Capítulo 4

944 Palavras
Capítulo 4 CORVO NARRANDO O morro nunca dorme. Mas nessa semana ele parecia mais acordado do que nunca. Homem meu sendo visto em rua errada. Rádio chiando mais que o normal. Carro estranho rodando à noite. Aviãozinho dizendo que tinha gente perguntando demais. O PCC não era burrö. Eles já tinham entendido que a Helen não tinha morrido. E se eles ainda não tinham vindo com tudo era porque estavam se preparando. Eu tava na sala de reuniões da minha casa, sentado na cabeceira da mesa de madeira maciça, com um copo de uísque na mão que eu nem bebia. Sapo de um lado. Batoré do outro. Dois gerentes mais atrás. Mapa do morro aberto na mesa. Pontos marcados em vermelho. — Eles tão se movimentando — Sapo disse. — A gente interceptou mensagem ontem. PCC tá juntando homem na Zona Oeste. — Não tão vindo só buscar ela — Batoré completou. — Tão vindo testar teu território. Eu cerrei os dentes. — Eles não vão pisar aqui. — Corvo — Sapo respirou fundo — a gente precisa falar disso. — Fala. — Por que a filha do inimigö ainda tá viva? O silêncio caiu pesado na sala. Todo mundo aqui pensou a mesma coisa. Eu sabia. Eu sentia no jeito que me olhavam. — Porque eu quero — respondi, seco. — Mas isso tá virando problema estratégico — Batoré falou. — Ela é moeda. Mas também é risco. Se o PCC descobrir onde ela tá… — ELA FICA VIVA ATÉ QUANDO EU QUISER — rosnei. — E NINGUÉM TOCA NELA SEM MINHA ORDEM. Sapo engoliu em seco. — Irmão com todo respeito tu prometeu vingança. Até agora só tem ameaça. Minha mão apertou o copo com tanta força que o vidro estalou. Amanda morta no chão. O sangue escorrendo. O olhar vazio. Meu peito queimou. — VOCÊ ACHA QUE EU ESQUECI? — berrei. — VOCÊ ACHA QUE EU DURMO SEM VER A CARA DELA MORTA? Silêncio. — Eu vou resolver isso hoje. Levantei da mesa. Saí sem olhar pra ninguém. O corredor até o cativeiro parecia mais longo do que nunca. Cada passo vinha com uma lembrança. O sorriso da Amanda. O cheiro do cabelo dela. A mão dela segurando a minha. Eu parei em frente à porta grossa de metal. Minha mão tremia. De ódio. De culpa. De desejo de fazer alguém pagar. — Eu devia ter matado você — murmurei, antes de abrir. A porta rangeu. Ela tava sentada na cama, joelhos dobrados, costas na parede. Olheiras fundas. Rosto duro. Mas ainda inteira. Ela levantou o olhar quando me viu. Não implorou. Nunca implorava. — Veio terminar o serviço? — ela perguntou. A voz rouca. Afiada. Fechei a porta atrás de mim. Devagar. O barulho ecoou no quarto. — Levanta. Ela levantou. Sem pressa. Isso me irritou. Aproximei até ficar a um palmo do rosto dela. — Eu posso te fazer desejar a morte. — Então faz — ela respondeu. — Ou você só fala? Minha mão subiu sozinha. Segurei o queixo dela com força. Ela não gemeu. Não chorou. Não desviou o olhar. Algo errado aconteceu dentro de mim aqui. Algo que eu não sentia desde a Amanda. — Você acha que é forte — rosnei. — Mas todo mundo quebra. — Você já quebrou — ela respondeu, fria. — Eu tô só esperando você admitir. Eu empurrei ela contra a parede. O corpo dela bateu seco. Meu corpo colado no dela. Meu braço prendendo ela. Meu rosto perto demais. Eu senti o cheiro dela. Sabonete barato. Pele. Algo quente subiu pela minha espinha. Desejo. Ódio. Tudo misturado. Isso me deixou enjoado de mim mesmo. — Não tenta jogar comigo — rosnei. Ela sorriu. Um sorriso pequeno. Provocador. — Você já perdeu. Minha respiração ficou pesada. Meu päu ficou duro. E eu odiei isso. Eu odiei ela. Me odiei mais ainda. Soltei ela bruscamente. Dei um passo pra trás. Passei a mão no rosto. — Você quer morrer? — Não — ela respondeu. — Mas eu não tenho medo de você. Isso me desarmou por meio segundo. Só meio segundo. O suficiente pra eu tomar uma decisão. Pior que a morte. — Você não vai morrer — eu disse. Ela franziu a testa. — Não? — Você vai viver. O olhar dela ficou desconfiado. — Aqui. — Comigo. Ela engoliu em seco. — Você é doente. — Eu sou teu infernö. Saí do quarto. — PREPARA UM QUARTO PRA ELA NA CASA — ordenei no rádio. — CAMA BOA. BANHEIRO. ROUPA. TRAVA POR FORA. SEGURANÇA 24 HORAS. — Corvo… — Sapo respondeu — tu tem certeza disso? — TENHO. — E ela? — NINGUÉM TOCA NELA. QUEM ENCOSTAR MORRE. ( ... ) Uma semana se passou... Eu não dormi em casa. Fiquei rodando. Matando. Bebendo. Transandö com qualquer mulher que não fosse ela. Nada adiantou. Ela tava na minha cabeça. O jeito que ela me olhou. O jeito que ela não implorou. O jeito que ela me enfrentou. Quando eu voltei pra casa, já era noite. Subi direto pro quarto dela. Abri a porta com força. Ela tava sentada na cama, lendo um livro velho. Levantou o olhar. — Veio me matar agora? — Não. Fechei a porta. — Você vai sair comigo no fim de semana. — Pra onde? — Pro baile do morro. Ela arregalou os olhos. — Você é louco. — Você é minha agora. Ela levantou. — Eu não sou propriedade de ninguém. Eu sorri. Um sorriso feio. — É sim. Cheguei perto. — Você não vai morrer. Cheguei mais perto. — Vai viver... Encostei o dedo no queixo dela. — E viver comigo é pior...
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