Keira
Ibrahim respondeu abrindo meu corpo sob o dele, minhas pernas se enroscaram nas suas, o prendendo a mim, meus pés subiam e desciam apreciando a curvatura maciça da sua panturrilha, minhas costas arquearam em busca de contato com seu corpo, as garras subiram pela minha barriga e meu corpo inteiro se arrepiou, a mente concentrada no caminho sinuoso que traçavam rumo aos meus s***s, eles se retesaram tanto que meus m*****s doeram, Ibrahim grunhiu baixo.
— m*l posso esperar para estar dentro de você.
— Que boca suja. — Sibilei. — Essa língua safada está me devendo uma limpeza.
Ele avançou, uma fera avançando contra a presa, senti a total força do seu ser quando sua boca se chocou contra a minha, tempestuoso e destrutivo, cedo demais ele interrompeu o beijo e escorregou sobre mim, posicionou-se entre minhas pernas, as garras cravaram-se no meu quadril me ajustando na sua boca e ele banqueteou-se, o choque percorreu meu corpo quando ele mordeu minha i********e, não perfurou a carne macia, mas deixou marcas e então ele me lambeu, tão dolorosamente lento, que minha excitação deixou minhas coxas úmidas, a sua língua devorou cada rastro de umidade e aquele monte de nervos pareceu entrar em frenesi, em seguida sugou minha entrada como se quisesse consumir tudo, ele estava me devorando.
Ele não parou, as presas roçaram minha pele, então, sua língua investiu e eu me desfiz, me despedacei num milhão de pedaços, ainda gemia quando ele se ajeitou em cima de mim, mordeu meu pescoço e com os caninos ainda perfurando minha pele entrou em mim com uma estocada lenta e determinada, dor explodiu entre minhas pernas, lágrimas arderam nos meus olhos e seus dentes pressionaram o meu pescoço quase até a base da clavícula me mantendo cativa, isso me distraiu do resto, aquela pressão deliciosa foi um gatilho para me desfazer ao seu redor, mesmo que meu corpo inteiro protestasse contra aquela invasão.
Ele parou, apenas nossas respirações perturbavam o silêncio, percebi que estava de olhos fechados, os abri e encontrei um Ibrahim completamente pálido e furioso.
— Você era virgem. — Rosnou com uma fúria que quase me fez encolher.
Ele ergueu-se um pouco e olhou para onde os nossos corpos estavam unidos, se retirou, segui seu olhar horrorizado e estremeci ao ver o resquício do sangue, fragmentos do meu hímen grudados nele, meu rosto queimou de vergonha e com sentimentos que não sabia nomear.
— p***a. — Xingou e olhou-me em pânico. — Se tivesse me dito teria sido gentil... eu...
— Se tivesse dito você não iria em frente.
— Claro que não! — Rugiu e escovou o cabelo com força para trás, o sol lançava reflexos dourados nele, lindo... ele era tão lindo.
Comecei a sentir-me envergonhada e cobri os s***s com ambas as mãos, o t***o fugindo do meu corpo e deixando apenas a dor para trás, o meu sangue esquentou com a raiva, que tipo de macho se deteria diante de uma fêmea disposta e aberta bem na sua frente?
— Está com raiva? — perguntou ainda em cima de mim, mas mudando o peso do seu corpo para os braços. O encarei surpresa. — O seu cheiro mudou. — disse com pesar.
— Claro que estou com raiva. — Sibilei. — Literalmente me joguei em você e mesmo assim... mesmo assim...
— Ainda acredita que não a desejo?
— Sei que me deseja, não sou burra. Mas você não se entrega completamente e eu...
— Bruxa gananciosa. -Ronronou e me arrepiei.
— Sim, sou uma bruxa gananciosa. — Rebati e ergui as mãos acariciando seu peito musculoso. — Então dê-me o que desejo, dê-me tudo.
E ele me deu, Ibrahim mergulhou no meu corpo com uma fúria renovada.
