Sábado. O dia amanheceu com um céu cinzento, parecendo refletir meu próprio estado de espírito. Enquanto meu motorista me conduzia em direção ao aeroporto, eu me encontrava imerso em pensamentos profundos. Os últimos acontecimentos haviam sido como um vendaval, revirando tudo o que eu acreditava ser certo e seguro.
O nome do assassino do meu pai finalmente fora revelado, uma verdade que trouxe consigo um misto de satisfação e raiva. O rosto de Otto não havia sido revelado, mas sentia em minhas veias que iria encontrá-lo mais cedo do que pensam. Mas essa não era a única revelação que abalava minhas fundações.
A traição de Maria, minha própria cunhada, ainda ecoava em meus pensamentos. Descobrir que ela estava alinhada aos interesses daqueles que destruíram minha família foi uma facada no coração. E saber que ela era irmã de Mariana, minha ex-noiva, apenas intensificava o turbilhão de emoções.
Contudo, foi a descoberta da minha paternidade que talvez tenha deixado a marca mais profunda em minha alma. A notícia de que eu tinha uma filha chamada Giulia, deixou-me atordoado. O fato de que essa informação me foi mantida oculta por tanto tempo era uma ferida que ainda doía, uma ferida que tinha sido aberta e agora pulsava incessantemente.
Um suspiro escapou dos meus lábios ao relembrar todas essas descobertas. Minha vida estava longe de ser o que eu imaginava. Meu papel como CEO da Miller Company, ao lado da responsabilidade de liderar a maior máfia europeia, estava se entrelaçando de maneiras que eu nunca poderia ter previsto. Mas eu não me permitiria ser engolido pelas circunstâncias.
Jurei a mim mesmo, naquele carro silencioso, que as coisas iriam mudar. Eu honraria o nome do meu pai, limpando a bagunça que minha própria vida havia se tornado. Otto seria encontrado, a traição de Maria seria retribuída, e Giulia encontraria seu lugar em minha vida.
O olhar perdido pela janela do carro se fixou nas ruas movimentadas da cidade, mas minha mente estava em outro lugar. A determinação havia se instalado em meu peito, uma chama que não poderia ser apagada. As sombras do passado não me dominariam, eu me ergueria como um Bianchi, como um líder, como um pai.
A cada quilômetro percorrido em direção ao aeroporto, meu foco se tornava mais nítido, minha resolução mais forte. O passado havia lançado suas garras sobre mim, mas eu estava decidido a quebrá-las. A partida para a Itália não seria apenas uma viagem geográfica, mas uma jornada interior, uma batalha pela minha própria redenção.
Enquanto o carro avançava rumo ao aeroporto, uma pontada de lamentação me atingiu. Eu não me despedir de Ellen. Não queria que ela visse a faceta sombria do meu mundo, não queria arrastá-la para os abismos onde minha mente muitas vezes vagava. Mas, ao mesmo tempo, algo dentro de mim ansiava por sua presença, por seu apoio, por sua compreensão.
A luta interna entre meus sentimentos por ela era como uma tempestade que rugia dentro de mim. Eu estava acostumado a ser o homem forte, o líder inabalável, mas Ellen mexia com a fundação das minhas certezas. Era como se eu estivesse olhando para um espelho que refletia partes de mim que eu mantinha escondidas até mesmo de mim mesmo.
E então, o momento de reflexão foi interrompido quando finalmente entrei no jato particular. A surpresa me atingiu como uma onda quando meus olhos encontraram Ellen sentada lá. Seu sorriso doce iluminou a cabine, e por um instante, eu me senti quase sem palavras.
— Ellen... – minha voz saiu quase como um sussurro, a surpresa pintada em minha expressão.
Ela se levantou com graça e deu um passo em minha direção. Seus olhos brilhavam com gentileza e determinação.
— Não vou deixar você enfrentar o que quer que esteja acontecendo sozinho, Donatello. – Ela falou, sua voz suave como um conforto em meio ao caos.
Eu não conseguia deixar de olhar para ela, absorvendo cada detalhe do seu rosto. Seu gesto, sua presença, aquela aura de doçura e coragem que ela emanava, tudo isso me deixou momentaneamente atordoado.
— Ellen, eu... – tentei encontrar as palavras certas, mas minha mente estava em um redemoinho.
Ela se aproximou, estendendo a mão e tocando suavemente meu rosto. Seu toque era como um bálsamo para minha alma atribulada.
— Não precisa dizer nada, Donatello. Estou aqui. Eu sei que você está passando por algo difícil, e não vou fugir.– seus olhos brilham quando seu dedo contorna meu lábio. – Vou enfrentar isso ao seu lado, como sua amiga, como alguém que se importa.
Uma onda de gratidão e admiração percorreu meu ser. Ellen era uma luz em meio às minhas trevas, uma âncora que eu não sabia que precisava até encontrá-la. Eu a observei por um momento, deixando a doçura do momento envolver-me, e então, de forma instintiva, minha mão encontrou a dela, entrelaçando nossos dedos.
— Obrigado, Ellen. – Minha voz saiu rouca, carregada de emoção.
Seu sorriso suave se alargou, e ela deu um passo mais perto, seus olhos encontrando os meus.
— Vamos enfrentar isso juntos, Donatello. Não importa o que seja. E eu prometo, estarei ao seu lado o tempo todo.
E então, sem pensar, eu a puxei suavemente para mais perto e a beijei. Foi um beijo calmo e carinhoso, cheio de gratidão e reconhecimento pela mulher incrível que ela era.
O jatinho voava suavemente pelo céu, suas luzes internas lançando um brilho suave sobre o interior da cabine. Ellen estava dormindo ao meu lado, seu rosto tranquilo e sereno na penumbra. Eu a observava, fascinado por sua beleza natural e pela paz que parecia envolvê-la enquanto dormia.
Seus cílios lançavam sombras suaves em suas bochechas, e o leve movimento do seu peito subindo e descendo ao ritmo da respiração era hipnotizante. Em um momento, ela mexeu-se levemente, os olhos se abriram e ela sorriu gentilmente ao me ver olhando para ela.
— Dormi muito tempo? Já estamos chegando? – Sua voz era suave e sonolenta, carregada de curiosidade.
— Ainda falta um pouco para chegarmos. Descanse mais um pouco, Ellen.
Ela esticou os braços, alongando-se preguiçosamente, e lançou-me um olhar zombeteiro.
— Você estava me observando dormir, Sr. Miller? – Ela brincou, suas palavras acompanhadas por um sorriso travesso.
Revirei os olhos, tentando não deixar transparecer meu desconcerto.
— Não exagere, Ellen. Estava apenas aproveitando o momento de tranquilidade.
Ela riu, o som suave preenchendo o espaço da cabine.
— Ah, claro. Nada de sentimentalismo por trás disso, certo?
Antes que eu pudesse responder, Ellen se inclinou em minha direção, suas pernas se espalhando de cada lado do meu assento, prendendo-me suavemente no lugar.
— Você é tão ranzinza, Donatello. – Ela brincou, um sorriso provocador em seus lábios.
Eu estava prestes a retrucar quando ela continuou, sua voz agora carregada de malícia e ousadia.
— Mas sabe o que eu percebi? Fica muito sensual quando está com raiva.
Um arrepio percorreu minha espinha com suas palavras provocantes. Ellen sorriu maliciosamente, mordendo seu lábio inferior de forma tentadora.