Capítulo 28

1252 Palavras
Não parou até ficar diante dela, e Elena o recebeu com um sorriso enorme, cheio de satisfação. Ambos se observaram, se escrutaram por alguns minutos sem dizer nada. —Olá, Owen —disse ela, finalmente, em voz baixa. —Elena —respondeu ele. Mas o tom já revelava sua luta interna. —Faz muito tempo. Como você tem estado? —Bem. —Fico feliz que tenha vindo. Elena estava mais do que satisfeita; sem precisar olhar, podia sentir cada par de olhos daquele salão pousado sobre eles, e adorava isso. Que todos vissem como o agora poderoso Owen Walker se arrastava para chegar até ela, como perdia a dignidade com um simples estalar de dedos. Naquela noite, ela o faria cair novamente a seus pés, e haveria muitas testemunhas. O pensamento de tê-lo sob seu controle outra vez incendiou seu corpo. Podia sentir a adrenalina e a excitação percorrendo-a por inteiro. Além disso, somava-se outro fator: o homem à sua frente estava incrivelmente sexy. Uma coisa era vê-lo nas capas das revistas do aeroporto; pessoalmente, sua aura emanava algo que ela jamais havia sentido. No entanto, ele a olhava com os olhos apagados, quase sem vida. Tinha se endurecido com o tempo; a tensão no maxilar, as novas rugas no canto dos olhos, os fios brancos que antes não estavam ali. E aquela expressão… aquela expressão de ódio. Ele estava quebrado. Owen, por sua vez, sentia que, pouco a pouco, ia perdendo o controle. Elena absorvia a pouca determinação que lhe restava; alimentava-se de suas dúvidas, medos e inseguranças. Sabia que estava prestes a fraquejar, e isso não lhe importava. A beleza de Elena permanecia intacta, mas agora brilhava de forma diferente. Ele seguiu com o olhar a linha de seu pescoço, quase sentindo a maciez de sua pele na ponta dos lábios. —Você está diferente —disse Elena, pausada, com cadência. —Não acho. —Sim, você está… melhor —respondeu, enfatizando a última palavra. —Você está igual… —É mesmo? —respondeu, abrindo os braços sem pudor—. Mas vejo que não veio sozinho —indicou com a taça Anna, que ainda estava parada ao lado de Bob. Owen virou-se ligeiramente, lançando um olhar em sua direção, mas não disse nada. —A bruxa já te viu —sussurrou Bob para Anna. Anna também observava Elena. Era bonita demais, elegante demais… e vazia demais. Uma nuvem escura parecia envolver a ex-esposa de Owen, algo perturbador e imaterial, que lhe provocou um arrepio nas costas. O pior era ver como ele começava a afundar naquela escuridão. Continuaram conversando. Anna não conseguia ver o rosto de Owen porque ele estava de costas, mas via claramente as expressões e os sorrisos de Elena. Bob, ao seu lado, suspirava de decepção. Ela estava imersa naquela dupla distante, observando seus movimentos. Seus olhos seguiam as costas de Owen, os ombros, os braços… voltavam à sua nuca. Ela o havia tocado ali. De repente, a lembrança do beijo voltou à sua mente. Como o cabelo curto de Owen se sentia entre seus dedos, como aquele contato havia incendiado todo o seu corpo. As sensações da pele dele quando a segurou pela cintura a invadiram. Por um instante, Anna se confundiu e esqueceu onde estava. A banda começou a tocar, e a música a trouxe de volta à realidade. —Ai, não posso acreditar! —exclamou Bob, indignado—. Não posso acreditar! Anna os observava enquanto dançavam. Estava deslocada, não pertencia àquele lugar. A voz de Lali voltava à sua mente, lembrando-lhe das penas e da dor de Owen. O gosto da boca dele ainda permanecia na sua. As expressões desesperadas de Bob, ameaçando bater em alguém, e a soberba incontida de Elena, porque ele a envolvia com os braços enquanto a puxava para perto do corpo ao dançar. De algum lugar, um sentimento estranho começou a crescer em Anna: a dor de saber que Elena iria machucá-lo. A urgência para que tudo terminasse e poder ir embora se transformou em determinação. Ela só precisava acompanhá-lo, esse era o acordo: comportar-se, sorrir e ir embora. Mas agora não podia permitir que ele se entregasse sozinho de novo. Nunca soube como conseguiu, mas de alguma forma o separou daquela mulher. E agora? Como evitar que ele voltasse para o lado dela? A única coisa que lhe ocorreu foi fazer perguntas aleatórias, às quais ele respondia de forma seca, com um tom irritado. Ainda assim, ela não parou. Depois começou a pedir algo para beber, colocava-se entre ele e Elena quando Owen se virava na direção dela, sorria para ele e até o tocou em várias ocasiões. Longe de se sentir insultada, Elena se divertia. O inocente Owen tinha levado uma jovem mulher ao braço e agora agiam como um casal de apaixonados, acreditando que assim a convenceriam de que ele a havia superado. Não podia ser mais… básico. Mas também demonstrava que Owen buscava se proteger dela. Se esse era o caso, sua influência sobre ele não havia desaparecido. Elena decidiu deixá-los continuar com suas “encenações” sem intervir. A jovenzinha não era nada em comparação com ela; ele poderia ter uma legião de moças, mas bastaria mover um dedo para atraí-lo de volta. O jogo ficava mais interessante a cada minuto. Se aquela garota realmente tivesse algo com Owen, maior seria a satisfação de Elena quando finalmente o arrancasse dela. Enquanto isso, Bob observava Anna com assombro. Sério, de onde Owen tinha tirado aquela mulher? Ela não só o acompanhava, parecia genuinamente preocupada com ele; o segurava, sorria para ele. Não, não era uma profissional. Tinha se tornado sua nova melhor amiga de alma e não hesitou em resgatá-lo das garras daquela c****a. Ela olhava Owen com ternura. Owen? E havia algo mais no olhar dela: pena. Apesar de Owen responder de forma ríspida e com a voz exasperada, não conseguia parar de olhá-la. Tinha ido ver Elena, era isso que queria; levou Anna para provar que não estava arruinado, como todos supunham, e para tentar tirá-la da cabeça oferecendo-lhe dinheiro. No entanto, de vez em quando se perdia no calor daquela boca que lhe falava, ou no toque das mãos de Anna. Inesperadamente, desejava voltar a senti-las. A mão que ela havia pousado em sua cintura naquela noite começou a formigar. O cansaço por não conseguir lidar com as emoções conflitantes o dominava. Em um extremo do salão estavam Elena, as lembranças e a raiva; ao seu lado, Anna, sua simplicidade e a confusão. Ele estava chegando ao limite. Começou a se entediar; cumprimentou alguns conhecidos que se aproximaram com a intenção de descobrir o que ele fazia ali e quem era a dama ao seu lado. Mas apenas os cumprimentava, sem lhes dar oportunidade de iniciar uma conversa. Se alguém falava com Anna, ele a tomava para si ou a afastava. Tudo aquilo estava se transformando em um maldito circo, e ele era a atração principal. —Vamos embora —disse a Anna, como se fosse uma ordem. —Sim. O alívio de Anna crescia à medida que se aproximavam da saída. Bob os seguia de perto, sentindo o mesmo. Seu amigo tinha sobrevivido intacto graças àquela moça. E, no caminho de volta, a viagem foi em completo silêncio. Anna m*l via a hora de tirar aqueles diamantes; pesavam como pedras. Owen continuava em silêncio enquanto dirigia, sempre com aquela expressão. Será que ele tinha se irritado com a forma como ela havia agido? Pelo menos, a noite tinha terminado.
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