Nos movemos juntos, uma tempestade de corpos em choque, sombras se chocando contra luz e não conseguia me conter, tinha medo de machucá-lo, minha magia se agitava a cada estocada dele, sombras formavam arabescos e se enroscavam em luzes, como se as beijasse e se afastassem, como numa dança.
— Não se segure.
Grunhiu no meu ouvido, então não me segurei, e quando alcancei o ápice ele me acompanhou, Ibrahim rugiu e sua luz brilhou mais dourada do que nunca e com ela as minhas sombras se elevaram, e ele ficou ali.
Ibrahim permaneceu enterrado em mim, me olhando com tanto fervor e admiração, então ele me beijou, eu o beijei, e aquela fome voraz acendeu-se novamente, então, ele estava se movendo dentro de mim de novo, mas de repente girou sem nos separar e fiquei por cima dele, gemi quando ele se ajustou se enterrando mais profundamente em mim.
— Quero testar uma coisa…
Fechei os olhos contemplando aquela sensação de plenitude, não conseguia me concentrar para perguntar, não conseguia pensar, não quando ele recuou e impeliu o quadril contra mim, devagar, tão malditamente devagar que senti todo meu canal ser preenchido por ele, cada músculo do meu corpo tensionou e relaxou, ele parecia muito mais espesso e comprido e me deliciei com cada centímetro de reentrada, mas minha visão ficou mais escura, foi como descer numa espiral de luz e mármore, pensamentos confusos me atordoaram, um quarto escuro, uma cama vermelha e cordas douradas que mantinham um leão imóvel e vulnerável.
Abri os olhos a tempo de ver o brilho de Ibrahim esmaecendo, um flash e ele ficou mais fraco, os olhos dele estavam vidrados em mim, como se ele estivesse tentando se concentrar, focar a mente em um lugar, como eu quando precisava me concentrar nos primeiros meses quando alguém me tocava, eu estava na mente dele novamente e finalmente entendi o motivo da sua resistência
comigo.
Aquilo me arrasou, me esforçei para sair da sua mente sem que ele percebesse que estava lá, acariciei o seu peito e ele piscou como se estivesse saindo de um transe, me inclinei para beijá-lo carinhosamente, como um pedido de desculpas e me afastei, enojada com meu comportamento hoje, o que ele dever ter pensado de mim? Como pude ser tão invasiva e inescrupulosa? Fiz menção de sair de cima dele, mas suas mãos me prenderam no lugar.
— Não. Por favor, continue, é a primeira vez que eu quero…
Aquilo me cortou, o olhei em dúvida, mas o apelo silencioso em seus olhos fez com que eu me inclinasse sobre ele, o beijei de novo e de novo, agradecendo por ele confiar aquilo a mim, ele se encaixou mais profundamente e gemeu meu nome contra minha boca, o beijei novamente, me mexi suavemente deslizando sobre ele, eu o faria esquecer todo o resto, como um pagamento pelo que estava planejando fazer com ele, o faria ter boas memórias, o faria desejar que o montasse todas às vezes, então, sentei-me, apoiei minhas mãos no peito largo e rígido.
Lentamente eu o montei, esperei até que o brilho dele se acendesse, então ele grunhiu, os seus olhos brilharam com uma luz de tirar o fôlego o dourado imerso no verde pareciam raios de sol invadindo uma floresta, Ibrahim estremeceu e começou a impulsionar o quadril para cima com força, transando comigo de volta, eu arqueava e ele empurrava, a sincronia era perfeita, Ibrahim alcançou o êxtase em seguida arquejando e brilhando como nunca, luz dourada mesclou-se com sombras até que elas sucumbiram a luz, ele murmurava meu nome enquanto transbordava em mim, quando terminamos permaneci em cima dele, deitada no seu peito, ofegante e em parte, satisfeita.
— Precisaremos encontrar um local seguro e discreto para fazermos isso.
