Capítulo 29

1173 Palavras
Esperou na sala enquanto ela terminava de se trocar. Ainda não entendia o que havia lhe acontecido quando teve Elena à sua frente. Por que não reagiu como deveria? Deveria tê-la confrontado pela ação judicial, expulsá-la outra vez de sua vida como naquela ocasião, expô-la diante de todos aqueles bajuladores que a rodeavam. E, no entanto, apenas ficou ali parado, com o coração na mão. Dançou com ela, conversaram como se nada jamais tivesse acontecido. Estava furioso consigo mesmo por sua fraqueza. Todo o discurso mental que havia feito para se convencer de que só iria mostrar que ela já não significava nada para ele não passou de uma mentira disfarçada para não admitir seus sentimentos. Em que momento havia perdido a determinação? Prometera a si mesmo não ceder, não deixar que Elena voltasse a ter poder sobre ele e, no fim, a única coisa que fizera fora entregar-lhe a própria vontade em uma bandeja de prata. Elena o havia manipulado com aquele sorriso arrogante, como se soubesse que ele cairia na mesma armadilha de sempre. Anna havia agido como uma mulher atenciosa e cuidadosa. Bob tinha razão: ela tinha salvado sua pele. Ele também vinha fugindo dela, e isso não lhe servira de nada. As duas vitórias que esperava conquistar tinham se transformado em dois fracassos retumbantes. E a raiva aumentava. Odiava-se por sua fraqueza diante de Elena, mas também pela sensação estranha que Anna lhe provocava. Uma mistura de gratidão e incômodo. Não deveria tê-la levado àquela recepção. Não deveria tê-la envolvido em algo que era um desastre anunciado. Mas ali estava ela, tentando protegê-lo de si mesmo, enquanto ele não fazia outra coisa senão fracassar. Anna saiu do quarto com a roupa de todos os dias, o cabelo preso e sem maquiagem. De novo a mesma moça da limpeza. A simplicidade que antes lhe parecera quase invisível agora lhe parecia necessária, um contraste com o circo que acabara de deixar para trás. —Bem —disse ele, levantando-se—. Me passe sua conta bancária… —Não é necessário, é só me levar para casa —respondeu ela. —O que não é necessário? —perguntou ele, com cinismo. —O dinheiro, deixa pra lá. Ele a encarou nos olhos. Ela estava brincando? Falava sério; a honestidade se refletia em seu rosto. Anna apenas segurava as alças da bolsa com as duas mãos, parecia ainda mais miúda sem toda a roupa elegante e os sapatos de salto. Como ele não respondeu, ela deu alguns passos em sua direção. —Deixei as joias no estojo… Não quero ser grosseira, mas podemos ir embora? Estou cansada. —O que você quer? Mais dinheiro? —perguntou ele, incrédulo. —Não quero seu dinheiro, quero ir embora. —Você está brincando? —Não… Olha, não posso aceitar dinheiro por isso… Vamos deixar assim. Se quiser, pode pensar que fiz um favor para a Lali, está bem? Um favor para a Lali? Aquela resposta lhe pareceu absurda. Anna caminhou até a porta, passando ao seu lado. Owen não estava acostumado a esse tipo de mulher; ele pagava, era generoso, e isso quitava as contas com a própria consciência. Supunha que tudo aquilo que Anna lhe despertava desapareceria quando ela aceitasse o pagamento, e ela não queria. —Se você não quiser me levar, eu vou de táxi, não é problema. Pode abrir a porta? —disse ela, soando um pouco impaciente. Estava nervosa; ele a deixava nervosa, só queria ir embora. —Não… Não, eu te levo —disse Owen, pegando as chaves. Surpreso era pouco. Anna se sentia triste por ele, angustiada. O rosto rígido e a expressão de desagrado haviam desaparecido quando ele viu a ex-esposa. Notou a dor em seus olhos e o coração lhe deu um salto. Talvez porque também soubesse como era olhar para alguém e se chocar contra uma parede. Mas, para Owen, as coisas não fechavam. A situação financeira dela era r**m, e ainda assim não aceitava? Aquilo o incomodou, o contrariou, ele não acreditou. Com certeza pediria mais do que ele havia prometido quando chegassem à casa dela. Tinha que ser assim. Aquela desconfiança estava gravada nele como uma segunda pele. —Obrigada por me trazer —disse Anna, preparando-se para descer. —Espera! Me diz, quanto você quer? O sorriso dela foi pior do que se tivesse lhe dado um tapa; melancólico, carregado de pena. —Boa noite —foi tudo o que respondeu, e desceu do carro. Owen não foi embora de imediato; por alguns minutos tentou assimilar o que havia acontecido: como ela recusara o dinheiro, como parecia cansada e decepcionada. Em sua mente, a rejeição de Anna se entrelaçava com o desprezo de Elena, mas era diferente. Anna não o humilhava por prazer, não brincava com o orgulho dele. Ela simplesmente não queria nada dele, e isso doía mais. O sorriso que m*l se formou em seu rosto, por algum motivo, o enfureceu. “É uma maldita piada”, disse a si mesmo. Pisou fundo no acelerador. Voltou ao apartamento, irritado, lívido, furioso com Anna. Tirou o paletó e o jogou sobre uma cadeira, entrou no quarto e, enquanto afrouxava a gravata, viu o vestido sobre a cama e os sapatos no chão, ao lado. Deixou tudo? Nem sequer tinha levado a roupa. Abriu o estojo e lá estavam os diamantes. Num acesso de raiva, arremessou as joias contra a parede. “Ela está zombando de mim!”, gritou para o vazio. Aquela satisfação de ter acreditado que estava pagando, de que ela era igual a todas as outras, se desfez, dando lugar à cólera. Tinha se esquecido completamente de Elena e de tudo o que ela lhe causara. Não aceitava o dinheiro, não queria as joias e tinha deixado tudo sobre a cama? De novo, o sorriso de pena dela lhe veio à mente. Amassou o vestido e o enfiou no armário, fechando a porta com força. O brilho de um dos diamantes caídos no chão apareceu por um instante, e só. Com o corpo exausto, sentou-se na beira da cama e levou a cabeça às mãos. Sentiu-se ridículo, um i****a. Todo o teatro que tinha feito só para voltar a vê-la: propor a Anna um “trabalho extra”, vesti-la como uma boneca, fazê-la acompanhá-lo; para acabar duplamente exposto. O magnetismo de Elena e o desinteresse de Anna. A zombaria, a pena, a compaixão. Ela tinha pena dele! Ela, que m*l conseguia chegar ao fim do mês! Que vivia num lugar minúsculo e horrível! —Droga! —gritou. Ela devia estar pensando que ele era um pobre coitado. Que o terno sob medida e os sapatos engraxados, os carros pretos, o tom gelado e os gestos de desagrado não passavam de uma piada para esconder um sujeito patético, apaixonado por uma mulher infiel e arrogante. Até ele mesmo acharia graça. E acaso não era isso mesmo? Em que momento lhe passou pela cabeça que revê-la lhe devolveria aquela mulher que conhecera cinco anos atrás? Era um maldito palhaço.
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