lançou um olhar para o nome no cartão, mas não disse nada; apenas passou o pagamento e entregou o recibo. Anna saiu da loja sentindo-se um pouco aliviada. Só precisava de um par de sapatos, e encontrá-los foi mais fácil.
De volta ao apartamento, ela estendeu o vestido sobre a cama, colocou os sapatos ao lado e tirou uma foto para enviar a Lali.
—É lindo, Anna. Quando você se vestir, por favor, me manda outra foto para eu te ver.
Anna sorriu pela primeira vez em todo o dia. Se Lali, que entendia muito mais de moda do que ela, dizia que estava bom, então tinha acertado.
No sábado à noite, Anna saiu de seu apartamento às 20h, com o vestido e os sapatos guardados em uma bolsa. O gasto com aquele visual tinha sido exorbitante, e isso pesava, mas quando chegou ao apartamento de Owen, sentiu que havia cruzado para um mundo diferente.
O lugar era impressionante: um andar inteiro, luxuoso, com janelas enormes que exibiam a cidade iluminada como um mar de estrelas aos seus pés. Anna se sentiu intimidada de imediato. Encontrou o quarto principal e, claro, o banheiro em suíte. Nunca tinha estado em um lugar tão surpreendente. Observou-se no espelho enorme, deixando escapar um suspiro profundo. O momento tinha chegado.
Quinze minutos antes das dez, ouviu a porta se abrir. Era Owen.
—Você está pronta? —perguntou ao entrar.
Anna estava pronta, em pé ao lado da mesa da sala, sem sequer ter ousado se sentar. Mas quando ele ergueu o olhar, depois de deixar as chaves no aparador, sua expressão mudou drasticamente. O vestido, o cabelo levemente preso, a maquiagem sutil… A figura que estivera escondida sob o uniforme largo e aqueles jeans velhos se revelava com uma elegância que o desarmou. Algo em seu rosto o traiu, e Anna percebeu, franzindo a testa.
—Está tudo bem? —perguntou, insegura.
—Sim…
—O vestido é adequado?
Owen demorou um segundo para responder, ainda preso à surpresa.
—Sim… —murmurou, sem tirar os olhos dela—. Está perfeito.
—Que bom —disse ela, soltando um suspiro de alívio—. Eu não sabia que tipo de roupa usar.
Owen não conseguia parar de ajustar as mangas do paletó. Estava desconfortável.
Aproximou-se dela, os olhos fixos nos de Anna, mas ela não demonstrou nenhuma reação; embora por dentro estivesse sendo consumida pelo nervosismo. Ele percebeu que faltava algo e, sem dizer nada, passou por ela e seguiu em direção ao quarto. Voltou com um estojo de veludo na mão.
—Toma, coloque —disse ele, estendendo o estojo.
—O que é isso?
—Joias. Você não pode ir sem nada.
Anna abriu o estojo, e seu coração parou por alguns segundos.
—São diamantes? —perguntou, com os olhos arregalados.
Owen apenas sorriu.
—Claro que são diamantes.
—Não, eu não posso usar isso —disse Anna, tentando devolver a caixa.
—É bobagem, apenas coloque —insistiu Owen.
Dentro havia um colar delicado com um diamante incrustado e um par de brincos pequenos, mas imponentes.
—Não, eu não me sinto confortável. Não quero.
—Coloque —ordenou Owen, com o tom mais severo—. Não vou aparecer com uma mulher sem joias; isso falaria m*l de mim.
Ela estava recusando diamantes? Sério?
—E se eu perder? —perguntou ela.
—Não importa —respondeu ele, com um gesto indiferente.
—E se roubarem?
—Não importa! O que você quer, que eu faça papel de galã de filme e coloque em você?
—Não, claro que não.
A calma e a franqueza de Anna o desconcertavam. O temperamento dele já estava alterado pela própria gala, por saber que veria Elena de novo; porque tentava manter Anna fora dos pensamentos e agora ela estava ali, daquele jeito. Com o rosto sereno, o vestido elegante, os cachos levemente espalhados sobre os ombros. E a boca com um tom rosado suave…
Por fim, Anna se resignou. As mãos tremiam quando levou o colar ao pescoço.
—Bem —disse Owen, satisfeito—. Agora sim, vamos.
Dirigiram-se à porta e depois ao elevador. Anna caminhava como se pisasse em ovos, temendo que o menor movimento fizesse alguma das pedras se soltar. Owen a observava por trás enquanto desciam, impressionado com a curva de seu quadril, algo que até então permanecera oculto.
—Por que você tem isso? —perguntou Anna de repente, quebrando o silêncio.
—Isso o quê?
—Este conjunto de diamantes. Por que você tem isso?
A pergunta o pegou de surpresa, mas ele respondeu com indiferença.
—Só porque sim.
O trajeto até o evento foi feito em completo silêncio. O que havia para dizer? Owen manteve o olhar fixo na estrada, enquanto uma força invisível o instigava a virar a cabeça para olhá-la. Ainda assim, resistiu. Não esperava que Anna estivesse tão… bonita. A surpresa o deixava desconfortável, e esse desconforto começava a despertar emoções — as mesmas que ele tentava sufocar.
Owen Walker convenceu a si mesmo de que estava fazendo a coisa certa: que, com um único gesto, faria desaparecer as sensações que aquelas duas mulheres lhe provocavam, revirando-lhe as entranhas. Mas a que estava sentada ao seu lado acabou por lhe trazer mais insegurança do que certeza. Apertou o maxilar e continuou dirigindo; já era tarde demais para voltar atrás.