— Acho o brilho muito excitante.
— Você pode acabar ficando cega.
— Se estiver dentro de mim não me importo.
— Não fale assim. — Ele falou com tristeza e ergui a cabeça para observá-lo. — Faz parecer que me quer apenas para sua cama.
— Nem usamos uma cama, isso pode parecer c***l, mas uma parte de mim, fica aliviada por não saber do seu real potencial, e nem estou falando do que acabamos de fazer.
— Ora, um elogio vindo de vossa alteza?
Fiz uma careta e ele riu, uma risada cheia de malícia arrogante e sensual.
— Jamais, já é arrogante demais sem elogios.
— Certo, longe de mim espalhar por aí que me elogiou, não quero ser chamado de p*u milagroso.
— Que ousadia, alteza, ninguém o chamaria assim. Está mais para uma varinha encantada.
— Como uma monstruosidade dessas, pode ser chamada de varinha?
— Sua indignação é deprimente. — Murmurei ceticamente, ele gargalhou.
— Tenho algo muito menos deprimente para lhe mostrar.
Ele sorriu e apoiou as mãos em baixo da cabeça, olhando para baixo, aquela pose em meio ao campo de trigo era tão peculiar e carnal, ele parecia pensar o mesmo, pois senti seu m****o tremer em baixo de mim. Seu sorriso se alargou e ele me olhou, o retrato da arrogância de alguém que sabe que é atraente.
Eu quis imediatamente tirar aquela satisfação dele.
— Bem, estava começando a achar que sua varinha perdeu o encanto.
Ele rosnou e me mostrou um sorriso afiado ao me impulsionar para cima quase me derrubando.
— Não quer treinar uns feitiços com a minha vara encantada?
Sorri, ah eu queria muito mais do que praticar feitiços.
(...)
— O que é isso?
Ibrahim perguntou enquanto me ajudava a vestir sua camisa, congelei e me xinguei, a água deve ter tirado a maquiagem das minhas costas, deveria ter lançado um maldito feitiço, embora duvido que me daria melhor mantendo o encantamento depois do que fizemos, me virei para ele fingindo confusão.
— O quê?
— Como o quê? — ele se aproximou, me virou e ergueu a camisa até o meio das minhas costas. — Esse símbolo nas suas costas, vi quando saiu do lago, mas pensei que era uma daquelas coisas que fazem no mundo dos homines.
— Uma tatuagem?
— Isso mesmo. Mas olhando de perto, a tinta parece se mover, é coisa daqui.
Apertei os lábios, isso não seria bonito.
— É um Claddagh? — Ele franziu o cenho, depois sua expressão endureceu e ele me olhou com raiva. — Está comprometida com alguém?
— Não. Toda a Everness saberia se estivesse comprometida com alguém.
— É o significado desse símbolo, se não está comprometida com alguém, isso pode ser sua Insígnia.
— Não é. — Afirmei, me afastei e terminei de me vestir cobrindo minhas costas e impedindo-o de analisar mais a fundo.
— Como pode ter certeza?!
Vociferou ao se abaixar para pegar a calça no chão, me irritei, ele já estava agindo como se a culpa fosse minha, quando eu nem sabia o que estava acontecendo direito.
— Disseram que isso não é algo que possa ser ignorado, mas não sei a quem está ligado. Quanto a sua outra hipótese, passei o dia com você, se fosse uma Insígnia isso significaria que você é meu companheiro. Por acaso tem algo nas suas costas?
— Não há nada em minhas costas, talvez devesse olhar as de Aina, ou as daquele macho no qual estava se esfregando ou em qualquer outro com quem tenha desejado trepar, deveria mesmo olhar as costas de todo mundo!
O estalo da tapa foi seguido por uma dor na palma da minha mão, o rosto dele m*l se virou com o impacto.
— Não irá me ofender falando assim. Sou livre, posso trepar com quem quiser e quantas vezes quiser e não cabe a você julgar. Estou começando a me arrepender de ter feito isso primeiramente com você!
