Capítulo 31

1165 Palavras
Ela observou como ainda caía um pouco de água das mangas do casaco dele. Olhou para ele um pouco mais e percebeu que tinha diante de si um homem atormentado: sair com aquela chuva, ficar encharcado daquele jeito, tudo para obrigá-la a receber um pagamento. Sim, definitivamente, ele estava muito abalado. Seus ombros baixaram um pouco, como se estivesse resignada. Certamente, o encontro com Elena o havia perturbado a tal ponto. — Tire o casaco, vou buscar uma toalha — disse Anna. Owen assentiu, mas demorou alguns segundos antes de deixá-lo no encosto de uma cadeira. Embora o minúsculo apartamento não se parecesse com nenhum lugar onde ele já tivesse estado antes, ele não se sentiu desconfortável ou deslocado. O aroma doce impregnado em cada canto transmitia-lhe uma sensação de tranquilidade. Anna voltou com uma toalha grande na mão e a ofereceu a ele. — Obrigado — murmurou ele. Sem dizer nada, ela foi até a cozinha e colocou água para ferver. Parada em frente ao fogão, ela teve uma leve lembrança daqueles tempos em que esperava por Alex: aquecendo a comida ou uma sopa, e então ouvia a porta se abrir e uma brisa fria entrar com ele. Mas ela estava inquieta; o que vinha do outro quarto estava muito longe de ser gelado. Era como um pequeno choque, o bater de um dedo, mas quente. Quando ela voltou com duas xícaras fumegantes, Owen já estava sentado no sofá, olhando fixamente pela janela para a parede do prédio ao lado, com a toalha sobre os ombros. — Tome algo quente — ofereceu Anna, aproximando uma das xícaras dele. Ele a pegou com uma mão, sem tirar os olhos da janela. Anna sentou-se na cadeira em frente, em silêncio, observando a expressão vazia em seu rosto. — Desculpe por ter aparecido assim — disse ele de repente — Não quero ser rude... Tudo tem sido... difícil. —Eu entendo, não se preocupe. Ele não bebeu da xícara, e seus olhos voltaram para os dela com a mesma intensidade, com aquele apelo quase exigente com que ele a olhara naquele dia. Com a mesma luz com que ele se inclinara para beijá-la. O corpo de Anna reagiu sozinho, lembrando-se de cada uma das sensações que Owen havia provocado nela. Daí vinha o calor. Ele observou o rosto com que aquela garota despenteada o olhava, seu olhar brilhante, os lábios úmidos, a antecipação que emanava de seu corpo. O silêncio ficou mais denso e pesado. Mais uma vez, ele a desnudava com seu olhar cinzento, mais uma vez seu interior se contorcia e a ansiedade aumentava. O coração de Anna acelerou em um instante, sentindo-o reverberar contra seu peito. De repente, Owen se levantou e a respiração de Anna ficou ofegante. Ele deu alguns passos até ficar diante dela e fixou os olhos nela, procurando por uma pista. E ele o encontrou. Anna mordeu levemente o lábio inferior e olhou para a boca dele. Foi uma fração de segundo, mas fez com que o mundo ao redor de Owen parasse de repente. Ele deixou a xícara sobre a mesinha e caiu de joelhos na frente dela. De onde estava, ele podia ver seu peito subindo e descendo rapidamente, seus olhos se abrindo e suas pupilas dilatando. Aqueles olhos límpidos que não conseguiam esconder o que ela sentia, o que Anna queria. Ele pegou a outra xícara das mãos dela e a colocou ao lado da sua. Nenhum dos dois dizia nada. Muito devagar e hesitante, Owen colocou a mão no tornozelo direito de Anna, e ela fechou os olhos. O toque de sua pele com a palma grande e quente dele começou a transmitir uma onda que subia por suas pernas. Com delicadeza, ele deslizou os dedos sobre a pele quente até chegar atrás do joelho. Não tirava os olhos do rosto dela, tentando ler suas reações, procurando algo que lhe dissesse que estava errado. Sua outra mão seguiu o mesmo caminho, mas pelo tornozelo esquerdo. Anna inclinou levemente a cabeça para trás. Ele se aventurou mais, acariciando suas coxas. Ele se surpreendeu com a suavidade e delicadeza que se estendia sob seus dedos. Ele ficou fascinado com o leve tremor de suas pernas. E então ela soltou um som do fundo da garganta. Ao ouvi-lo, Owen despertou da irrealidade em que estava imerso. Abriu mais os olhos e parou. Ela percebeu algo, porque baixou a cabeça e viu o rosto perplexo e confuso do homem a seus pés; ele estava prestes a retirar as mãos, e Anna se moveu rapidamente para contê-lo com as suas. Com as bochechas pintadas de um tom rosado, com o coração prestes a explodir, com o perfume de Owen misturado com a chuva enchendo seus pulmões, ela deslizou da cadeira para o chão. Até ficar cara a cara com ele. Esse movimento inflamou seu peito, mas não com oxigênio; o monstro rompeu sua pele e ossos para sair à superfície. Desta vez, o beijo não foi exploratório, não foi paciente; foi uma colisão. Ela agarrou-se com força ao pescoço dele, e ele deixou as mãos viajarem por baixo da camisola velha, apalpando as ancas, a cintura, o torso. Owen afastou um pouco as pernas e aproximou-a mais do seu corpo, colando-a a ele. A boca de Anna ardia, e ela podia sentir como ele continuava percorrendo suas costas; subindo pela coluna e descendo, traçando um caminho que terminava na cintura. O sabor de Owen era invasivo, os sons roucos vibravam dentro de sua boca e eram transmitidos à boca de Anna. Ele a acariciou de volta, subindo pelas costas até que sua mão saiu por baixo do moletom para agarrá-la pela nuca. Ele apenas fechou o punho em seus cabelos e puxou para trás, separando-a do beijo. Seu instinto o levou à pele que ficava descoberta, a do pescoço dela. E foi aí que a fera atacou primeiro; os beijos abertos e molhados de repente se transformaram em uma mordida. O corpo de Anna ficou tenso e imediatamente ficou mole e passivo, como se se oferecesse para mais. A segunda mordida arrancou um gemido profundo e indecente. Um chamado que o monstro ouviu e ao qual respondeu com um rugido. Agora ele não poderia parar até tê-la; cada gemido, cada suspiro e cada gemido pausado eram música aos ouvidos da b***a. E ela o alimentava sem saber; com a pressão de suas mãos sobre Owen, com os movimentos desesperados de seu corpo, com a insistência que saía de seus poros como se fosse uma fragrância. Com essa aceitação de sua agressividade. Finalmente, a mão com que ele a segurava pela cintura deslizou entre seus joelhos, empurrando para separá-los, e subiu até tocá-la; até encontrar aquela parte quente que inundou seus dedos com o desejo líquido de Anna. O rugido que se derramou sobre sua pele, sobre a pele marcada de seu pescoço, não era dele, não era sua voz. O animal retorcido, ferido e furioso que habitava dentro dele se libertara.
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