Capítulo 27

1353 Palavras
Mas Bob chegou primeiro. Sentia a obrigação de estar ali, como se fosse uma rede de contenção para Owen. Já tinha se convencido de que, se fosse necessário, o tiraria dali à força; estava de pé, ereto, com os ombros para trás, as mãos nos bolsos e pronto para socá-lo caso o amigo se deixasse levar. Ele a avistou entre as pessoas, rindo e com uma taça na mão. Exatamente igual àqueles anos atrás. Ao que parecia, “devorar almas” lhe dava a virtude de se manter sempre jovem. Seu estômago se revirou um pouco: Elena não tinha mudado. Mas não se aproximou para cumprimentá-la; ele não estava ali para fazer parte do circo. Ela também o viu, e isso lhe deu a certeza de que, se Bob estava ali, Owen também viria. Aquilo inflamou ainda mais seu ânimo, fez com que suas gargalhadas aumentassem de volume e que seus movimentos se tornassem mais opulentos; ela estava se preparando para a chegada dele. O salão principal do Calgari havia se transformado em seu playground; as pessoas desfilavam apenas para cumprimentá-la, como se ela fosse uma estrela de cinema ou um m****o notório da alta sociedade. Não passava de mais uma entre a multidão, embora com muito dinheiro e uma beleza deslumbrante. Ainda assim, seus “queridos amigos”, os donos do hotel, não economizaram em nada para agradá-la. Chegava a beirar o ridículo. O hotel era um dos mais belos e luxuosos da cidade; enorme, moderno, uma joia arquitetônica remodelada com um gosto refinado por antiguidades e, ao mesmo tempo, equipada com a mais alta tecnologia. A Plaza & Milne era a fornecedora de todos aqueles aparelhos de última geração, e naquela noite tudo brilhava só para ela. O coração de Owen começou a bater mais rápido quando o carro parou em frente à entrada: bastariam poucos passos para chegar até Elena. Por um segundo, um lampejo cruzou sua mente: acelerar e ir embora. Mas, mais uma vez, aquela crença de que estava prestes a vencer os próprios sentimentos o deteve. Respirou fundo e desceu, deu a volta para abrir a porta para Anna e ajudá-la a sair. Pegou-lhe a mão e, quando ela desceu, várias cabeças se viraram para olhá-la. E era exatamente isso que Owen esperava. O ex-marido enganado e abandonado chegava à festa, mas desta vez não estava sozinho. Ofereceu-lhe o braço em silêncio, e ela o aceitou. Caminhou de cabeça erguida, com a jovem elegante apoiada em seu braço, e aos poucos os murmúrios começaram a se espalhar. Anna não poderia estar mais nervosa, mas de alguma forma escondia isso com o andar leve e um pequeno sorriso no rosto. Pedia em silêncio para não cometer nenhum erro. “É por Lali”, repetia para reunir coragem. O queixo de Bob literalmente caiu. Ele observava o ambiente quando viu a silhueta do amigo. Owen deu alguns passos e, ao seu lado, surgiu uma mulher linda… e de braço dado com ele! Pelo menos tinha seguido seu conselho de não chegar sozinho. Mas de onde ele a tinha tirado? Bob praticamente trotou até alcançá-los. —Santa Mãe de Deus, Owen! —exclamou Bob, completamente extasiado—. Mas olha só isso! Anna o observava um pouco surpresa; ele era um homem muito… expansivo. —Muito, muito, mas muito prazer! Sou Bob, amigo do Owen —apresentou-se, inclinando-se em direção a Anna. Ela achou graça na forma como ele se expressava. —Muito prazer, Bob. Sou Anna —respondeu ela, com um sorriso. —Céus do céu, amigo! —Bob estava deslumbrado. —Não começa —advertiu Owen. —Anna, é um prazer te conhecer —Bob ainda não conseguia acreditar no que via. A mulher era jovem, estonteante, tinha um sorriso caloroso e olhos serenos. Sério, onde Owen a tinha encontrado? Não parecia ser uma profissional contratada; por baixo de todo aquele vestido se percebia alguém simples. E ela observava tudo ao redor com olhos enormes, impressionada. Anna realmente estava; aquele lugar exalava dinheiro por todos os lados, o que a deixou um pouco intimidada. —De onde