Furiosa me dirigi à margem do lago e peguei minhas sandálias, tinha que voltar, no entanto, não sabia o caminho, comecei a andar em qualquer direção, m*l havia me distanciado do lago quando ele me segurou e me puxou para si.
— Me solte!
— Droga, sinto muito, sinto muito.
— Você estragou tudo!
— Eu sei, eu sei… me perdoe. Me descontrolei, a ideia de que poderia pertencer a outro… fiquei louco.
— Pertenço a mim mesma, não sei o que esse símbolo é, mas certamente não é um certificado de posse, porque ninguém além de mim irá possuir-me.
— Merda, isso não devia acontecer, mas me deixou e******o.
— O quê?! — perguntei sem fôlego e ele suspirou.
— Esqueça, irei nos levar de volta.
Ele tentou segurar minha mão, mas me esquivei e ele me encarou, o olhar confuso chocou-se com o meu, então, assombro e algo mais quando ele viu que havia me atiçado novamente.
— Não é uma boa ideia. — disse entredentes.
Eu até poderia concordar, mas o volume em sua calça o denunciou e minha boca secou ao me deparar com aquela promessa de mais.
— Me irritou. É bom me deixar muito cansada para amenizar minha raiva.
Ele grunhiu, então, avançou.
(...)
Entrei no quarto e fechei a porta, escorei-me nela, estava exausta e precisava dormir...
— Precisa de um banho, está fedendo a gato.
Me virei alarmada para a varanda a tempo de ver Amon caminhar displicentemente pelo guarda-corpo.
— E então, descobriu algo?
Ele saltou para dentro e olhou ao redor, em seguida se aproximou e se transformou em homine me olhando com censura, revirei os olhos ao entrar na sua mente.
— Apenas leia meus pensamentos é mais seguro, seria suspeito se lançasse feitiços de proteção, estamos sendo vigiados. — bufei e ele sentou-se ao meu lado e de costas para a porta. - E não, não descobri nada, seria muito fácil. Por algum motivo a cobertura das sombras me abandonou e não tive tempo de analisar todas as proteções que envolvem a pedra.
— E quanto aos documentos, não encontrou nada?
— Eles não seriam burros o suficiente para manter relatórios disso, minha senhorita.
— Então não temos nada?
— Não disse isso. — Ele esticou as pernas num movimento elegante e percebi que estava prestes a palestrar. — Os feitiços que protegem a pedra diferem do padrão.
— Compreensivel.
— A senhorita não entendeu, o feitiço que usaram não repele apenas magias distintas, ele repele a própria magia de luz.
— O que quer dizer?
— Que a atual rainha não quer que seus filhos tenham acesso à pedra de Oduím.
Me endireitei, minha mente exausta trabalhando rápido demais, nunca vi Aina conjurar luz, nem uma única vez, nem mesmo quando brigamos no banheiro e minhas sombras não mostram nenhuma reação a ela, não como mostram perto de Ibrahim.
— Talvez queira que um filho específico não tenha acesso. — Murmurei comigo mesma.
— Não entendi.
— Mesmo que Aina não conjure luz, ela será reconhecida como herdeira pela pedra?
— Sim, independente dos dons que herdou, o que importa é a linhagem, mas ela só terá acesso quando a rainha passar a coroa para ela.
— Então, ela não tem acesso agora?
— Não, apenas a rainha creio eu.
Cruzei as pernas e fechei os olhos devagar, todos os momentos que passei com Ibrahim vindo em cascatas pela minha mente, a reação das sombras a ele, sua determinação em me evitar até o final, aquela discussão horrenda com a rainha, o meu peito encolheu diante das possibilidades que se avolumavam á minha frente.
— Está pálida, está tudo bem?
— Precisamos sair daqui, preciso visitar a Arantha.
(...)
