GIOVANNA Ele saiu sem dizer nada. Só aquele olhar. Um olhar que não me pedia nada, mas parecia saber tudo. Rafael era assim—feito silêncio e aço. Quando passou por mim, não desviou os olhos. Me encarou como se pudesse ver até as partes que eu escondia de mim mesma. O tipo de olhar que não pede licença, invade. E eu deixei. Por um segundo, deixei. A porta se fechou, e o silêncio voltou a ser meu único aliado. Eu ainda estava com a camiseta dele—preta, larga, com o cheiro dele grudado no tecido. Um perfume amadeirado, misturado ao gosto de cigarro e pólvora. Estranho como aquilo, ao invés de me afastar, me ancorava. Talvez fosse o cheiro de quem sobreviveu demais. Me joguei no sofá, as pernas dobradas, os cotovelos apoiados nos joelhos. Alcancei o maço de cigarros em cima da mesa, acendi