você tirou ela? —sussurrou Bob para Owen, de lado. Ele apenas o encarou, sem responder. Sua mente e sua alma tinham abandonado o corpo no instante em que cruzara aquelas portas. Já que o amigo não queria compartilhar informações, talvez a dama fosse mais gentil. O entusiasmo de Bob se concentrava naquela pequena ideia que lhe rondava a cabeça: era impossível que Owen não apreciasse aquela mulher; nem ele mesmo conseguia ignorar o quanto ela era bonita. Com toda a intenção de descobrir quem ela era e como conhecia seu amigo, Bob se posicionou ao lado dela. Estava prestes a falar quando viu a joia pendurada em seu pescoço e praguejou para si mesmo. Que coisa mais insana Owen tinha feito! Engoliu em seco e não disse nada. O conjunto de diamantes que ele tanto insistira para que Anna usasse fora o último presente que comprara para Elena. Mas não chegou a entregá-lo porque naquele dia a encontrou na cama com o sócio. Ele se recusara a se desfazer das joias e as guardara no cofre do apartamento. E agora Anna as usava. O entusiasmo de Bob diminuiu um pouco. Anna estava alheia a tudo isso, apenas observava ao redor: o lugar, as damas tão elegantes e soberbas, os cavalheiros tão bem-vestidos e presunçosos. De vez em quando, lançava um olhar de soslaio para Owen. Ele também parecia um deles, distante e frio. Sentiu-se tão fora de lugar que aquela sensação baixa e oca se instalou em seu ventre. Não sabia se devia falar ou se mover; apenas permanecia ali, agarrada ao braço de Owen. Deveria soltá-lo? Era a única coisa que conhecia ali e não queria fazê-lo. E então, de repente, ela estava ali. Do outro extremo do salão, o observava, vestida de preto, uma taça na mão, sem desviar o olhar. Os olhos dos dois se encontraram de imediato, como se a gravidade os atraísse. Owen sentiu o corpo enrijecer; embora o rosto não demonstrasse nada, o pulso disparou. Ela parecia praticamente igual; mesmo à distância, sua silhueta continuava inconfundível. Elena. O salão, que tinha se enchido de olhares e murmúrios quando ele apareceu, começava a desaparecer ao redor deles. Tudo se concentrava naquela figura, nela; os anos não tinham apagado a intensidade de sua presença nem a habilidade de capturar a atenção do ex-marido com um simples olhar. Anna percebeu a mudança nele; de repente, os músculos de seu braço se contraíram. Seguiu o olhar dele e viu a mulher de preto, parada ali. Aquela devia ser a ex-esposa. Que bonita! Como uma mulher assim podia ferir tanto um homem como ele? Voltou a observá-lo, depois percorreu com os olhos o caminho até Elena outra vez, e Lali tinha razão: ele ainda sentia algo por ela. Owen respirou de forma irregular; ela continuava a perturbá-lo, ainda tinha poder sobre ele. Elena não se moveu, não desviou o olhar nem por um segundo. Parecia avaliá-lo, procurando nos olhos dele algum sinal, algo que confirmasse que podia iniciar o jogo e fazê-lo escorregar. Ele não estava sozinho, e isso ela não tinha previsto; chegou a considerar, mas acreditou que ele realmente apareceria sem companhia. Por fim, depois do que pareceu uma eternidade, Elena fez um pequeno gesto, erguendo levemente a taça em uma espécie de cumprimento. Owen assentiu de forma quase imperceptível, e ambos se atraíram como ímãs. Ele se soltou da companheira e começou a caminhar em sua direção, enquanto Elena fazia o mesmo. —Lá vai ele —disse Bob, com um tom decepcionado, balançando a cabeça. —É ela, não é? —perguntou Anna, tentando vê-la melhor. —Você conhece a história? —Só algumas coisas. —Ah, Owen… —exclamou Bob, em meio a um suspiro. —Ele não consegue esquecê-la… —Não… Pelo visto, todo o dano que ela lhe causou não foi suficiente —respondeu Bob. Anna se encheu de tristeza e, enquanto o via se afastar, experimentou um sentimento confuso: vê-lo se afastar dela com tanta facilidade doeu um pouco.
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