“O fracasso pode nos afundar, ou nos levar a tentar com mais afinco.”
Era o que dizia a mim mesma ao tentar concentrar-me novamente para infundir magia, minha cabeça ainda zunia com suspeitas e teorias a respeito da queda de Caelestis, tive sorte, graças as artimanhas da rainha, Aina foi enviada a uma cidade vizinha no dia seguinte a festa, a fim de resolver um problema no comércio local, a rainha não me chamou e nem fez menção de reconhecer minha presença como realeza de outro reino, ainda era tratada como uma simples convidada, era óbvio que estava me testando ao diminuir minha importância, era mais claro ainda que ela queria afastar Aina e me deixar sozinha com Ibrahim, há dias evitava as pessoas me esgueirando pelas sombras, mas não demoraria até o príncipe ou Mei me confrontarem.
Estava tão perto de saber o que havia acontecido que comecei a temer as respostas, mas precisava delas.
Pretendia visitar a Arantha e para isso precisava ir sozinha, apenas eu e Amon, e isso seria muito difícil, escapar dos olhos dos guardas do castelo foi fácil, usei minhas sombras e fugi com Amondiel no meu encalço, fomos em direção a campina e corri para um bosque que me daria a cobertura necessária.
Mei havia me ensinado a arte do Tai Chi Chuan, uma arte marcial voltada a meditação em movimento, graças a minha adaptação com alguns movimentos de ballet, arranjei uma forma de moldar a magia dentro de mim e trazê-la para fora em segurança e com um pouco de polimento, graças à isso a minha prática em usar meu poder melhorou.
Um movimento, inspirar e expirar, acariciar a crina do cavalo.
Inspirar e expirar, a garça branca abre as asas.
Inspirar e expirar, a magia emerge até a superfície e faço um plié, cavando mais fundo, inspirar e expirar, apenas um pouco, preciso apenas de um pouco, então executo o tendu, um movimento com as mãos, como se acariciasse a magia e a afagasse como um gato, as sombras sibilaram e o poder explodiu, abrindo um buraco n***o no mundo, olhei para Amon e ele aquiesceu, entramos e fomos jogados num vórtice de sombras e escuridão que me lembrou de penhascos sombrios e águas escuras abaixo de um céu estrelado.
Me senti como se tivesse sido engolida pelo mundo, o latido de Amon foi urgente, caímos atordoados e bati o rosto contra o chão úmido e gelado, me ergui ofegante e cuspi terra, havia conseguido.
Eu consegui transirar, um sorriso largo ameaçou partir meu rosto em dois, mas isso durou segundos, apenas até minhas sombras sussurrarem, euforicamente...
Não devíamos estar aqui.
Não devíamos estar aqui.
A floresta está morta.
Ele está aqui.
Devemos ir.
Percebi horrorizada que não estávamos em Malefici, não conseguia ouvir os sons da floresta, ela estava quieta.
Quieta demais.
— Minha senhorita? — Amon começou, ergui a mão ao sentar-me e ele ficou em silêncio e fez o mesmo erguendo as orelhas.
— Está ouvindo? — Perguntei baixinho sem ousar me mover, as sombras se retraíram.
— Não ouço nada. — Declarou no mesmo tom.
— Exatamente.
Burra, Keira… eu era burra e estúpida demais.
Perdi a mão na magia, tive a vaga sensação de que estava muito longe da escola, longe de qualquer coisa habitável e segura, Amon parecia tenso e a floresta também não parecia familiar a ele, percebi pela sua expressão, ele olhou ao redor preocupado.
— Essa floresta é antiga.
Disse ao farejar o ar, havia árvores imensas ao nosso redor, tão frondosas que impediam a luz de chegar ao solo, algumas eram um tanto quanto esqueléticas e altas demais, como se houvessem sido esticadas contra sua vontade, o cheiro salgado do mar me alertou, estávamos perto do oceano, mas o silêncio da floresta me deixava inquieta, nada de gaivotas, nada de insetos ou qualquer tipo de ruído de coisas vivas, havia um predador à espreita e a floresta estava ciente dele.
