Anna suspirou diante da porta do seu apartamento. Não estava apenas fisicamente cansada, mas também emocionalmente exausta. Foi direto sentar-se na pequena poltrona e se deixou cair sobre ela. Era assim que ele a via de verdade? Como uma transação? A expressão de Owen, de confusão e desespero quando ela recusou o dinheiro, doeu mais do que tudo o que havia acontecido.
A decepção a invadiu; no fundo, ela esperava ser algo mais do que isso para ele. E voltou a se repreender por ser tão infantil, por sequer imaginar que um homem como ele a olharia de outra forma. Da forma como olhava Elena. Que ridícula! Às vezes costumava se sentir invisível para os outros, mas naquela noite tinha praticamente desaparecido.
Cobriu o rosto com as mãos e deixou escapar uma espécie de gemido vencido. Owen realmente lhe agradava. E não era apenas por aquela tentativa de consolo que ele lhe dera, pela consideração ou pelo beijo. Ela m*l tinha interagido com ele o suficiente para conhecê-lo. Sabia apenas algumas coisas por Lali e, ainda assim, o homem lhe agradava.
“E a quem não agradaria?”, pensou. Qualquer mulher em sã consciência repararia nele. Era muito atraente, tinha presença e um caráter forte.
Mas também era vulnerável, ela tinha visto isso em seus olhos. Estava preso em um labirinto de emoções do qual não conseguia escapar. Talvez essa dualidade fosse o que a atraía até ele. Apesar da dureza aparente, Owen era alguém profundamente ferido e continuava acorrentado aos sentimentos que Elena lhe despertava.
Sentia que ele tinha mexido em algo profundo dentro dela; havia desencadeado um turbilhão de emoções que agora não conseguia controlar, e isso a fazia sentir-se ainda mais tola. Estava sobrecarregada por tudo o que tinha visto e confusa pela forma como ele havia se preocupado com ela naquela outra vez.
O som da chuva batendo nas janelas a arrancou de seus pensamentos. Levantou-se e foi para o quarto.
Owen encarava a tela do computador e pensava; a luta interna não o deixava dormir. Observava os dados na tela e sabia que estava prestes a cometer uma estupidez, arrastado por aquele sorriso amargo e aqueles olhos enormes de Anna. Mas, se não se movesse, acabaria enlouquecendo de vez.
Pegou o paletó que havia jogado sobre a cadeira, as chaves do carro e saiu. Enquanto os andares desciam um após o outro, teve várias vezes o impulso de parar, de voltar ao apartamento, mas aquela sensação que não conseguia descrever na boca do estômago o impedia.
E é que o monstro de Owen estava à solta. Não conseguia dominá-lo, apaziguá-lo ou contê-lo. Elena o tinha despertado por completo ao encará-lo intensamente, demonstrando abertamente suas intenções sem medo, sem se esconder, declarando sem palavras que o queria de volta para arruiná-lo. Mas Anna, Anna o desestabilizou por completo.
A jovem simples que limpava seu escritório, que não tinha um tostão furado, que tinha se vestido de gala para resgatá-lo das garras da ex-esposa, como uma espécie de super-heroína que escondia a identidade atrás de um disfarce, tinha recusado a única coisa que ele tinha como defesa: o dinheiro. Parecia que, à distância, ela chamava com urgência aquela fera que estava rasgando sua pele para sair.
Chovia cada vez mais forte quando ele parou novamente diante do prédio dela. Desligou o motor e pousou a mão na maçaneta da porta; por um instante, voltou a hesitar, mas o impulso era mais forte do que a razão. Nem sequer se apressou até a entrada, mesmo com a água caindo como uma cortina fechada. Bastou empurrar levemente a porta de acesso para que ela se abrisse.
Olhou ao redor: as entradas dos apartamentos térreos, caixas espalhadas, bicicletas quebradas, plantas mortas em vasos sujos. Uma mulher mais velha passou pelo corredor e ficou olhando para ele. Todo molhado, num bom terno, o olhar perdido; parecia um louco. Outro elevador, muito pequeno e hostil.
Quando desceu em seu andar, a cena não era muito diferente do que havia notado lá embaixo. “É horrível”, pensou. O torpor e a calma com que tinha se movido até então se dissiparam quando parou diante do 11B e golpeou a porta com o punho fechado.
As batidas furiosas não só acordaram Anna, como também a assustaram. Ela olhou o relógio na mesa de cabeceira. Quem seria àquela hora? A primeira coisa que lhe passou pela cabeça foi que Alex tivesse voltado. Já lhe tinham dito que ele fora visto rondando o prédio.
Levantou-se e apressou-se até a porta; as batidas ficavam cada vez mais insistentes, mas ela parou alguns passos antes.
—Quem é? —perguntou.
—Anna —ouviu-se do outro lado, mas era uma voz baixa que ela não conseguiu reconhecer.
—Quem é? —repetiu.
—Owen.
O quê? Aproximou-se do olho mágico e o viu. Abriu a porta apressada, e diante dela apareceu ele, encharcado e transtornado.
—Owen? O que você está fazendo aqui?
Ele a percorreu de cima a baixo, no pequeno camisão improvisado com um moletom grande demais e velho demais; descalça, com o cabelo despenteado e o rosto surpreso. O monstro rugiu tão alto que o ensurdeceu.
Alarmada, Anna não sabia o que fazer; estava mais do que confusa, estava atordoada.
—Preciso falar com você —disse ele, com a voz rouca.
Ela apenas abriu mais a porta e se colocou de lado, dando-lhe passagem para entrar. A água tinha formado uma poça na entrada.
Ela acendeu a luz.
—Você está encharcado…
Owen apenas baixou um pouco o olhar. Estava completamente perdido. Levantou a cabeça e confirmou o que havia pensado na primeira vez que a levara até ali: era minúsculo. As paredes descascadas pela falta de pintura, a janela voltada para o prédio ao lado, os poucos móveis, todos velhos e um tanto maltratados. E, ainda assim, tudo estava organizado e limpo, e havia um aroma doce pairando no ar.
Diante da falta de reação dele, Anna se aproximou um pouco.
—Você está bem? Aconteceu alguma coisa? —soava preocupada.
—Lamento ter aparecido assim, mas preciso falar com você —respondeu, olhando-a nos olhos—. Preciso que você aceite o dinheiro —disparou de repente.
—O quê? Mas eu não quero —sussurrou, magoada.
—Por quê? Por que você não aceita? Foi o que combinamos —ele estava desesperado; se ela não pegasse o que ele oferecia, destruiria sua única defesa, e ele já se sentia à beira do precipício.
—Você veio até aqui e se molhou assim por isso? —perguntou ela, e a voz soava um pouco indignada.
Por que ele insistia tanto nisso? Por que insistia em transformá-la em uma movimentação bancária?
—Você precisa aceitar, é o que corresponde —respondeu, com a voz firme.
—Eu não quero! Eu disse para você ver isso como um favor, você não me deve nada —Anna já começava a se sentir insultada.
Owen cerrou os punhos, sentindo a frustração e o desespero se misturarem no peito. Não conseguia entender por que Anna resistia tanto. Para ele, o dinheiro era uma forma de encerrar o capítulo, de manter sob controle os sentimentos que o transbordavam.
—Eu não vou aceitar o seu dinheiro —repetiu Anna, desta vez mais firme. E aquelas palavras o desmontaram por completo.