Capítulo 10

1258 Palavras
Elena chegou ao aeroporto com a segurança de alguém que havia conquistado um império. E, na verdade, tinha conquistado mesmo: assumira as rédeas do império que Thomas havia construído. Deteve-se por um instante diante de uma porta de vidro, observando seu reflexo com um sorriso malicioso. Estava de volta — e sabia que precisava se atualizar sobre tudo o que havia acontecido durante sua ausência. Para ela, a vida realmente começara com Thomas; antes dele, nada tinha importância. Enquanto caminhava para a saída, sua atenção se desviou para uma banca de revistas, onde viu Owen. Seu rosto não havia mudado muito, mas as informações ao lado dele, sim. Seu ex-marido, que um dia fora um romântico incorrigível, havia avançado consideravelmente desde a última vez que o vira. Agora era o diretor da empresa e possuía um prestígio notável. Aquilo, sim, era interessante. Owen tinha um porte diferente, uma nova aura de autoridade que ela não se lembrava de ter visto nele. Naquele instante, decidiu que não podia perder a chance de revê-lo — não por amor ou por recuperar o que um dia tiveram, mas porque se lembrava — e se deliciava com a ideia — do poder que exercia sobre ele. “Será que ele se casou?”, perguntou-se. O mais provável era que sim. Um homem como ele não ficaria sozinho… ou talvez ficasse. Owen sempre fora um romântico, sensível e um pouco pegajoso; ela ainda podia imaginar aqueles olhos de cachorro que ele fazia depois de uma noite juntos. Era tão fácil. Embora soubesse que o amor de Owen por ela era sincero, isso não lhe servia para nada. Tampouco o apoio incondicional que ele lhe ofereceu após o nascimento de Eva, nem o desespero no rosto dele ao encontrá-la deitada na cama enquanto a menina chorava sem consolo no berço. Nem sequer lhe importou que Owen nunca a tivesse repreendido por sua frieza com Eva. Sempre compreensivo, sempre tentando maneiras de apoiá-la e professar seu amor: entediante. Ela precisava de outras coisas além de dinheiro; precisava sentir adrenalina, poder, a indulgência de todos os seus caprichos. Nada disso Owen lhe proporcionava. Por isso ela havia caído rendida aos pés de Thomas: ele sim exalava perigo. Tinha aquela mistura exata de desinteresse, paixão, arrogância e descaro. Um homem à altura dela, alguém que ela considerava seu par. O flerte entre os dois começara nos últimos meses da gravidez. O peso da barriga, as dificuldades para se mover e continuar sua rotina a estavam enlouquecendo. Não via a hora de a menina nascer para se livrar dela. E se entediava terrivelmente. Então, numa noite, Owen teve a brilhante ideia de convidar seu sócio e várias outras pessoas para jantar em casa. Só queria dar a ela algo com que se distrair, porque a via exausta e irritada. Thomas e Elena já se conheciam, mas aquele jantar foi o início do relacionamento clandestino. Primeiro, mensagens ousadas; depois, telefonemas onde Elena falava com a voz carregada de desejo, dizendo toda sorte de indecências enquanto Thomas deixava escapar gemidos e sons úmidos. Mas só foram para a cama depois do nascimento de Eva — e o encontro fora explosivo, alimentado por todas aquelas insinuações e palavras obscenas. Começaram a se encontrar com mais frequência, em lugares afastados; hotéis escondidos. Mas quando o desejo cresceu, a razão diminuiu, e então passaram a esperar Owen sair de casa para que Thomas entrasse discretamente. O fato de fazê-lo na mesma cama que ela dividia com o marido dava uma pitada extra de excitação. Nos mesmos lençóis onde Eva tinha sido concebida, agora se concebia a traição. Thomas era voluptuoso na maneira de amar, um selvagem que a manipulava como uma boneca, fazendo-a gemer e gritar de dor. Assim Elena descobriu seu gosto por coisas um pouco violentas. O que Owen lhe oferecia já não lhe servia — era insosso, desprovido de qualquer desejo. Então sentiu necessidade de justificar aquela mudança brusca em seu apetite e descobriu que os sintomas da depressão pós-parto lhe caíam como uma luva. Mas as mentiras têm pernas curtas, e, eventualmente, ela calculou m*l. Ele a colocou para fora como a um cão, mas Elena levou tudo o que queria: o dinheiro — e nunca olhou para trás. Estabeleceu-se com Thomas em outro país, e a vida era boa, rodeada de luxos e com um marido muito mais temperamental e interessante do que Owen. Mas Thomas morreu de uma forma muito peculiar. Ao que parecia, sua família o havia afastado por causa dos “vícios”, do temperamento incontrolável e da paixão por jogos e abuso de substâncias. Um combo completo. E foi exatamente isso que o levou à morte: uma overdose misturada com álcool, numa mesa clandestina de cassino. Por um tempo, Elena lamentou a perda. Mas quando começaram a chegar os informes das ações que seu falecido marido havia deixado, ela percebeu que tinha muito mais dinheiro do que jamais imaginara; só precisava deixar que outra pessoa cuidasse dos negócios enquanto recebia os lucros sem mover um dedo.Com o tempo, porém, ela se entediou e decidiu que era hora de voltar para sua cidade natal. Reinstalar-se foi fácil. Logo deixou o hotel temporário e se mudou para um lindo apartamento no centro. Podia dar-se todos os luxos que quisesse. E em sua mente havia apenas um “gosto” que queria provar de novo: Owen Walker. Aquela imagem de homem poderoso, aqueles olhos quase mortos, toda aquela aura de tristeza e o quão incrivelmente sexy ele havia se tornado. Então planejou com cuidado como conseguiria isso. Seu primeiro movimento foi estratégico: entrou com uma ação para visitar a filha, Eva — embora, na verdade, não se importasse com ela. Esperava, com isso, voltar a entrar na vida de Owen e desestabilizá-lo outra vez. Sabia que a menina era sua fraqueza, que ele faria qualquer coisa por ela e que lutaria como um animal para mantê-la longe de Elena. Era exatamente o que queria: despertar nele desejo e ódio, tudo ao mesmo tempo. No passado, Owen fora um brinquedo perfeito, um fantoche fácil de manipular e enganar. Se jogasse bem suas cartas, era bem provável que conseguisse repetir o feito. Assim, Elena procurou um escritório de advocacia — mas não qualquer um; precisava ser renomado, o melhor. Enfrentar um homem que havia se tornado tão importante não era brincadeira; também precisava mostrar que estava à altura dele. — Dinheiro não é problema. Podem usar todos os recursos que acharem necessários. Levem isso até a última instância; se for preciso ir a um tribunal, melhor ainda. Quero os melhores, quero especialistas, quero quem faça Walker suar. Quero que ele fique nervoso, que se desestabilize, que não pense em outra coisa além da ação. Ele vai tentar barrar vocês de todas as formas, não me importa. Façam o que tiverem que fazer. Foram as ordens que ela deu naquela tarde no escritório de Petersson & Filhos. O próprio Dr. Petersson a recebeu pessoalmente; a dama, com seu tailleur impecável, porte delicado e belíssima, trazia consigo um talão de cheques assinado em branco. Como não atender aos pedidos de uma senhora assim? Satisfeito, reuniu seus advogados mais competentes e informou que se preparassem para o combate: enfrentariam Owen Walker e todo o império da Plaza&Milne IT. O raposo perde o pelo, mas não perde as manhas. Sua aparência de dama elegante escondia sua malícia, sua ambição e a falsidade de uma alma oca. Para a sorte de Owen, não seria tão simples quanto ela acreditava.
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