— Não devemos ficar parados. — Disse baixinho.
Ele assentiu e começamos a caminhar pela floresta escura.
— No que pensou ao vir para cá? — Perguntou depois de algum tempo.
Com certeza estávamos caminhando a mais de meia hora, estava começando a ficar com fome enquanto olhávamos em volta pisando com cautela no chão irregular.
— Não sei direito, não lembro.
Ele parou ao subir em um tronco largo e retorcido, e me olhou.
— Qual foi seu último pensamento? Tente se lembrar. — Mordi o lábio revendo cada passo do que fiz, eu pensava... pensava naquele penhasco.
— Amon… — Sussurrei temerosa. — Acho que estamos em um dos lugares que apareceram nos meus sonhos.
Fechei os olhos e deixei um pouco de poder fluir nas minhas veias, devagar, um pouco mais devagar, pensei no que desejava fazer, aonde queria ir, mas nada aconteceu.
Tentei mais vezes, Amondiel se sentou, esperando, nada aconteceu.
— Acho que entramos numa região enfeitiçada.
— Não conseguiremos transirar daqui. — Constatou impassível, mas seu olhar estava inquieto.
Suspirei desanimada, a preocupação começou a se infiltrar em meu coração.
Um calafrio desceu por minha espinha, encarei o pelo alvo de Amondiel, de repente ele parecia chamativo demais naquela floresta escura, nós diferíamos demais, precisava distorcer aquilo, meus cabelos estavam presos em duas tranças gladiadoras, as pontas platinadas roçavam no meu quadril.
Fiz as alterações, lentamente, mas com precisão.
Imaginei meus cabelos pretos como nanquim, olhos escuros feito obsidiana, pele um pouco mais castigada e manchada, uma leve irritação no nariz e estava feito, ao abrir os olhos deparei-me com Amon numa pelagem escura, olhos de um tom assombroso de castanho, ele era lindíssimo.
— Boa ideia. — Ele acenou positivamente. — Usar nossa aparência verdadeira pode não ser seguro, muitos sabem sobre nós e daríamos uma boa recompensa se fossemos capturados e levados aos servos dele.
— Deveríamos nos separar. — Sugeri.
— Isso é burrice. — Rosnou. — Não conhecemos este lugar, seria melhor ficarmos juntos enquanto procuramos uma forma de sair daqui.
Encarei Amon com firmeza, estava preocupado, ele raramente ficava tão preocupado assim, e aquilo me deixou ainda mais nervosa, iríamos abranger mais terreno separados, queria evitar usar minhas sombras, talvez fosse mais seguro assim, ninguém fora de Malefici sabia das sombras, não completamente, me abaixei até estar à altura dele.
— Sei que não gosta disso, mas é o melhor á fazer no momento. Você sempre irá me encontrar e eu sempre irei procurá-lo. — ele rosnou, entendi aquilo como uma concordância, levantei-me.
— Vá para o sul, irei para o norte, se não encontrarmos um lugar seguro para transirar ou nenhum tipo de ajuda, iremos nos encontrar aqui.
Assenti, me embrenhei na mata e olhei por sobre o ombro, Amondiel ainda estava me olhando quando a mata escura e doente me engoliu e mesmo a luz do dia parecia que ele havia sido eclipsado pela escuridão da floresta.
O único ruído era da minha respiração, então tratei de silenciá-la, consegui desviar de galhos e pedras, folhas secas que denunciariam minha posição se fossem pisoteadas.
Depois do que pareceu uma eternidade, através das árvores vi um precipício e ao longe o mar escuro e violento, me aproximei da borda á passos pequenos e contidos, com receio de que a terra cedesse, olhei para a queda vertiginosa e meu estômago deu um salto.
