Capítulo 14

1011 Palavras
— Vamos — disse Alícia com suavidade. — Todo mundo já chegou. Amália sentiu o estômago apertar. Era real. Não havia mais tempo para fingir que aquilo não aconteceria. Ainda assim, apesar do temor, ela queria ver de quem se tratava. Quem era a pessoa que tinha exigido que fosse ela a estar ao seu lado. Ela ergueu a barra do vestido e caminhou até o espelho. Cada camada de tecido parecia um lembrete do que estava prestes a acontecer. Ela fitou o próprio reflexo, observando a mulher de olhos castanhos assustados. Os seus lábios, cuidadosamente pintados com um batom cor de cereja, destacavam-se em seu rosto mais pálido. Os cabelos caíam naturais e soltos pelas costas, chegando até a cintura. Ela estava mais do que linda — estava perfeita aos olhos de todos. Durante anos, havia repetido a mesma história para si mesma: que ele havia destruído a sua felicidade; que era alguém que ela devia evitar. Temer. Odiar. Mas então… Por que ele nunca tinha sido c***l com ela? Por que sempre parecia… observá-la? Cuidar dela de longe? Aquilo não fazia sentido. E talvez fosse justamente isso que mais a incomodava. Se o seu noivo fosse alguém c***l e insensível, seria mais fácil odiá-lo. Mas ele não era assim. O seu noivo misterioso era atencioso, preocupado com cada detalhe que cercava a sua vida e a de seus pais. E Amália sabia que não podia odiar alguém que tratava seus pais com tanta consideração. A porta se abriu novamente. — Está na hora. Amália respirou fundo. Então caminhou. Cada passo parecia mais pesado que o anterior. O corredor estava cheio de vozes, pessoas e movimento. Familiares conversavam, convidados sorriam, todos animados com o evento. Mas, para Amália, tudo parecia distante — como se ela estivesse caminhando dentro de um sonho estranho, onde a suas vontades eram ignoradas. Quando as portas do grande salão se aproximaram, o seu coração começou a bater mais rápido. Ela podia ouvir o murmúrio das pessoas do outro lado. Sentir a expectativa no ar. Quando as portas se abriram, o salão mergulhou em silêncio. Amália entrou. Luzes suaves iluminavam o ambiente, refletindo nos cristais do teto. Rostos conhecidos a observavam enquanto ela caminhava lentamente até o centro. Mais à frente, ela podia ver as mulheres da Fênix, todas sorrindo e a encorajando a passar por aquilo. Amália era grata por isso. O pai dela segurava a sua mão com firmeza enquanto caminhavam em direção ao centro do salão, onde Ricardo e os outros aguardavam. — Você está maravilhosa, querida — disse Estela, abraçando-a. — Obrigada, senhora — respondeu Amália, com a cabeça baixa. — Bem, acho que podemos começar — disse Ricardo. Rapidamente, alguém entregou um microfone a ele, que chamou a atenção de todos. — Boa noite a todos. Gostaria de dar as boas-vindas. Hoje vocês foram convidados para presenciar a união de duas famílias, com as bênçãos da Fênix e de todos vocês aqui presentes. Então, gostaria de convidar o noivo a entrar. As luzes próximas à porta do salão se acenderam. Todos olharam em silêncio, aguardando a entrada do noivo. Quando a porta se abriu, Amália arfou. Era como se aquilo fosse um grande pesadelo — uma piada c***l do destino, que insistia em brincar com a sua vida, como se ela não fosse nada. Ali, parado diante de todos, com uma postura imponente que ela mesma nunca havia percebido antes, estava ele. Nerone. Os olhos de Amália embaçaram com as lágrimas que ameaçavam cair. Nerone caminhou lentamente em direção a eles, o terno ajustando-se ao seu corpo à medida que os seus passos o levavam para mais perto dela. O cabelo continuava curto, o tapa-olho no mesmo lugar de sempre, enquanto o seu único olho bom a encarava fixamente. Amália queria confrontá-lo. Queria exigir uma explicação — perguntar por que ele não tinha contado, por que havia brincado com ela daquela forma. Mas as palavras não vinham. Quando algo quente rolou por sua bochecha, ela percebeu que eram suas lágrimas, manchando o seu rosto e descendo sem permissão. Nerone parou diante deles, e o pai de Amália estendeu a mão da filha para ele. Nerone a pegou, maravilhando-se com o quão pequena ela parecia dentro da sua. — Hoje vocês vão testemunhar o compromisso entre Nerone Donati e Amália Siqueira. A Fênix hoje une um aliado valioso à família. Meus mais sinceros votos de felicidade. Todos assistiram quando Nerone retirou uma pequena caixa do bolso. Ele pegou o delicado anel e o colocou no dedo de Amália. Em seguida, aproximou-se e beijou a sua testa. Mas não havia passado despercebido ao seu olhar a forma como o corpo dela havia tremido com aquele gesto. Nerone queria que Amália reagisse. Que o ameaçasse, que brigasse com ele, como sempre fazia. Não queria aquela casca vazia diante de seus olhos. — Um brinde aos noivos! — disse Ricardo, erguendo a taça. Todos brindaram ao novo casal. — É melhor conversarem — acrescentou Ricardo, apontando para uma porta mais distante. Nerone apenas suspirou enquanto conduzia Amália, que o acompanhava em silêncio. Ele entrou na sala e fechou a porta atrás de si. Quando se virou, seu coração se encheu de tristeza. — Amália... — Você me enganou! — disse ela, com o maxilar trincado e os punhos cerrados. — Não te enganei. Queria apenas que você aproveitasse mais seus dias sem a minha sombra à sua volta — respondeu ele, com honestidade. Amália riu. Um riso que não chegava aos olhos — e que fez o peito de Nerone gelar ao ouvi-lo. — Como se isso fosse possível. Você controlou cada passo que eu dei nos últimos anos. Cada passo. E ainda tem a coragem de dizer que não queria me controlar? Patético. — Você está exagerando — disse ele, com um olhar hostil. Entendia que ela estava chateada, mas não permitiria que distorcesse as coisas. — Não estou — retrucou ela, aproximando-se dele. — Você não me queria? Agora você me tem. E farei questão de transformar a sua vida em um inferno.
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