Aquele lugar era familiar, familiar demais, olhei ao redor, a familiaridade daquela paisagem aqueceu meu peito, reconheceria aquele lugar de olhos fechados, me senti diferente naquele lugar, exatamente como me sentia ao acordar de cada sonho, eu me sentia em paz, acolhida e...
Uma flâmula de luz passou entre as árvores, não havia lugar para se esconder, então ouvi os passos, pesados, lentos, incautos, então surgiram as vozes, gruturais e irritadas, e eles surgiram, a pele parecia rocha, acinzentada e dura, os corpos grandes e largos, dentes amarelados e tortos, olhos grandes e redondos escuros como a meia-noite, mãos grandes capazes de esmagar a cabeça de uma pessoa, exatamente como as gravuras dos livros... Orcans.
— Olá. — Cumprimentou a criatura, o mais atarracado do grupo. — O que faz aqui pequenina?
Aquilo me pegou de surpresa, esperava urros e gritos, qualquer coisa menos aquilo.
— Estou perdida. — Sussurrei, eles entreolharam-se e suas bocas se curvaram de forma horrenda.
— Péssimo lugar para se perder. — Dei um passo para perto do precipício, eu me jogaria se necessário, mas não seria levada por aquelas coisas.
A tensão se alojou em meu corpo, esperando qualquer movimento deles, eles pareciam se divertir, como se também estivessem esperando uma reação, mas eles estavam se divertindo, eu não. Não poderia usar meus poderes, mas que outra opção eu tinha? Grunhi, indecisa sobre o que fazer, quando estava quase correndo para a queda, um crepitar nos alertou da presença de alguém.
— Aí está você, eu me atrasei.
Reprimi a vontade de me encolher ao sentir um corpo grande e rígido me engolfar em calor, mãos possessivas deslizaram pelo meu rosto, passando pela lateral do meu pescoço até descansar em minha nuca, o polegar largo acariciou levemente meu maxilar, fiquei perplexa ao notar que meu rosto cabia facilmente naquela mão, o conhecimento disso me forçou a me afastar, mas ele aumentou a pressão em seus dedos e me contive, quieta e muda.
— Obrigado por cuidarem dela, vão passear em outro lugar.
— Como saiu da cela?
— É uma ordem. —Meu corpo ficou ainda mais tenso, como se pudesse ser quebrado a qualquer momento, os Orcans apontaram as lanças e fiquei petrificada. — Gostaria de apreciar meu tempo livre com minha bela senhorita e não quero curiosos por perto, como sabem, não saio há algum tempo e não gostaria de plateia enquanto resolvo os meus assuntos.
Os Orcans não se moveram, senti a magia se agitar, o macho suspirou como se estivesse entediado, com um simples gesto de dispensa, os três grandalhões abriram caminho e rumaram em direção ao precipício, pálidos e barulhentos, eles fincaram os pés largos no chão abrindo fissuras na terra e arrastando pedras, mas de nada adiantou e foram arrastados para a morte, era como um show de marionetes bizarro, e um a um eles despencaram para o abismo, um barulho horrível ecoou pelas rochas, seguido de outro e mais outro, segundos depois tudo foi abafado pelas ondas barulhentas.
— Não se preocupe, são inofensivos agora.
Inofensivos? É óbvio, eles estavam mortos!
Não era com eles que estava preocupada, não mais, afinal não eram eles que me mantinham refém num abraço de urso, como se sentisse minha insegurança, ele soltou-me e afastei-me, fiquei tentada a espiar o resultado da queda dos Orcans, mas com medo do que poderia ver.
— Aja normalmente, ainda estou sendo seguido. Desculpe-me por isso.
Me virei para esclarecer o assunto, mas meus olhos se cravaram em meu captor de um jeito que não gostei nada, ele arrastou-me floresta á dentro, meus olhos analisaram cada característica daquele rosto assombrosamente austero e sobrenaturalmente bonito, pescoço musculoso demais para que eu o decapitasse, queixo quadrado forrado por uma barba n***a, espessa e grossa, lábios cheios que mesmo fechados se curvaram num sorriso atrevido ao perceber que eu estava o analisando, pior, que estava gostando do que via, mas de alguma forma aquele sorriso não combinava com aquela expressão, deixei os olhos por último, algo em meu interior me dizia que no momento que olhasse dentro deles não conseguiria atacá-lo ou ir embora.
E eles eram mais encantadores e mais magnéticos do que havia imaginado, eram ardentes, grandes e vermelhos, a íris preta, uma cicatriz ameaçava pôr em risco o conjunto daquela obra, ela ia do seu olho esquerdo quase até o queixo, dando um aspecto c***l a ele, mas aquilo apenas o deixava mais atraente, o cabelo era curto e castanho-escuro parecia errado, como se a sua beleza fosse perigosa e bruta e o cabelo fosse delicado demais, a exceção disto, o conjunto todo era enigmático.
Brusco e predatório, mas havia algo de cativante nele.
Lentamente, os olhos atenciosos se tornaram fulminantes e cheios de ira, por um instante o medo me dominou e os pelos dos meus braços se eriçaram, mas foi apenas um segundo, apenas até ouvir a sua voz anormalmente áspera.
— Não devia estar aqui.
Espantei-me ao perceber que aquela voz não saíra da sua boca, e pior, aquilo obviamente era um aviso, de fato era, mas soou como um desafio muito atrativo.
— E-eu estou perdida. — Gaguejei.
Não conseguia desgrudar os olhos dele, seu rosto suavizou-se, mas ele ainda estava sério, os olhos pareciam curiosos e ao mesmo tempo insatisfeitos.
— E eu a encontrei.
Disse suavemente, tentei balbuciar algo, não entendia de onde estava vindo aquele som sendo que ele não mexeu os lábios, tentei inventar alguma desculpa decente para me afastar daquela criatura e nada parecia satisfatório.
— Preciso ir. — Disse forçando meu corpo perplexo a se virar na direção oposta, estávamos no meio da floresta, não consegui me mexer e continuei encarando o estranho.
— Perdão, esqueci seu nome.
Proferiu num tom despreocupado, que deveria soar despreocupado, mas foi uma tentativa muito desastrada, achei aquilo fofo, embora o meu salvador parecesse mais um urso, e não digo isso pensando num doce panda, algo como um urso das montanhas é mais adequado, sorri.
Mesmo assim, ele parecia ser do tipo que sempre conseguia o que queria, com palavras ou com força e ainda havia a magia... me lembrei dos Orcans e do quanto aquele macho poderia ser perigoso.
— Não, não esqueceu. — Esclareci e me virei para ir embora. — Eu não o disse.
Comecei a caminhar, passos lentos e firmes, uma tentativa sútil de não demonstrar o quanto estava ansiosa para sair dali e ir para longe, fugir daquela presença esmagadora e magnética que atraía de uma forma inexplicável.
— Tem razão, não disse. — Parei ao notar o riso na sua voz. — Foi um prazer, estranha sem-nome. Não perambule pela floresta escura.
Me virei, tentada a olhar uma última vez para ele, um sorriso misterioso curvou seus lábios.
— A propósito, de nada. — Não poderia deixar ele com a última palavra, pior, precisava demonstrar que não estava abalada, o deboche soou mais corajoso do que eu me sentia, ele riu.
— Ficaria bem sem sua ajuda. — Rebateu e crispei os lábios, me sentindo ofendida.
— O fato de não precisar, não significa que não me deve um agradecimento. — Voltei a caminhar ignorando a sua presença, muito irritada com a resposta arrogante.
— Obrigado. — Disse, a voz dançando com um sorriso sarcástico e me virei novamente.
— Adeus. — Proferi desconfiada, em algum lugar distante da floresta fria e escura, um lobo uivou.
Amondiel.
E eu corri.